Golpe em garagem de veículos em Rio Preto gera prejuízo milionário e une vítimas
São José do Rio Preto, no interior paulista, tornou-se palco de um esquema de estelionato que causou prejuízo a dezenas de proprietários de veículos. Um empresário do ramo de garagens é o principal suspeito de aplicar golpes que, segundo a Polícia Civil, já lesaram ao menos 30 pessoas oficialmente, mas o número pode ser muito maior. O modus operandi envolvia o financiamento de veículos sem autorização dos legítimos proprietários e a falsificação de assinaturas para a transferência irregular dos automóveis, gerando uma complexa teia de fraudes que atinge tanto vendedores quanto compradores.
O golpe foi descoberto quando vítimas, como Carlos Miguel Rós, de Bady Bassitt (SP), começaram a perceber que o valor da venda de seus carros não era repassado. Carlos, que deixou um veículo avaliado em R$ 36 mil em consignação na garagem do suspeito em 16 de janeiro, não recebeu o pagamento meses após a suposta venda. Esta situação é um exemplo da gravidade e da extensão do problema que agora se desenrola na região.
Esquema de fraudes
A mecânica do golpe era Engenhosa. O dono da garagem supostamente utilizava a confiança depositada pelos proprietários para financiar seus veículos em nome de terceiros, ou mesmo vendê-los sem a devida autorização. Para formalizar as transações fraudulentas, assinaturas eram falsificadas em cartório, permitindo a transferência dos carros de forma ilícita. Enquanto isso, o dinheiro das vendas não chegava aos bolsos dos verdadeiros donos dos veículos. Consequentemente, os compradores dos automóveis, também enganados, ficavam impossibilitados de regularizar a documentação, pois os proprietários originais jamais haviam recebido o pagamento, tornando as transações nulas.
Carlos Miguel Rós, proprietário de uma oficina em Bady Bassitt, relatou ao g1 a frustração e o desamparo. Após a venda de seu carro de R$ 36 mil e o não repasse do valor, ele buscou a garagem no bairro Vila Maceno, em 11 de março, apenas para encontrá-la abandonada. “Eu fui o primeiro a chegar, por volta das 8h, para tentar receber o dinheiro, mas a loja estava fechada. Perguntei ao pessoal da oficina ao lado e eles disseram que já era para estar aberta. Depois, mais pessoas começaram a chegar e, aí, percebemos que era um golpe”, contou Miguel, evidenciando o momento em que a verdade começou a vir à tona.
O relato de Miguel não era isolado. Outras vítimas compartilharam experiências semelhantes, mencionando que o suspeito marcava encontros para efetuar os pagamentos, mas desaparecia, deixando-os diante de estabelecimentos fechados e com a certeza de que haviam sido enganados. A cada novo depoimento, a dimensão do golpe se tornava mais clara, revelando a audácia do empresário e o impacto devastador em suas vítimas.
Busca por justiça
Diante da evidência de um golpe em larga escala, as vítimas rapidamente se uniram. Em pouco tempo, um grupo de mais de 30 pessoas se comunicou e formou uma força-tarefa por meio de um aplicativo de conversas, buscando justiça e maneiras de reaver seus bens e prejuízos. Até a última atualização desta reportagem, o grupo já contava com mais de 120 integrantes, com novas denúncias surgindo constantemente, o que demonstra a amplitude ainda desconhecida do esquema.
Miguel, que conheceu o suspeito por indicação de um cliente que já havia realizado vendas bem-sucedidas com o empresário, jamais imaginou que seria alvo de um esquema tão elaborado. A confiança no “novo no mercado, mas profissional de confiança”, como descrevia o conhecido, foi traída. A experiência do cliente anterior serviu como uma falsa garantia de credibilidade, permitindo que o golpista agisse com maior liberdade e persuadisse mais vítimas a consignar seus bens.
O carro de Carlos foi, posteriormente, localizado em Fernandópolis (SP), de onde o novo comprador entrou em contato, tentando, sem sucesso, transferir a documentação. “O comprador me ligou dizendo que não conseguia transferir o carro. Eu expliquei que não seria possível, porque eu também não recebi o pagamento. Falei que a gente caiu em um golpe e que agora está resolvendo tudo com advogados”, detalhou Miguel, revelando o nó jurídico e financeiro criado pelo empresário.
Além das vendas fraudulentas, Miguel contou que o suspeito usava uma tática de “despiste”: quando algum cliente reclamava, ele deixava o carro de outra pessoa para trás, alegando que o veículo era dele, quando, na verdade, pertencia a terceiros. Com a revelação do golpe, diversas vítimas agora se veem em posse de carros que não são legalmente delas, adicionando mais uma camada de complexidade e prejuízo à situação.
Investigação policial
O caso está sob investigação da Polícia Civil, que instaurou um inquérito por estelionato. O delegado responsável, Jonathan Marcondes, esclareceu que o suspeito está incomunicável desde o início das denúncias, o que reforça a tese de um golpe planejado. “Dado o número expressivo de vítimas, nós estamos tratando com a ideia inicial de que ele [investigado], desde o começo, já planejava esse tipo de golpe… Nós temos 30 pessoas que já procuraram a delegacia, porém há outras que fazem boletim de ocorrência em outras delegacias ou pela internet nas suas cidades. Nós acreditamos que possa vir pelo menos o dobro de vítimas”, afirmou o delegado, indicando que o esquema pode ter ramificações em outros municípios e um número final de lesados muito superior aos 30 inicialmente registrados. Para mais detalhes sobre investigações policiais, acesse o site da Polícia Civil de São Paulo.
Como parte das ações para mitigar os prejuízos e reaver os bens, os documentos dos veículos envolvidos nas fraudes estão sendo bloqueados. Essa medida visa evitar novas transferências ilegais e possibilitar a recuperação dos automóveis pelos seus legítimos donos, ao mesmo tempo em que a Polícia Civil trabalha para calcular o prejuízo total causado pelo esquema. A apuração continua para desvendar todos os detalhes e responsabilizar o autor das fraudes, trazendo um alento às famílias e indivíduos afetados.
O caso de São José do Rio Preto ressalta a importância da cautela nas transações comerciais de veículos e a necessidade de verificar a idoneidade dos intermediários. Enquanto a Polícia Civil avança na investigação, as vítimas continuam unidas, buscando uma resolução para o prejuízo material e a quebra de confiança. A expectativa é que a justiça seja feita e que o responsável pelas fraudes seja devidamente punido, servindo de alerta para o mercado e para os consumidores.
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