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23 de April de 2026

Quaresma e a renovação espiritual: relatos de penitências em Rio Preto

Araçatuba
30/03/2026 08:02
Redacao
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A Quaresma, período de profunda reflexão e preparação para a Páscoa, anualmente convida os fiéis a uma jornada de introspecção e sacrifício. Em São José do Rio Preto (SP), essa tradição é vivenciada de maneiras diversas e surpreendentes, onde penitências que vão além do convencional se tornam ferramentas para o crescimento pessoal e a aproximação espiritual. Da renúncia à maquiagem ao desafio do banho gelado, cada escolha revela um significado íntimo e um desejo de renovação.

Este tempo litúrgico, que se estende por 40 dias, inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e culmina antes da Missa da Ceia do Senhor na Quinta-Feira Santa, marcando um percurso de arrependimento, conversão e busca pela santidade. Para os cristãos, especialmente os católicos, é um período propício para o controle dos impulsos, o fortalecimento da caridade e a manifestação do amor a Deus através da abnegação de vontades pessoais.

Entre os jovens da cidade, os sacrifícios físicos ganham destaque. Ricardo Milani Gomes Filho, um estudante e fotógrafo de 18 anos, assumiu o compromisso de tomar apenas banhos frios durante toda a Quaresma. Acostumado à água aquecida, o desafio tem sido considerável, especialmente ao ter que acordar cedo para sua rotina intensa de cursinho pré-vestibular. “É muito difícil tomar banho gelado, pois tenho que acordar de manhãzinha para estudar. Mas está dando certo, graças a Deus. Estou fazendo sem reclamar, o que é o mais importante”, relatou em entrevista.

Ricardo, que normalmente toma dois banhos por dia, enxerga essa penitência como um meio para aprofundar sua reflexão sobre o amor divino e a importância de abdicar de seus próprios confortos e desejos. A dificuldade imposta pela água fria transforma-se em um lembrete diário da dedicação espiritual que busca cultivar neste período.

Outra jovem, a estudante Valentina Dottore, de 16 anos, direcionou sua penitência para a renúncia à vaidade. Frequentadora assídua de maquiagem, que usa diariamente até mesmo em casa, Valentina decidiu passar todo o período quaresmal sem batom, base, corretivo, pó ou delineador. A maquiagem, para ela, era parte intrínseca de sua personalidade e rotina.

Chamado pessoal

A decisão de Valentina surgiu da percepção de que, em certos momentos, sua própria imagem acabava sendo priorizada em detrimento de sua conexão com o divino. “Tem sido difícil porque a maquiagem fazia parte de mim. Uso todos os dias, não importa se estou em casa. Eu não me via sem ela, pois é parte da minha personalidade”, confessou ao G1. Para a estudante, a abstinência de maquiagem tornou-se um caminho significativo para a reaproximação espiritual.

A busca pelo silêncio também se manifesta como forma de penitência. É o caso da pedagoga Bruna Marques Belluci, de 31 anos, que escolheu viver a Quaresma sem escutar música — um hábito constante em sua vida. Morando sozinha, Bruna tem o costume de ter canções, muitas vezes religiosas, como trilha sonora em seu dia a dia, seja em casa ou no carro.

“Senti o chamado para o silêncio”, resumiu Bruna, explicando sua motivação. Essa escolha, aparentemente simples, representa um esforço consciente para diminuir o ruído externo e criar um espaço para a escuta interior, fundamental para a meditação e o aprofundamento da fé durante este período de recolhimento.

No âmbito familiar, a prática do jejum de carne de animais de sangue quente é uma penitência tradicional, mas que Claudia Regina Borges, fonoaudióloga de 55 anos, decidiu intensificar. Pela segunda vez, ela se absteve de carne vermelha durante toda a Quaresma, consumindo apenas peixe. Acompanhada do marido Walter, de 57 anos, a experiência ganha um novo contorno.

Neste ano, Claudia e Walter adicionaram à sua prática o compromisso de participação diária na missa e na comunhão. “Deixei a carne para me abastecer do pão da vida todos os dias”, declarou Claudia, evidenciando a busca por uma nutrição espiritual constante e aprofundada, que transcende a mera abstenção alimentar e se conecta diretamente com os rituais sagrados da Igreja Católica.

Rumo à introspecção

A fonoaudióloga enfatiza que a Quaresma é um tempo de reflexão, conversão e a busca incessante pela santidade. Para ela, as penitências são um meio eficaz de controlar impulsos, exercitar a disciplina e fortalecer os laços de caridade, tanto consigo mesma quanto com o próximo. A vivência da fé se manifesta em ações concretas que moldam o caráter e aprimoram o espírito.

