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13 de October de 2026

A esperança dos primeiros passos: o tratamento do pé torto congênito pelo SUS em Araçatuba

Araçatuba
08/10/2026 08:01
Redacao

Em um momento de pura celebração e esperança, uma menina de um ano em Araçatuba, interior de São Paulo, deu seus primeiros passos enquanto recebia tratamento essencial para a síndrome do pé torto congênito. A cena, que emocionou a mãe Josiane dos Santos Celestino, é um testemunho da eficácia do Sistema Único de Saúde (SUS) e da dedicação de profissionais que transformam a vida de crianças com essa malformação musculoesquelética.

A condição, conhecida tecnicamente como Pé Torto Congênito (PTC), é uma deformidade presente desde o nascimento, caracterizada por pés virados para dentro e para baixo, afetando músculos, tendões e ossos e comprometendo a mobilidade. Para muitas famílias, o SUS emerge como a única via para tratamentos que podem corrigir essa condição, permitindo que os pequenos explorem o mundo com os dois pés no chão.

A pequena Agatha, que havia recebido uma nova órtese na quarta-feira (6), é uma entre as dezenas de crianças acompanhadas na Santa Casa de Araçatuba. A mãe descreve a experiência como “inacreditável” ao ver a filha superar os desafios impostos pela síndrome, um marco que representa não apenas a conquista de Agatha, mas a vitória de um sistema de saúde acessível e de um acompanhamento humano.

As órteses ortopédicas são peças fundamentais no processo de correção da malformação. Compostas por duas botinhas conectadas por uma barra rígida, esses aparelhos provisórios são projetados para manter os pés da criança em posição correta, impedindo que a deformidade retorne e garantindo a continuidade dos resultados obtidos nas etapas iniciais do tratamento. Elas são a última fase para a estabilização.

Desde o nascimento da filha, Josiane buscou diligentemente as recomendações médicas em Três Lagoas (MS), onde residia à época. Contudo, foi na Santa Casa de Araçatuba que a família encontrou o acompanhamento especializado e a estrutura que possibilitaram uma melhora significativa no quadro de Agatha, marcando uma virada decisiva em sua jornada rumo à mobilidade plena.

Pé congênito

O Pé Torto Congênito (PTC) é uma das malformações musculoesqueléticas mais comuns em recém-nascidos. A condição dá ao membro o formato que pode lembrar uma vírgula, afetando a região abaixo do joelho e dificultando a mobilidade do bebê. Pode ser identificada ainda na barriga da mãe, com o ultrassom morfológico, o que permite o planejamento de intervenções precoces e o acompanhamento necessário.

Sem tratamento adequado, o PTC pode levar a dificuldades significativas de mobilidade, dor crônica e problemas no desenvolvimento motor da criança, impactando sua qualidade de vida a longo prazo e sua inclusão social. Por isso, a rapidez no diagnóstico e no início da intervenção são cruciais para o sucesso terapêutico e para a garantia de um futuro funcional.

A Santa Casa de Araçatuba consolidou-se como uma referência regional no tratamento do Pé Torto Congênito, demonstrando a capacidade do sistema público de saúde em oferecer cuidados especializados. Somente em seu ambulatório de ortopedia pediátrica, mais de 50 crianças são atendidas regularmente, evidenciando a alta demanda e a importância fundamental do serviço oferecido.

Na ala de ortopedia pediátrica da Santa Casa de Araçatuba, Agatha foi acolhida e acompanhada de perto pela médica Renata Esteves Cassiano, coordenadora do ambulatório, e pelo pediatra Ricardo Innecco de Castro. Essa equipe multidisciplinar é essencial para oferecer um cuidado integral, que abrange desde a correção física até o suporte psicológico para a criança e a família durante o processo.

O protocolo de tratamento seguido é o método Ponseti, considerado o padrão-ouro mundial, que envolve uma série de etapas bem definidas para garantir a correção progressiva da deformidade. O processo inicia-se com o uso seriado de gessos, seguido de uma pequena cirurgia no tendão de Aquiles e, por último, a órtese, que se torna o principal instrumento de manutenção, mantendo os pés na posição correta.

