Projeto de revitalização da avenida Murchid Homsi gera debate em Rio Preto
Um ambicioso projeto de revitalização e combate a enchentes na Avenida Murchid Homsi, uma das principais artérias de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, tornou-se o centro de um acalorado debate. A proposta da Prefeitura, estimada em R$ 29 milhões, visa solucionar os históricos problemas de alagamento que afetam a via, mas levanta preocupações significativas devido à previsão de supressão de uma grande quantidade de árvores.
O plano prevê a remoção de 943 das 1.323 árvores existentes ao longo do canteiro central e no entorno da avenida. Esse número expressivo de cortes gerou forte reação de ambientalistas e moradores, que expressam apreensão com os potenciais impactos no microclima local e no já deficitário balanço de áreas verdes da cidade. O Ministério Público, atento à repercussão, já solicitou esclarecimentos ao Poder Executivo municipal, sinalizando a seriedade da controvérsia.
Projeto controverso
A discussão sobre o projeto ganhou destaque em audiências públicas realizadas na Câmara Municipal de São José do Rio Preto. O cerne da discórdia reside no dilema entre a necessidade de infraestrutura para conter as inundações e a preservação ambiental. A Avenida Murchid Homsi é reconhecida por sua arborização pujante, que contribui diretamente para o conforto térmico e a qualidade do ar na região, funcionando como um verdadeiro bosque urbano.
As audiências revelaram a preocupação com o impacto direto na temperatura da área. Um estudo conduzido pelo Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema) já havia mapeado diversas “ilhas de calor” em Rio Preto, fenômeno caracterizado pela elevação da temperatura em áreas urbanas com pouca vegetação e grande concentração de asfalto e concreto. A remoção massiva de árvores na Murchid Homsi poderia exacerbar esse problema, transformando uma área atualmente mais amena em uma nova ilha de calor.
Preocupações climáticas
Em entrevista à TV TEM, Delcio de Mello, diretor da Associação Amigos dos Mananciais (AMA), alertou para as consequências da intervenção. “Aqui você tem um exemplo de um bosque urbano. É um maciço de árvores que tem um impacto no microclima dessa região”, explicou. Segundo Mello, a retirada das árvores inevitavelmente resultará no aumento da temperatura, forçando os moradores do entorno a um maior consumo de energia elétrica devido ao uso intensivo de aparelhos de ar-condicionado e ventiladores.
O diretor da AMA enfatizou que a Avenida Murchid Homsi não está, atualmente, entre as áreas mais quentes da cidade justamente por conta de sua robusta arborização. A concretização do projeto sem alternativas adequadas poderia levar à inclusão da via nas zonas de Rio Preto que demandariam “arborização artificial” para mitigar o calor. Essa perspectiva ressalta a complexidade de equilibrar as demandas urbanísticas com a sustentabilidade ambiental.
Reparação futura
Outro ponto de forte crítica levantado por entidades e moradores é o tempo necessário para que a reparação ambiental seja efetiva. Embora o município prometa o plantio de novas mudas, o crescimento delas até atingir o porte necessário para oferecer sombreamento significativo e amenizar o clima local levará muitos anos. Esse período de transição representa uma janela de vulnerabilidade climática para a região, com impactos diretos na qualidade de vida dos habitantes.
A demora na recuperação da cobertura vegetal também levanta questionamentos sobre a eficácia da medida compensatória a curto e médio prazo. A comunidade exige que o Poder Público apresente alternativas que minimizem a supressão arbórea, buscando soluções de drenagem que sejam menos agressivas ao patrimônio ambiental da cidade e que considerem os benefícios imediatos da vegetação existente.
Defesa oficial
Em defesa da proposta, o vice-prefeito de Rio Preto e secretário de Obras, Fábio Marcondes (PL), que participou das audiências na Câmara dos Vereadores, afirmou que o projeto é fundamentado em estudos técnicos rigorosos. Segundo ele, a principal meta é conter as inundações que há anos castigam a avenida, causando transtornos e prejuízos. “Nós iniciamos com estudo técnico: primeiro com a necessidade da obra, para que nós pudéssemos cessar as enchentes que ocorrem lá. E depois o estudo do impacto ambiental”, declarou Marcondes, destacando que o licenciamento do impacto ambiental foi solicitado à Cetesb.