O exemplo de Claudia e Walter ressoou em sua família, inspirando o filho mais velho, Murilo, de 27 anos, a aderir à prática pela primeira vez. Murilo escolheu abrir mão de alimentos fritos, especificamente pastel e hot roll (sushi frito e empanado), itens que fazem parte de seus hábitos alimentares. Essa adesão voluntária demonstra a influência do ambiente familiar e a transmissão de valores espirituais através da prática.

A privação de doces e refrigerantes foi a penitência eleita pela estudante Rafaela Mutton Lemos, de 15 anos, que também incluiu momentos diários de oração em sua rotina quaresmal. “Eu sou praticamente viciada em doce, como toda hora. E, quando bebo refrigerante, exagero um pouco”, revelou Rafaela, apontando para o desafio pessoal de controlar hábitos arraigados.

Na Quaresma anterior, Rafaela havia se desafiado a ficar sem redes sociais, uma tarefa que descreveu como difícil devido à impossibilidade de acompanhar as publicações de amigos que moram em outras cidades. Ambas as experiências, no entanto, revelam uma consciência sobre o autocontrole e a importância de gerenciar os próprios desejos.

Para a jovem estudante, a Quaresma transcende a mera tradição religiosa, configurando-se como um tempo valioso de pausa, reflexão e desenvolvimento de virtudes essenciais, como paciência, empatia e responsabilidade. “É um momento de disciplina e crescimento pessoal em que pequenas escolhas ganham um significado maior”, concluiu Rafaela, ressaltando o impacto transformador dessas práticas.

Dedicação e família

Padre Pedro Sant’Ana Machado, da Arquidiocese de São José do Rio Preto, explica que a penitência é um componente central da Quaresma para os cristãos. Ela não se resume apenas a um sacrifício externo, mas funciona como um gesto de arrependimento pelos pecados e uma busca ativa pela reconciliação com Deus. A ‘pena’, nesse contexto, é um ato de contrição que visa a purificação interior e o realinhamento da vida com os preceitos divinos.

As práticas penitenciais, sejam elas a abstinência de alimentos ou de hábitos cotidianos, são interpretadas como exercícios de disciplina espiritual. Ao renunciar a algo que se valoriza ou que faz parte do conforto diário, o fiel demonstra sua capacidade de superar a si mesmo e de direcionar seu foco para o sagrado, fortalecendo a fé e a dependência de uma força maior.

Essa disciplina permite que cada indivíduo reconheça a fragilidade humana e a necessidade de se aproximar dos ensinamentos de Cristo. Em vez de uma punição, a penitência é vista como um caminho para a liberdade interior, libertando o espírito das amarras do materialismo e do egocentrismo, e promovendo uma profunda transformação pessoal.

A escolha de cada penitência, embora pessoal, conecta os fiéis a uma comunidade maior que compartilha os mesmos propósitos de reflexão e preparação. É uma solidariedade na busca pela renovação espiritual, onde cada sacrifício individual contribui para o fortalecimento coletivo da fé e para a vivência dos mistérios pascais com maior profundidade.

Assim, o período quaresmal se torna uma oportunidade para um exame de consciência, para a prática da caridade e para o aprimoramento das virtudes. As ‘pequenas escolhas’ mencionadas por Rafaela, desde o banho gelado de Ricardo até o jejum de música de Bruna, são elos de uma corrente que conduz a um crescimento espiritual abrangente e significativo para cada indivíduo em sua fé.

Disciplina e fé

Os relatos de São José do Rio Preto ilustram a riqueza e a diversidade das práticas penitenciais contemporâneas. Embora a essência da Quaresma permaneça a mesma – preparação, arrependimento e renovação – as formas de vivenciá-la se adaptam à realidade de cada fiel, refletindo um desejo genuíno de conexão espiritual e de aprimoramento interior. <a href=”https://www.example.com/noticias-de-religiao” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer”>Saiba mais sobre a tradição da Quaresma.</a>

Este período, que se encerra antes da celebração da Páscoa, reitera a importância de pausas para a introspecção em um mundo cada vez mais acelerado. As penitências, longe de serem meros rituais, emergem como atos conscientes que fortalecem a disciplina, cultivam a empatia e promovem um sentido de responsabilidade individual e coletiva perante os valores da fé.

A Quaresma, portanto, não é apenas um tempo de privação, mas uma oportunidade transformadora. É um convite à reflexão profunda sobre o que realmente importa, incentivando os fiéis a cultivar uma vida mais alinhada com seus princípios, resultando em um crescimento espiritual que se estende muito além dos 40 dias de sua duração.



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