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06 de March de 2026

Após fim da concessão, retirada de orelhões transforma as ruas brasileiras

Geral
23/01/2026 09:47
Redacao
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Os telefones públicos, carinhosamente apelidados de orelhões e outrora símbolos onipresentes do cenário urbano brasileiro, estão em processo de retirada gradual das ruas. Este movimento marca o fim de uma era na comunicação nacional, impulsionado pela evolução tecnológica e pela popularização massiva dos telefones celulares. A desativação desses equipamentos reflete não apenas uma mudança infraestrutural, mas também uma profunda alteração nos hábitos de comunicação da população.

A decisão pela retirada de orelhões é uma consequência direta do encerramento, no ano passado, das concessões dos serviços de telefonia fixa que eram operados por cinco grandes empresas no país. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), órgão regulador do setor, autorizou o fim da obrigatoriedade de manutenção desses equipamentos em vias públicas, reconhecendo o desuso generalizado que os tornou praticamente obsoletos frente ao avanço da telefonia móvel. Este processo, embora definitivo, não ocorre de forma instantânea em todas as localidades, configurando uma transição faseada.

O orelhão, com seu design característico e estrutura robusta, já foi um ponto de contato vital para milhões de brasileiros. Em um passado não tão distante, antes da era dos smartphones, era comum vê-los em praças, rodoviárias e esquinas movimentadas, servindo como a principal ponte para a comunicação à distância. Para muitos, representava a única forma acessível de contatar familiares, amigos ou resolver urgências, tornando-se um elemento indispensável na rotina diária.

A ubiquidade do celular, no entanto, redefiniu o conceito de comunicação pessoal. Com aparelhos em praticamente todos os bolsos, a necessidade de recorrer a um telefone público se dissolveu. O que antes era uma ferramenta de conexão essencial, hoje é muitas vezes percebido como um resquício de uma tecnologia superada, ocupando espaço sem a mesma utilidade prática. Essa transição reflete uma mudança estrutural profunda no setor de telecomunicações do Brasil, que se adaptou rapidamente às inovações.

Decisão da Anatel

A retirada de orelhões é formalizada por uma série de regulamentações da Anatel que acompanham a evolução do mercado. Com o término das concessões de telefonia fixa, as empresas operadoras não são mais legalmente compelidas a manter e ofertar os serviços de voz por meio de telefones de uso público, abrindo caminho para a desativação progressiva. A agência reconheceu a inviabilidade econômica e a falta de demanda para a manutenção de uma infraestrutura que, por décadas, foi financiada e regulada como um serviço universal. A medida visa otimizar os recursos do setor e direcionar investimentos para tecnologias mais atuais e demandadas pela sociedade.

Apesar da diretriz de retirada de orelhões, o processo não é homogêneo em todo o território nacional. A Anatel estabeleceu critérios para que os telefones públicos sejam mantidos em regiões específicas onde a cobertura de rede de celular é inexistente ou precária. Essa condição garante que comunidades isoladas ou áreas com infraestrutura de telecomunicações limitada não fiquem completamente desassistidas de meios de comunicação essenciais. A implementação dessa medida gradual reflete uma preocupação em balancear a modernização com a garantia do acesso universal à comunicação.

Municípios e localidades que ainda dependem da comunicação via orelhão, seja por falta de sinal de telefonia móvel ou por outras vulnerabilidades tecnológicas, verão a permanência desses aparelhos. O mapeamento dessas áreas é uma etapa crucial no processo de desativação dos orelhões, assegurando que a transição seja justa e não prejudique populações que ainda não foram plenamente alcançadas pela infraestrutura moderna de telecomunicações. É um adeus que respeita as particularidades geográficas e sociais do Brasil.

Os números revelam a celeridade com que a retirada de orelhões tem avançado. Dados da Anatel indicam que, em 2020, o Brasil contava com aproximadamente 202 mil orelhões em pleno funcionamento. Essa quantidade, já bem menor do que em seu auge, sinalizava o início de um declínio. A projeção da agência para o início de 2026 aponta para uma redução ainda mais acentuada, com o número de telefones públicos operacionais não ultrapassando a marca de 40 mil. Essa queda de mais de 80% em um período de seis anos ilustra a rapidez da obsolescência e a efetividade da desativação dos orelhões.