Jornada êxito

A jornada de Agatha começou com a aplicação do primeiro gesso em 1º de julho. As trocas semanais, um diferencial que Josiane dos Santos Celestino destacou, foram fundamentais para a rápida evolução observada. A mãe, com a voz embargada de emoção, relatou ao g1 a transformação: “A diferença foi muito grande. Aqui em Araçatuba, a Renata já iniciou com troca de gesso toda semana. Eu já vi resultado na segunda semana”.

Após a cirurgia e as trocas de gesso, a primeira órtese de Agatha foi colocada em 5 de agosto. Nesse período, o acompanhamento é feito mensalmente para avaliar a adaptação da criança e garantir que a correção seja mantida de forma eficaz. O cuidado, em média, é estendido até os quatro anos de idade, demonstrando a necessidade de um acompanhamento prolongado e dedicado.

A correção da deformidade, resultado de meses de dedicação e cuidados, abriu as portas para uma nova fase na vida da pequena. Os primeiros passos de Agatha, capturados em vídeo pela mãe, são um símbolo de sua autonomia recém-descoberta e da superação. “Estou muito feliz com a evolução da minha filha, agora que ela está aprendendo, querendo andar. É uma maravilha. Os pezinhos dela voltaram no lugar, é só alegria”, celebra Josiane.

Um marco significativo para o ambulatório foi a doação de 40 órteses, fruto do projeto “Mudando a Vida das Crianças com Pé Torto no Brasil”. Essa iniciativa permitiu a criação de um “banco” de órteses na Santa Casa, que é crucial para a continuidade dos tratamentos, pois os equipamentos têm um custo elevado no mercado, dificultando a aquisição para muitas famílias.

A coordenadora do ambulatório, Dra. Renata Esteves Cassiano, enfatiza a relevância desse banco: “Muitas das famílias que a gente atende têm dificuldade para adquirir a órtese, que tem um custo elevado. Quando conseguimos formar o banco de órteses dentro da Santa Casa, damos mais segurança e possibilitamos que essa família continue tratando”. A fala da especialista sublinha como a acessibilidade é um pilar para o sucesso terapêutico e para a justiça social.

Futuro acesso

A médica reitera que o acompanhamento contínuo pelo SUS assegura a permanência do processo e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida para os pacientes. “Quando corrigimos esse pé e mantemos a correção com a órtese, estamos mudando o futuro dessa criança. O objetivo é que ela tenha um pé funcional, sem dor, e possa brincar ou praticar esportes como qualquer outra”, projeta a Dra. Renata, destacando o impacto transformador da intervenção.

A Dra. Renata Esteves Cassiano reforça a importância do diagnóstico precoce, idealmente nas primeiras semanas de vida do bebê. Nesse período, os tecidos do pé apresentam maior flexibilidade, otimizando os resultados do tratamento. No entanto, a especialista tranquiliza: mesmo em crianças mais velhas, ainda há significativa possibilidade de sucesso, o que reitera a mensagem de esperança para todos os casos que buscam auxílio.

A evolução dos pacientes é a principal força motriz para a equipe médica. Para tornar o tratamento, que é longo e pode ser desconfortável, mais lúdico e leve, a Dra. Renata chega a preparar órteses especiais e coloridas para os bebês. “Estamos aqui para fazer o possível para trazer mais qualidade de vida para esses pequenos. Brinco que são os meus pezinhos de bisnaguinha”, compartilha a médica, revelando a sensibilidade por trás do rigor técnico.

A história de Agatha e de tantas outras crianças em Araçatuba é um lembrete poderoso da capacidade do SUS em oferecer cuidados especializados e acessíveis, garantindo que o direito à saúde e à mobilidade seja uma realidade. Através da colaboração entre o sistema público, projetos sociais e a dedicação incansável de profissionais, vidas são transformadas, e os primeiros passos de uma criança se tornam um horizonte de possibilidades e de dignidade.

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