Alerta em São José do Rio Preto: Casos de câncer de boca disparam 44% e Funfarme investe em diagnóstico precoce
A saúde pública no interior paulista enfrenta um desafio crescente e alarmante. Em São José do Rio Preto, o Hospital de Base, mantido pela Fundação Faculdade Regional de Medicina (Funfarme), registrou um aumento de 44% nos casos de câncer de boca ao longo dos últimos seis anos. Este dado acende um sinal de alerta para a importância crítica do diagnóstico precoce da doença, que ainda é frequentemente identificada em estágios avançados, dificultando o tratamento e, consequentemente, reduzindo as chances de cura. Em resposta a essa escalada de ocorrências, a instituição tem intensificado suas ações para capacitar profissionais da atenção primária, visando uma detecção mais ágil e eficaz.
Em meio à campanha nacional “Maio Vermelho”, dedicada à conscientização e prevenção do câncer bucal, a Funfarme promoveu um evento crucial para aprimorar as estratégias de combate à doença. A iniciativa, intitulada “Maio Vermelho: Estratégias para o Diagnóstico Precoce do Câncer de Boca”, foi realizada no Anfiteatro Fleury da Famerp. O encontro reuniu uma vasta gama de especialistas e equipes da rede básica de saúde, com o objetivo central de munir esses profissionais com o conhecimento necessário para identificar lesões suspeitas e garantir o encaminhamento rápido dos pacientes para o tratamento especializado.
Cenário alarmante
O cenário na região de São José do Rio Preto reflete uma tendência preocupante em todo o Brasil. Somente em 2025, o Hospital de Base diagnosticou 36 novos casos de câncer de boca, correspondendo a cerca de 25% de todos os diagnósticos de câncer da região de cabeça e pescoço atendidos pela instituição. Os números revelam que, apesar dos avanços na medicina, a doença continua a ser um grave problema de saúde pública, com um impacto significativo na vida dos pacientes e de suas famílias.
No contexto nacional, os dados também são alarmantes e exigem atenção. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta cerca de 17.190 novos casos de câncer de boca por ano para o triênio 2026–2028. A doença figura como o quinto tipo de câncer mais frequente entre os homens no país. O estado de São Paulo, em particular, concentra a maior parcela desses diagnósticos, com aproximadamente 3 a 4 mil novos casos anuais, evidenciando a urgência de ações preventivas e de rastreamento em todo o território paulista.
O doutor Horácio Ramalho, diretor executivo da Funfarme, sublinha a relevância da intervenção. “O aumento dos casos de câncer de boca que temos observado reforça a importância de investir na detecção precoce”, afirma. Ele destaca ainda o papel primordial dos profissionais da atenção primária: “Por isso, a Funfarme tem priorizado a capacitação dos profissionais da atenção primária, que são fundamentais para identificar sinais precoces e garantir um encaminhamento mais ágil e adequado dos pacientes”. Esta abordagem estratégica busca fortalecer a linha de frente do sistema de saúde na batalha contra a doença.
Diagnóstico tardio
Apesar do aumento no número de atendimentos, que pode, em parte, refletir uma maior agilidade no acesso dos pacientes, o diagnóstico tardio permanece como um dos principais entraves para a cura. O doutor Joab Cabral Ramos, titular do Departamento de Odontologia Hospitalar do Hospital de Base, explica que o serviço de sua unidade tem garantido um encaminhamento direto do paciente com suspeita da unidade de saúde para o ambulatório, agilizando o processo inicial. Contudo, o estágio em que muitos pacientes chegam ao serviço ainda é avançado.
O doutor Joab Ramos ressalta que o câncer de boca é, de fato, um dos tipos mais frequentes entre os homens e continua a apresentar uma elevada taxa de mortalidade, em grande parte devido à detecção em fases avançadas. “O câncer de boca, quando identificado precocemente, tem altas taxas de cura e menor morbidade no tratamento. O grande problema é que muitos pacientes ainda chegam em estágios avançados da doença”, alerta o especialista. Essa realidade sublinha a necessidade imperativa de campanhas de conscientização e de aprimoramento contínuo da capacidade de diagnóstico inicial.
