Itu: Berço da República e cidade dos exageros que nasceu a 400 anos
Enraizada em mais de quatro séculos de história, Itu, localizada às margens do rio Tietê, transcende a imagem de simples município paulista. Fundada em 1610 pelo bandeirante Domingos Fernandes, a cidade carrega em seu nome, de origem tupi-guarani, o significado poético de “queda d’água” ou “cachoeira”, um prenúncio de sua riqueza natural e histórica. Contudo, são seus apelidos, “Cidade dos Exageros” e “Berço da República”, que verdadeiramente capturam a essência de um lugar singular no cenário brasileiro.
A prosperidade de Itu começou a ser tecida nos ciclos econômicos do açúcar e, posteriormente, do café. No século XIX, a cidade ascendeu ao status de um dos municípios mais abastados da então Província de São Paulo, atraindo importantes fazendeiros e os influentes “barões do café”. Esta riqueza, fundamentada na produção açucareira para o mercado europeu e impulsionada pela mão de obra escravizada trazida da África, financiou um legado arquitetônico e religioso que ainda hoje impressiona.
Mas é na política que Itu fincou um de seus pilares mais robustos. Em 18 de abril de 1873, a cidade sediou um evento que mudaria os rumos do Brasil: a Convenção Republicana de Itu. Este encontro histórico reuniu 133 convencionais de diversas partes da província, marcando a fundação do PRP (Partido Republicano Paulista) e semeando as bases para a Proclamação da República, que ocorreria 16 anos depois. A relevância política de Itu é ainda reforçada pelo fato de ter sido o berço de Prudente de Moraes, o primeiro presidente civil da República, nascido ali em 1841.
Antes mesmo de sua projeção republicana, o município já demonstrava seu fervor cívico. Em 1842, Itu participou ativamente da Revolução Liberal Paulista, enviando cerca de 300 homens para integrar as tropas comandadas pelo brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar. Essa participação demonstra uma tradição de engajamento político e um espírito de autonomia que perpassa a história local, culminando nos movimentos que levariam à queda do Império e à ascensão do regime republicano.
Trajetória de relevância
A faceta mais leve e bem-humorada de Itu, a “Cidade dos Exageros”, nasceu na década de 1960. O responsável por essa identidade turística foi o ituano Francisco Flaviano de Almeida, conhecido artisticamente como Simplício. Em programas de televisão, Simplício divertia o público com a afirmação cômica de que tudo em sua terra natal era desproporcionalmente grande. A brincadeira cativou a audiência e rapidamente se tornou um ícone, parte inseparável do imaginário popular sobre Itu.
Consolidando essa fama, em 1973, um orelhão gigante de cerca de sete metros de altura foi instalado na Praça da Matriz. A estrutura não apenas se tornou um dos principais cartões-postais da cidade, mas também o ponto de partida para a criação de um parque temático único: a Praça dos Exageros. Este espaço lúdico exibe uma série de objetos em tamanho descomunal, como lápis, joaninhas, formigas, peças de xadrez e brigadeiros, solidificando a identidade humorística de Itu para visitantes de todas as idades.
Na Praça dos Exageros, uma escultura presta homenagem ao humorista Simplício, retratando seu personagem Rosalvo vestido com o uniforme do Ituano Futebol Clube. Rosalvo, que marcou época em programas como “Praça da Alegria”, personifica o espírito divertido que Simplício incutiu na cidade, transformando Itu em uma referência nacional do humor. A praça, com entrada gratuita, funciona de terça-feira a domingo, das 8h às 16h45, convidando à interação e ao lazer.
Patrimônio histórico
O rico acervo cultural de Itu é um convite à imersão em diferentes épocas da história brasileira. A cidade abriga museus que preservam desde a memória da luta republicana até a evolução da eletrificação no estado de São Paulo, passando por construções que são por si só obras de arte, testemunhas silenciosas de séculos de transformações.
Entre os atrativos de maior relevância, destaca-se o Museu Republicano da Convenção de Itu. Instalado no sobrado onde ocorreu o histórico encontro de 1873, seu acervo é um verdadeiro tesouro para pesquisadores e entusiastas da história. Documentos originais, móveis de época, fotografias e objetos pessoais de figuras como Prudente de Moraes, Campos Sales e Américo de Campos narram a trajetória do movimento republicano e seus protagonistas, oferecendo uma perspectiva íntima dos eventos que moldaram a nação.
Outro ponto de interesse é o Museu da Energia, abrigado em um belo casarão histórico com fachada ornamentada por azulejos portugueses. O museu cumpre a missão de preservar a memória da eletrificação paulista, apresentando exposições interativas que desvendam os segredos da produção e utilização da energia elétrica. É um espaço que concilia a arquitetura clássica com a modernidade da ciência, cativando visitantes de todas as idades com seu conteúdo didático e envolvente.
‘Roma Brasileira’
Itu também recebeu o epíteto de “Roma Brasileira” devido à impressionante concentração de igrejas e conventos históricos, além de um patrimônio arquitetônico riquíssimo dos séculos XVIII e XIX. O centro histórico da cidade, em particular, é um verdadeiro santuário de fé e arte, com seis igrejas centenárias que contam a história da devoção e da habilidade artística da região.
A Igreja de Santa Rita de Cássia, inaugurada em 1728, é a mais antiga edificação religiosa da cidade, um marco da arquitetura colonial. Próxima a ela, a Igreja do Bom Jesus, erguida em 1765, encanta pela fachada ornamentada com esculturas dos quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João –, exibindo a maestria dos artistas da época.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, inaugurada em 1780, é considerada uma das mais importantes obras do barroco paulista. Seu interior é um espetáculo de talha dourada e pinturas atribuídas a nomes como José Patrício da Silva, Padre Jesuíno do Monte Carmelo e Almeida Júnior. O templo também guarda um órgão de tubos fabricado em 1883 e pinturas de Lavínia Cereda, refletindo a riqueza artística e a importância da fé ao longo dos séculos na cidade.
Ainda no vasto legado religioso, o Convento do Carmo, cuja construção foi iniciada em 1719, é outro exemplo da influência da fé na prosperidade de Itu. Essas edificações, além de sua função religiosa, são cápsulas do tempo que revelam aspectos sociais, econômicos e artísticos de cada período, tornando-se pontos essenciais para a compreensão da identidade ituana.
Com aproximadamente 180 mil habitantes, Itu se mantém como um município de grande relevância histórica e turística. Seja pela herança política que a consagra como “Berço da República”, pela criatividade humorística que lhe rendeu o título de “Cidade dos Exageros”, ou pela riqueza de seu patrimônio arquitetônico e religioso que a apelida de “Roma Brasileira”, Itu oferece uma experiência multifacetada. A cidade convida a um mergulho em suas histórias, revelando camadas de significados que a tornam um destino imperdível no interior paulista, um verdadeiro mosaico da cultura e da memória do Brasil.
Tags:
Mais Recentes
Leia Também
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.









