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07 de October de 2026

Mulher obtém medida protetiva após anos de violência doméstica em São José do Rio Preto

Araçatuba
06/10/2026 20:00
Redacao

Em um desdobramento significativo na luta contra a violência doméstica, uma mulher de 51 anos em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, obteve uma medida protetiva contra seu ex-marido, um empresário de 48 anos. A decisão judicial surge após um relato chocante de agressões físicas e psicológicas que, segundo a vítima, se estenderam por aproximadamente nove dos dezoito anos de união estável formalizada. O caso, que ganhou destaque pela gravidade e pelo amparo legal concedido, evidencia a urgência em abordar e combater os ciclos de violência que muitas mulheres enfrentam no ambiente doméstico.

A mulher, cuja identidade será preservada para sua segurança, revelou ao g1 que o relacionamento com o empresário gerou uma filha, hoje com 17 anos. Contudo, a fachada de uma família unida mascarava uma realidade de tormento. As agressões, que se intensificaram ao longo dos anos, culminaram em um incidente gravado por câmeras de segurança, fornecendo provas contundentes da brutalidade sofrida. A defesa do suspeito, por sua vez, informou que não está autorizada a comentar o caso devido ao sigilo processual, conforme resguardado por lei.

Um dos episódios mais recentes e emblemáticos da violência ocorreu em 2 de março de 2024, quando a mulher foi brutalmente chutada pelo então marido na garagem da residência familiar. A cena, capturada por um sistema de segurança instalado no imóvel, mostra a vítima sendo atingida com um pontapé após uma discussão. Este incidente específico ilustra a escalada da agressividade do empresário e o ambiente de medo em que a família vivia.

A vítima relatou que, momentos antes da agressão na garagem, havia descoberto uma das diversas traições do ex-marido. "Nessa época, ele [empresário] andava bem agressivo e foi quando eu descobri o caso dele com a amante. Eu estava recolhendo uns panfletos que estavam jogados no chão e fui atingida por um pontapé", conta a mulher, revelando o pano de fundo emocional e a fragilidade em que se encontrava ao confrontar as infidelidades e a agressividade do companheiro. A dimensão da violência ia além da esfera física, abrangendo também a traição e o desrespeito.

Além da filha de 17 anos, a mulher também é mãe de um rapaz de 26 anos. A adolescente, testemunha ocular de muitas das agressões perpetradas pelo pai, desempenhou um papel crucial ao encorajar a mãe a buscar ajuda e denunciar. "Teve vários episódios de ele me empurrar e me jogar no chão. Eu vivia um inferno, não tinha paz. Foram inúmeras agressões. Quando eu descobria uma, perguntava se ele queria separar, mas sempre rejeitava a ideia e logo vinha outra e outra amante", detalha a vítima, sublinhando a intensidade do sofrimento e a complexidade do ciclo de violência.

A denúncia

O padrão de agressões e a recusa em aceitar a separação indicam um comportamento de controle e dominação, comum em casos de violência doméstica. A vítima descreve uma rotina de medo e angústia, onde a paz era uma miragem. A presença dos filhos durante os episódios de violência, em particular da filha do casal, ressalta o impacto devastador que tais condutas têm não apenas na vítima direta, mas em toda a estrutura familiar, perpetuando um ciclo de trauma e insegurança. A coragem de denunciar, muitas vezes, emerge do desejo de proteger a si e aos seus descendentes de um ambiente nocivo.

A situação atingiu um ponto de não retorno em 21 de agosto deste ano, quando o empresário foi detido após agredir a esposa na frente dos filhos. Foi a filha do casal, a mesma que antes a havia encorajado, quem acionou a Polícia Militar. A intervenção das autoridades marcou um divisor de águas, rompendo o silêncio e a impunidade que frequentemente cercam tais abusos. A denúncia, nesse contexto, assume um papel vital para quebrar o ciclo da violência e garantir a segurança das vítimas.