Mais da metade dos casos, conforme apontado pelo especialista, resultam em alta mortalidade precisamente porque o diagnóstico ocorre em fases tardias. Os principais fatores de risco associados à doença incluem o consumo de álcool e tabaco, hábitos que potencializam significativamente o desenvolvimento do câncer bucal. Além disso, a exposição solar sem a devida proteção é um fator relevante, especialmente nos casos que afetam os lábios. A combinação desses hábitos e exposições aumenta consideravelmente a vulnerabilidade ao desenvolvimento da doença, tornando a prevenção ainda mais crucial. Para mais informações sobre prevenção, acesse o site do <a href="https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-boca" target="_blank" rel="noopener">Inca</a>.
O perfil mais comum de pacientes, de acordo com o doutor Joab Ramos, ainda é de indivíduos acima dos 50 anos, fumantes e consumidores crônicos de álcool. No entanto, uma nova preocupação tem ganhado espaço nas discussões médicas: a relação entre o vírus HPV (Papilomavírus Humano) e o câncer de base de língua. Esta associação recente reforça a importância de práticas de sexo oral protegido como medida preventiva, ampliando o leque de fatores a serem considerados na prevenção do câncer bucal e em campanhas de saúde pública.
Sinais de alerta
O câncer bucal pode se manifestar em diversas regiões da cavidade oral, incluindo a língua, os lábios, o assoalho da boca, as gengivas, as bochechas e o céu da boca. Reconhecer os sinais de alerta é crucial para a detecção precoce e para o sucesso do tratamento. Manchas brancas ou avermelhadas que surgem na cavidade oral, por exemplo, devem ser observadas com atenção, pois podem indicar lesões precursoras.
Feridas que se assemelham a aftas, mas que não cicatrizam em um período de até 14 dias, são um dos principais indicadores de que algo pode não estar bem. “Uma afta que não melhora em duas semanas já merece avaliação especializada”, enfatiza o dentista. Outros sintomas importantes que não devem ser ignorados incluem dor persistente, sangramento inexplicável na boca, rouquidão contínua, dificuldade para engolir (disfagia) e perda de peso sem causa aparente. A presença de qualquer um desses sinais requer uma consulta médica ou odontológica imediata, pois o tempo é um fator determinante para o prognóstico.
Ação estratégica
A capacitação promovida pela Funfarme, direcionada aos profissionais da rede de atenção à saúde do Departamento Regional de Saúde (DRS XV), é uma peça fundamental na estratégia de combate ao câncer bucal. O evento reuniu dentistas, médicos, residentes, fonoaudiólogos e equipes multidisciplinares das Unidades Básicas de Saúde (UBS), fortalecendo a capacidade de identificação de lesões iniciais pelos profissionais da atenção primária. Esta iniciativa visa, acima de tudo, reduzir o tempo entre a suspeita de câncer bucal e o encaminhamento para o tratamento especializado, um fator que pode fazer a diferença na vida do paciente.
O doutor Joab reitera a importância de tal treinamento: “A intenção é evitar que o paciente fique realizando tratamentos que não trazem resposta enquanto a doença evolui. Queremos capacitar os profissionais para reconhecer lesões precursoras do câncer o mais cedo possível”. O tratamento cirúrgico é a principal estratégia terapêutica para os casos diagnosticados precocemente, com altas chances de cura. Para os pacientes em que a cirurgia não é viável, a quimioterapia e a radioterapia são as alternativas. A agilidade no diagnóstico, portanto, não apenas melhora o prognóstico, mas também oferece opções de tratamento menos invasivas e mais eficazes.
Diante do alarmante aumento de casos de câncer de boca, a mobilização de instituições como a Funfarme e o investimento em capacitação de profissionais da saúde pública tornam-se indispensáveis. A campanha “Maio Vermelho” e iniciativas de educação continuada são pilares para transformar o cenário, promovendo o diagnóstico precoce e salvando vidas. A conscientização da população sobre os fatores de risco e os sinais de alerta, aliada à preparação contínua dos profissionais de saúde, é a chave para enfrentar e reverter essa tendência preocupante, garantindo um futuro com mais saúde bucal para a população.
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