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28 de October de 2026

De tijolos à imaginação: o pedreiro escritor de Cedral inspira gerações

Araçatuba
28/10/2026 08:03
Redacao

Em Cedral, no interior paulista, a jornada de Gildo Francisco de Sá transcende a rotina árdua da construção civil. Durante o dia, o canteiro de obras é seu domínio, onde tijolos, massa e concreto moldam estruturas. À noite, a cozinha de sua casa se transforma em um santuário literário, onde as memórias da infância e os contos populares ganham vida no papel, solidificando a identidade de um pedreiro que também é um promissor escritor. Essa dualidade não é apenas uma curiosidade local, mas um testemunho da capacidade humana de encontrar a arte e a inspiração nas circunstâncias mais improváveis.

Gildo, que começou a trabalhar aos 11 anos como ajudante de um tio migrante do Norte do Brasil, encontrou na literatura um canal para eternizar as narrativas que ecoavam em sua alma desde tenra idade. Já com três livros infantis publicados, ele aguarda o lançamento de sua quarta obra, demonstrando uma dedicação à escrita que rivaliza com seu ofício tradicional. Sua trajetória ressalta a importância de preservar as histórias orais e a cultura popular, transformando-as em legados tangíveis para as novas gerações.

A fonte primordial de sua inspiração reside na figura materna. Em tempos de escassez, a mãe de Gildo utilizava a criatividade como escudo contra as adversidades, protegendo os filhos do frio e da fome. Costurava cobertas com retalhos e inventava refeições com os ingredientes disponíveis, transformando a necessidade em engenhosidade. “Para comer, muitas vezes ela fazia uma sopa juntando o que tinha, que chamávamos de 'sopa de entulho', ou inventava receitas criativas como o bolo 'quebra-bucha'”, relembra o escritor. A narrativa era, nesses dias, um alimento para a alma: “Para superar a realidade difícil, ela também contava histórias nos dias de pouca comida”, conta Gildo.

Além da mãe, o tio teve papel fundamental na formação de seu imaginário. Mesmo diante das dificuldades financeiras e da ausência de energia elétrica, as noites eram iluminadas por velas – que, por vezes, precisavam ser apagadas para economizar – e repletas de lendas e contos populares. “Não tinha luz e a gente ficava sentado lá enquanto ele contava histórias à noite. Ele contava histórias folclóricas, de mula sem cabeça, de gente que virava Exu. Isso enchia a minha mente de imaginação”, recorda o autor, evidenciando como a tradição oral moldou profundamente sua percepção de mundo.

Raízes profundas

As vivências e histórias acumuladas ficaram guardadas por décadas. A responsabilidade de prover para a família fez com que Gildo armazenasse todas as ideias e enredos na memória por cerca de 30 anos. A decisão de transpor essas lembranças para o papel, no entanto, materializou-se há apenas três anos, impulsionada por um receio profundo. “Passei a vida inteira juntando tudo na cabeça, aprendendo. Agora, estou só colocando no papel. Fiquei com medo de chegar a uma certa idade e perder tudo isso, por isso precisei escrever”, explica o escritor, sublinhando a urgência de preservar seu universo interior.

O catálogo de Gildo inclui três obras voltadas ao público infantil: “A Aranha Invejosa”, “Mãe Coruja” e um terceiro título que, junto aos demais, revela sua sensibilidade em dialogar com o universo das crianças. “Mãe Coruja” inclusive gerou um debate bem-humorado com a neta Cecília, que, após ler o desfecho da história ao lado do avô, questionou o título, demonstrando a capacidade do autor de provocar reflexão e engajamento em seus leitores mais jovens. Este pedreiro escritor de Cedral tem, assim, construído uma ponte entre gerações por meio da literatura. Para aprofundar-se em obras de autores independentes, [leia também sobre outros escritores com jornadas inspiradoras aqui, link interno].

Atualmente, Gildo aguarda ansiosamente o retorno da editora para o lançamento de seu quarto livro, que marca uma guinada em sua carreira literária. Diferente de suas publicações anteriores, esta nova obra é do gênero suspense e é direcionada ao público adulto. Essa transição demonstra a versatilidade do autor e sua vontade de explorar novos horizontes narrativos. Sua criatividade não tem limites, e ele já projeta outros títulos, como “Leléu”, “Galo Cacetete”, “O Boi do Padre” e “Dona Mariquinha”, que aguardam o momento de serem eternizados no papel.

Novos horizontes

Nessa jornada literária, Gildo Francisco de Sá não está sozinho. Ele conta com o apoio inestimável de sua esposa, Rosângela Santos de Sá, com quem partilha a vida há mais de 30 anos. Rosângela desempenha um papel crucial no processo criativo, revisando os cadernos escritos pelo marido antes que os originais sejam enviados à editora. Essa parceria familiar é um pilar fundamental para a concretização de seus projetos. “Talento ele tem. É um dom que ninguém pode negar. É muito difícil, mas o gosto da vitória vai ser ainda mais saboroso”, destaca Rosângela, expressando confiança e admiração pelo trabalho de Gildo.

Distante da busca por fama ou enriquecimento material, Gildo define o verdadeiro sucesso pela oportunidade de estimular o hábito da leitura e a imaginação entre os jovens. Seu propósito é claro e altruísta: “Trabalho para levar minhas histórias para essas crianças e para as minhas netas. Quero levar os livros para as escolas”, afirma. Para ele, a literatura é uma ferramenta de compartilhamento, não de competição. “Não vejo como disputa. Para mim, o sonho é compartilhar conhecimento e imaginação com eles”, conclui Gildo, encapsulando sua visão de um legado que vai muito além das páginas dos livros, um verdadeiro incentivo à leitura e à criatividade.

A história de Gildo Francisco de Sá, o pedreiro escritor de Cedral, é um lembrete inspirador de que a paixão e a resiliência podem florescer em qualquer ambiente, transformando memórias simples em narrativas complexas e significativas. Seu exemplo reforça a ideia de que a arte e a cultura são acessíveis a todos e que a voz de cada indivíduo, não importa sua origem, tem o potencial de tocar e transformar vidas. Para mais informações sobre iniciativas de incentivo à leitura, [consulte fontes confiáveis como o Ministério da Cultura, link externo].

<b>Veja mais notícias da região no g1 Rio Preto e Araçatuba</b> e descubra outras histórias de superação e cultura. <b>Confira as reportagens da TV TEM</b> sobre o impacto de Gildo na comunidade e na literatura.



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