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06 de March de 2026

Anatel inicia remoção de orelhões em todo o Brasil, impactando o Noroeste de SP

Geral
21/01/2026 08:01
Redacao
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A paisagem urbana brasileira testemunha a gradual despedida de um de seus ícones mais reconhecíveis: o orelhão. Presente em ruas, praças e estabelecimentos comerciais por décadas, o tradicional telefone público, que recentemente ganhou destaque no cenário internacional ao se tornar um elemento central no filme ‘O Agente Secreto’ — premiado no Globo de Ouro 2026 —, está sendo definitivamente removido das vias. A medida, impulsionada pelo encerramento das concessões de telefonia fixa e pela drástica queda em sua utilização, sinaliza o fim de uma era na comunicação pública do país.

No enredo de ‘O Agente Secreto’, ambientado na década de 1970, o orelhão transcende sua função utilitária para assumir um papel quase narrativo. Em diversas sequências, o protagonista Marcelo, interpretado por Wagner Moura, faz uso frequente do aparelho para suas comunicações, transformando a imagem do telefone público em uma marca distintiva da produção e um elemento chave na divulgação global do filme. Essa representação cinematográfica não apenas evoca a nostalgia, mas também ressalta a importância cultural e social do equipamento em um período em que o acesso à telefonia era mais restrito e a comunicação pública desempenhava um papel vital no cotidiano.

Fora das telas, a realidade da infraestrutura de telefonia pública reflete as profundas transformações tecnológicas e comportamentais da sociedade. No início do mês corrente, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) oficializou o processo de retirada definitiva dos telefones públicos em território nacional. A iniciativa é uma consequência direta do encerramento dos contratos de concessão do STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado), que, por anos, impunham às operadoras a obrigatoriedade de manutenção e expansão da rede de orelhões.

As concessionárias Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica, que detinham a responsabilidade pela operação e manutenção desses serviços, deixam de ter essa imposição regulatória com o fim dos contratos. A decisão da Anatel alinha-se a uma tendência global de desativação de infraestruturas de telefonia pública, dada a ubiquidade dos dispositivos móveis e a consequente diminuição da demanda por esses terminais. A agência destaca que a remoção será gradual, seguindo critérios técnicos e a avaliação da mínima essencialidade em determinadas localidades, embora a maior parte do parque esteja obsoleta em termos de uso.

Contexto regulatório

A obsolescência dos orelhões tem sido um tópico de debate regulatório há anos. Originalmente concebidos como uma ferramenta de democratização da comunicação, os telefones públicos perderam sua função estratégica à medida que a penetração dos celulares no Brasil atingiu níveis elevados. Dados recentes da Anatel e de outras pesquisas setoriais consistentemente apontam para uma utilização residual dos orelhões, muitas vezes restrita a nichos específicos ou situações de emergência onde outras opções de comunicação não estão disponíveis. A manutenção de uma infraestrutura subutilizada representa um custo significativo para as operadoras, que, sem a obrigatoriedade contratual, optam pela desativação.

A região noroeste do estado de São Paulo exemplifica a dimensão da remoção em curso. De acordo com informações divulgadas pela Anatel, a área ainda abrigava 787 orelhões ativos antes do início do processo de desativação. A concentração desses aparelhos variava significativamente entre os municípios, refletindo o histórico de implantação e a densidade populacional.

Em São José do Rio Preto (SP), por exemplo, a maior cidade da região, foram contabilizados 377 orelhões. Araçatuba (SP) seguia com 114 unidades, enquanto outras cidades como Votuporanga, Catanduva e Barretos também apresentavam um número considerável de aparelhos. A retirada desses terminais altera o panorama urbano e simboliza uma transição definitiva para novos modelos de conectividade. A Anatel prevê que a desativação nesta região seguirá o cronograma nacional, priorizando a eficiência e minimizando eventuais impactos à população.

Design do orelhão

A história do orelhão é intrinsecamente ligada à inovação e à busca por democratizar o acesso à comunicação no Brasil. Criado em 1971 pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, enquanto trabalhava na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), o telefone público de formato esférico rapidamente se tornou um marco. Seus apelidos iniciais, como ‘tulipa’ e ‘capacete de astronauta’, eventualmente cederam lugar ao definitivo e carismático ‘orelhão’, devido à sua semelhança com uma orelha humana.

O design revolucionário de Chu Ming Silveira não era apenas estético. O formato de ‘ovo’ ou ‘concha’ possuía uma justificativa funcional primordial: otimizar a acústica. Ao projetar o som para fora da cabine, o design minimizava os ruídos externos, proporcionando maior clareza às conversas e oferecendo uma certa proteção contra intempéries. Essa inovação garantiu não só a funcionalidade, mas também a durabilidade e a adaptabilidade do equipamento em diversas condições climáticas e urbanas, resultando em sua reprodução em países como Peru, Angola, Moçambique e China.

O primeiro orelhão foi instalado no Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1972, seguido por São Paulo apenas cinco dias depois. Rapidamente, o equipamento se disseminou por todo o país, transformando-se em ponto de referência, local de encontro e até mesmo abrigo improvisado. As ‘chamadas a cobrar’ tornaram-se um rito social, com a expectativa de ‘cair a ficha’ — literalmente — para completar a ligação, consolidando o orelhão no imaginário popular brasileiro. [Link interno para matéria sobre a vida e obra de Chu Ming Silveira]

Evolução da conectividade

A ascensão da telefonia móvel e, posteriormente, dos smartphones com acesso à internet, marcou o declínio gradual dos orelhões. A portabilidade, a privacidade e a multifuncionalidade dos dispositivos pessoais superaram largamente as vantagens dos terminais públicos. A capacidade de realizar chamadas, enviar mensagens, acessar a internet e utilizar uma miríade de aplicativos a qualquer momento e em qualquer lugar, tornou o telefone fixo, e em particular o orelhão, uma ferramenta de comunicação secundária.

A transição do analógico para o digital e a massificação das redes 3G, 4G e, mais recentemente, 5G, cimentaram a dominância da comunicação móvel. Campanhas de educação digital e a popularização de planos de dados acessíveis contribuíram para que a maior parte da população brasileira tivesse um smartphone como seu principal meio de comunicação, tornando a infraestrutura dos orelhões redundante para a grande maioria dos cidadãos.

Com a remoção dos orelhões, surge a discussão sobre o futuro da conectividade pública. Embora a maioria da população esteja conectada via dispositivos móveis, ainda existem grupos que podem enfrentar barreiras de acesso, como comunidades de baixa renda, idosos sem familiaridade com tecnologias digitais ou em áreas com cobertura deficiente de sinal. A Anatel e outras entidades regulatórias e sociais monitoram a transição para assegurar que a desativação dos telefones públicos não crie lacunas de inclusão digital.

A solução para a conectividade pública no futuro pode envolver a expansão de redes Wi-Fi gratuitas em espaços públicos, a implementação de pontos de acesso comunitários e o fomento a programas de inclusão digital que capacitem os cidadãos a utilizar as tecnologias mais recentes. A remoção dos orelhões, portanto, não é apenas o fim de um capítulo, mas também o catalisador para a reavaliação e o aprimoramento das políticas de conectividade e acesso à comunicação em um país cada vez mais digitalizado.

A desativação do orelhão representa mais do que a simples retirada de um equipamento; é o reconhecimento de uma mudança paradigmática na forma como a sociedade se comunica. Seu legado, no entanto, permanece vivo na memória coletiva e na cultura popular, conforme evidenciado por sua recente aparição em obras cinematográficas, marcando a história da telefonia e da identidade urbana brasileira.

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