A administração municipal argumenta que a obra de drenagem é essencial para a segurança e a fluidez do trânsito na Avenida Murchid Homsi, uma via crucial para o deslocamento na cidade. A necessidade de uma intervenção robusta é justificada pela recorrência das enchentes, que em períodos de chuva intensa chegam a paralisar o tráfego e afetar imóveis e comércios na área. A solução proposta, conforme o vice-prefeito, busca uma resposta definitiva para o problema.
Árvores retiradas
Marcondes também procurou qualificar o número de árvores a serem removidas, informando que, das 943 previstas, mais de 500 são espécies exóticas. “É que 440 árvores são exóticas. O que são árvores exóticas? São aquelas que não são do bioma da nossa região. Já as árvores da nossa região, estamos falando de aproximadamente 500, sendo que as árvores raras que existem lá serão totalmente preservadas”, explicou o secretário. Essa distinção, segundo o Poder Público, minimizaria o impacto ambiental.
Apesar das justificativas técnicas e da argumentação sobre a natureza das espécies a serem cortadas, moradores e entidades ambientais continuam cobrando do Poder Público a exploração de alternativas que permitam reduzir o número de supressões antes do início efetivo das obras. A prioridade, para esses grupos, é encontrar um equilíbrio entre a infraestrutura necessária e a preservação do ecossistema urbano.
Atuação ministerial
A controvérsia em torno do projeto de revitalização e drenagem da Avenida Murchid Homsi alcançou a esfera judicial. O Ministério Público, por meio do promotor Cláudio Santos de Morais, recebeu uma representação formal solicitando explicações detalhadas sobre a derrubada das árvores. Os questionamentos foram prontamente encaminhados à Prefeitura de São José do Rio Preto, exigindo um posicionamento claro da administração municipal sobre as justificativas e os impactos da medida.
O promotor Cláudio Santos de Morais ressaltou a importância da obra para conter as enchentes, mas enfatizou que a preocupação deve se concentrar em intervenções estritamente necessárias. “É importantíssima essa obra que vai ser realizada para conter as enchentes que estão acontecendo quando chove forte. A preocupação deve ser somente em fazer a poda de árvores necessária para conter o problema enchente e não inventar mais coisas que vão sacrificar a preservação do meio ambiente e não é adequado”, ponderou.
Desdobramentos futuros
A intervenção do Ministério Público eleva o patamar do debate, conferindo um caráter legal à análise do projeto. O promotor Cláudio Santos de Morais informou que, após receber as respostas e as justificativas técnicas do Poder Público municipal, ele fará uma avaliação minuciosa da situação. Com base nessa análise, será decidido se haverá a necessidade de ingressar com alguma representação judicial, o que poderia culminar em questionamentos ou paralisação da obra.
A expectativa agora se volta para os próximos passos, com a comunidade e os ambientalistas aguardando um desfecho que contemple tanto a urgência da solução para as enchentes quanto a indispensável proteção do meio ambiente urbano. O episódio da Avenida Murchid Homsi sublinha a crescente conscientização sobre a importância da arborização nas cidades e a complexidade de conciliar o desenvolvimento urbano com a sustentabilidade.
O debate em São José do Rio Preto reflete um desafio comum a muitas cidades brasileiras: a busca por soluções de infraestrutura que sejam eficazes e, ao mesmo tempo, respeitem o patrimônio natural e o bem-estar da população. Acompanhe os próximos capítulos dessa importante discussão e as decisões que moldarão o futuro da Avenida Murchid Homsi. <a href="#" target="_blank" rel="noopener">Leia também: As ilhas de calor nas grandes cidades brasileiras</a>.
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