Feminicídio em São José do Rio Preto: marido se entrega após assassinar esposa
São José do Rio Preto, SP – A cidade de São José do Rio Preto, no interior paulista, foi palco de um trágico feminicídio na tarde da última quarta-feira (21), quando Elisângela Aparecida Matheus, de 51 anos, foi brutalmente assassinada a facadas por seu marido, Hiago Moreira Schnornberger, de 32 anos. O crime ocorreu dentro da residência da família, no Jardim Maria Lúcia, e chocou a comunidade, especialmente por ter sido presenciado pela filha adolescente da vítima. O suspeito, que havia fugido do local após o ato, entregou-se à polícia na quinta-feira (22), em Mirassol, e foi encaminhado à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São José do Rio Preto para prestar depoimento.
O caso lança luz sobre a persistente problemática da violência doméstica e do feminicídio no Brasil. De acordo com Milena Cristina Giuliete, filha mais velha de Elisângela, a relação entre sua mãe e Hiago sempre foi marcada por conflitos e um comportamento possessivo. Em entrevista à TV TEM, Milena descreveu o padrasto como um homem 'muito ciumento', fator que, segundo ela, culminou na fatalidade que tirou a vida de sua mãe na frente de membros da própria família.
Cenário do crime
No dia do crime, Elisângela havia acompanhado Milena e sua neta, uma bebê de apenas um ano e 11 meses, a uma consulta com uma nutricionista. Durante o atendimento, a vítima teria ficado incomunicável, situação que, de acordo com a filha, irritou profundamente o marido.
“Ela [Elisângela] estava sem internet. Além disso, tem momentos em que a gente precisava conversar com a médica. Acabou que ela ficou comigo, já que cuidava da minha nenê e podia falar um pouco da alimentação dela. Ela foi muito importante nesse dia da consulta, e acho que foi nesse momento que ela não atendeu”, explicou Milena, contextualizando o motivo da 'incomunicabilidade' que teria deflagrado a fúria do companheiro.
Além da bebê, a filha de 15 anos da pedagoga também estava presente na casa no momento do assassinato, testemunhando o drama que se desenrolaria. O retorno à residência se tornou o palco para o desfecho trágico de um relacionamento já conturbado, intensificando a discussão e as tensões preexistentes.
Agressão e socorro
Após a consulta e a chegada em casa, o casal Hiago e Elisângela se isolou em um dos quartos da residência, trancando a porta. A filha adolescente do casal relatou à irmã Milena ter ouvido Hiago chorando e implorando para que Elisângela reconsiderasse a decisão de terminar o relacionamento, uma situação que, segundo a família, já havia se repetido em diversas ocasiões anteriores. Logo em seguida, os apelos transformaram-se em agressões verbais e, posteriormente, físicas.
Os gritos de socorro da mãe alertaram a filha de 15 anos, que, em um ato desesperado, arrombou a porta do quarto. Ao presenciar a violência, a adolescente tentou intervir para proteger Elisângela, mas não conseguiu conter a fúria de Hiago. Após assassinar a esposa com golpes de faca, o suspeito fugiu a pé e descalço do local, abandonando a arma do crime, um punhal, na entrada da residência. Câmeras de segurança registraram o momento de sua fuga.
A equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionada pela adolescente. Os socorristas, ao chegarem à residência, iniciaram os procedimentos de reanimação, que duraram cerca de 30 minutos, mas Elisângela não resistiu aos ferimentos e faleceu no local. O impacto emocional foi devastador para a filha mais nova, que precisou ser medicada devido ao estado de choque, conforme informou Milena. A cena do crime e o trauma vivenciado pelas crianças reforçam a gravidade das consequências da violência doméstica para toda a estrutura familiar. Para mais informações sobre apoio a vítimas, consulte o [link para site de apoio à mulher].
Ciúmes e ameaças
A história da relação entre Elisângela e Hiago era marcada por um ciclo de ciúmes, controle e violência. Milena relembrou à reportagem que, além do ciúme exacerbado, Hiago exercia um controle rigoroso sobre a vida da mãe. “Ele era muito ciumento. Depois que veio morar aqui com a minha mãe, não a deixava mais ter rede social sozinha — tinha que ser com a supervisão dele. Olhava o celular da minha mãe todos os dias. Tudo o que eu conversava com ela, coisas pessoais, ele olhava, porque eu sabia que era ele quem respondia”, revelou Milena, ilustrando o padrão de vigilância e invasão de privacidade.
A pedagoga também confirmou que houve uma agressão anterior, na qual Hiago chegou a ameaçar de morte tanto Elisângela quanto a filha mais nova. “No dia dessa agressão, ele falou que o pai dele viria para matar ela [adolescente] e a minha mãe. Aí ele foi embora, ela colocou as coisas dele para fora e ele foi. Mas depois voltou com aquela história de sempre: ‘Eu te amo, me perdoa’, e ela perdoou.” Esse padrão de violência seguido de reconciliação, infelizmente comum em casos de violência doméstica, levou o casal a formalizar a união em cartório há aproximadamente um mês e meio, um tempo curto para o trágico desfecho que se seguiria.
Investigação e prisão
A investigação do caso está a cargo da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São José do Rio Preto. De acordo com a delegada Karina Fernandes Melo Santana, responsável pelo inquérito, o corpo de Elisângela apresentava pelo menos três perfurações causadas pela faca, além de diversas marcas de defesa, indicando que a vítima tentou resistir e se proteger dos golpes durante o ataque brutal. O punhal utilizado no crime foi apreendido pela polícia como prova material.
Após a realização da perícia inicial, o corpo de Elisângela foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) para os procedimentos de praxe antes de ser liberado para o funeral. A apresentação espontânea de Hiago Moreira Schnornberger à Delegacia de Polícia em Mirassol, na tarde da quinta-feira, resultou em sua detenção e encaminhamento para a DDM de São José do Rio Preto, onde as investigações prosseguem para elucidar todos os detalhes e circunstâncias que levaram ao feminicídio. O agressor está agora sob custódia da justiça, aguardando as próximas etapas do processo legal.
Este caso ressalta a importância vital de se combater a violência contra a mulher em todas as suas formas. O feminicídio é a expressão mais extrema de um ciclo de agressões que, muitas vezes, começa com o ciúme excessivo e o controle sobre a parceira, escalando para ameaças e agressões físicas. A conscientização e a denúncia são ferramentas essenciais para quebrar esse ciclo e oferecer suporte às vítimas. Se você conhece alguém em situação de violência, não hesite em denunciar. Para obter informações sobre como denunciar, visite o [link para o site do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos].
A tragédia de Elisângela Aparecida Matheus é um lembrete doloroso de que a violência de gênero é uma realidade persistente em nossa sociedade, exigindo atenção contínua e esforços coordenados de todos os setores. A proteção da vida das mulheres é uma responsabilidade coletiva, e casos como este reforçam a urgência de políticas públicas eficazes e de uma cultura de respeito e igualdade. Leia também: [link para matéria sobre violência doméstica em SP].
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