"A nossa filha chamou a polícia e ele saiu de casa preso. E, a seguir, entrou a medida protetiva. A nossa filha assistiu a ele me agredir muitas vezes. Inclusive foi por ela que tive coragem de reagir. Ele começou a torturar ela [a filha] também, ameaçar e dar soco na cara dela, grudar ela pelo pescoço", revela a vítima, expondo a gravidade da situação e como a violência se estendeu à filha, tornando a intervenção policial ainda mais urgente e necessária. A proteção dos filhos se tornou um motivador central para a denúncia.

Após a prisão, o empresário pagou fiança e foi liberado, um procedimento legal que, embora previsto, pode gerar apreensão nas vítimas. Contudo, a medida protetiva, concedida em 22 de agosto, estabeleceu um marco de segurança para a mulher e seus filhos. Desde então, o casal iniciou o processo de separação de corpos e a mulher deu entrada no pedido de divórcio, buscando reconstruir sua vida longe do ambiente de agressões e controle. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é fundamental para garantir esse amparo legal.

Questionada sobre as razões pelas quais não se separou antes, a vítima explicou o complexo emaranhado de fatores que a prendiam ao casamento. O sonho de manter a família unida era um forte motor, mas o controle financeiro abusivo exercido pelo ex-marido também desempenhava um papel significativo. Muitas vítimas de violência doméstica enfrentam essa barreira, onde a dependência econômica impede a busca por liberdade e segurança, reforçando a importância de redes de apoio e políticas públicas que visem à autonomia feminina.

O controle

"Ele restringia tudo do lado da parte financeira. Tudo, tudo, tudo eu não tinha acesso. Ele me proibia de trabalhar. Eu terminei minha faculdade, fiz Direito, e não consegui prestar OAB, pois logo casei e a gente abriu a empresa", desabafa a vítima, ilustrando a profundidade do controle exercido. A privação do acesso ao próprio sustento e a interrupção de uma carreira profissional são formas insidiosas de violência, que minam a autoestima e a capacidade de autossuficiência da mulher, dificultando a saída de relacionamentos abusivos.

O caso de São José do Rio Preto reflete uma realidade dolorosa presente em diversas famílias brasileiras. A violência doméstica é um crime complexo, que se manifesta de múltiplas formas — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral — e exige uma resposta articulada da sociedade, do sistema de justiça e das políticas públicas. A coragem de mulheres como esta, ao denunciar e buscar proteção, inspira outras a não se calarem e a buscarem o apoio necessário para romper com o ciclo de abuso.

A concessão da medida protetiva, amparada pela Lei Maria da Penha, representa um instrumento legal vital para a segurança da vítima, afastando o agressor e estabelecendo limites claros. No entanto, a efetividade dessa proteção depende de um acompanhamento contínuo e da conscientização de toda a comunidade. É fundamental que as vítimas saibam que não estão sozinhas e que existem canais de apoio, como o Ligue 180, a Polícia Militar (190) e os Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs).

Este caso reforça a urgência de uma mudança cultural que valorize o respeito, a igualdade e o direito à vida sem violência. A jornada da mulher de São José do Rio Preto, marcada por sofrimento, mas também por um ato de extrema coragem, é um testemunho da resiliência feminina e da necessidade imperativa de continuar o trabalho de prevenção e combate à violência doméstica em todas as suas manifestações. A denúncia é o primeiro e mais importante passo para a garantia de uma vida digna e segura.

A história dessa mulher em São José do Rio Preto, que finalmente encontrou amparo na justiça após anos de sofrimento, serve como um poderoso lembrete da importância de ouvir, acreditar e apoiar as vítimas de violência doméstica. A medida protetiva e o processo de divórcio marcam o início de um novo capítulo, de reconstrução e de busca pela paz. Que seu exemplo inspire a denúncia e a solidariedade, pavimentando o caminho para um futuro onde a segurança e a dignidade sejam direitos inalienáveis para todas as mulheres. Para mais informações sobre o tema, <a href="#" target="_blank" rel="noopener">confira outras notícias sobre violência contra a mulher</a> e <a href="https://g1.globo.com/sp/sao-jose-do-rio-preto-aracatuba/" target="_blank" rel="noopener">acompanhe as atualizações do g1 Rio Preto e Araçatuba</a>.



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