Memórias conectadas

Apesar de sua iminente retirada de orelhões, esses aparelhos deixam um legado de histórias e memórias. O vendedor Carlos Roberto Gomes, por exemplo, recorda com nostalgia a época em que se hospedava em Mendonça e dependia do orelhão da Praça da Igreja Matriz para se comunicar com a família em São Paulo. “Como era o único aparelho da praça, às vezes havia até fila de espera para poder usar o orelhão”, destaca Carlos, enfatizando a importância central que esses telefones públicos detinham na vida cotidiana.

Valdir Rubens Feltrin, cabeleireiro, compartilha uma experiência similar, lembrando-se da versatilidade de um orelhão próximo ao seu salão, que não só permitia fazer ligações, mas também as recebia. “Era muito comum alguém ficar esperando na frente do orelhão ele tocar para atender uma ligação que estava aguardando”, evoca Valdir. Essas narrativas ilustram a dimensão social e comunitária que os orelhões representavam, funcionando como verdadeiros pontos de encontro e conexão em tempos de menos conectividade individual.

A cultura em torno dos orelhões gerou, inclusive, um nicho de colecionadores. Carlos Roberto Gomes, em sua jornada, desenvolveu uma paixão por cartões telefônicos, que se tornou um hobby significativo. Ele guarda, em uma pasta dedicada, mais de 800 cartões diferentes, muitos dos quais são considerados verdadeiras relíquias. Entre eles, destacam-se conjuntos que formam a bandeira do Brasil, além de edições temáticas com times de futebol, personagens históricos e imagens de cidades brasileiras, lançados periodicamente pela antiga Telesp e avidamente disputados.

A raridade e o valor sentimental desses itens são notáveis. “Chegaram a me oferecer mais de dois mil reais pela minha coleção, porque entre os cartões tenho muitos que são raridades”, revela Carlos. Essa coleção transcende o mero passatempo, representando um elo tangível com uma era da comunicação que agora se encerra. A retirada de orelhões das ruas eleva o status desses cartões de simples meios de pagamento a verdadeiros artefatos históricos.

Transição tecnológica

A retirada de orelhões simboliza uma mudança estrutural mais ampla na sociedade brasileira, que se adapta a um cenário onde a comunicação pessoal é predominantemente móvel e digital. Essa transição tem impacto direto na dinâmica social e urbana, alterando a forma como as pessoas interagem com o espaço público e com os serviços de telecomunicações. Se, por um lado, a desativação reflete o avanço tecnológico e a conveniência, por outro, evoca reflexões sobre a garantia da inclusão digital para todos os estratos da população.

A transição da infraestrutura de telecomunicações, da qual a remoção dos orelhões faz parte, impõe o desafio de assegurar que ninguém seja deixado para trás. Governos e empresas precisam continuar a investir na expansão da cobertura de redes móveis e de internet, especialmente em áreas rurais e remotas, para que a substituição de um serviço obsoleto não crie novas barreiras de acesso à comunicação para comunidades vulneráveis. É um processo que exige vigilância e planejamento contínuo.

Com o advento da retirada de orelhões, o futuro da comunicação pública se desenha em torno de soluções mais modernas e integradas. A tendência é que pontos de acesso Wi-Fi públicos, bibliotecas com acesso à internet e centros comunitários equipados se tornem os novos pilares para garantir a conectividade para aqueles que não possuem acesso individual. A infraestrutura de quinta geração (5G) promete expandir ainda mais a cobertura, mas a universalização do acesso à internet de qualidade ainda é um desafio a ser superado.

A extinção da obrigatoriedade dos orelhões abre espaço para que as operadoras de telefonia e o poder público foquem em inovações que realmente atendam às necessidades contemporâneas. Isso inclui a promoção de planos de internet acessíveis, a expansão de fibra óptica e a implementação de tecnologias emergentes. Embora o icônico orelhão esteja desaparecendo, o compromisso com a conectividade e a comunicação universal permanece, adaptando-se às novas ferramentas e possibilidades que a era digital oferece. Você também pode [acessar o portal da Anatel para acompanhar as últimas regulamentações do setor.

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