Poloni: demolição de recinto que marcou história divide opiniões na cidade
Em Poloni, no interior de São Paulo, o antigo recinto de exposições, palco de rodeios memoráveis e eventos comunitários por quatro décadas, foi demolido para dar lugar a um pátio destinado aos veículos da frota municipal. A decisão da prefeitura, sob a gestão de Andréia Brait (PSD), gerou um debate entre a necessidade de modernização da infraestrutura pública e a preservação da memória e identidade locais, ecoando sentimentos diversos na população.
A obra, em execução desde o início da atual administração, chamou a atenção do Ministério Público. No começo de 2025, a Promotoria de Monte Aprazível iniciou uma averiguação de denúncia sobre suposta improbidade administrativa relacionada à demolição e à destinação dos materiais da estrutura do imóvel, buscando esclarecer os trâmites do processo.
Contudo, a denúncia foi posteriormente arquivada pela Promotoria. A decisão se baseou nas respostas apresentadas pela prefeitura, que fundamentou sua ação no fato de o antigo recinto não possuir tombamento como patrimônio histórico-cultural do município, uma condição legal que o protegeria de intervenções como a demolição e reconfiguração de seu uso.
A prefeita Andréia Brait reiterou que apenas a Praça da Matriz de Poloni é classificada como patrimônio histórico, conforme a legislação local. 'O único local de Poloni classificado como patrimônio histórico é a Praça da Matriz. O antigo recinto não era', afirmou a gestora ao g1, esclarecendo a base legal que permitiu a intervenção municipal na área.
Segundo a administração municipal, o local estava abandonado há pelo menos 12 anos e havia se tornado um ponto frequentado por usuários de drogas, o que, de acordo com a prefeita, reforçou a decisão de desativar a estrutura. A prefeitura garantiu que a demolição foi amparada por autorização jurídica, assegurando a legalidade do processo.
Novo destino
No mesmo terreno onde antes se erguiam as estruturas que abrigavam rodeios e festas populares, a prefeita determinou a construção de um pátio moderno para a frota de veículos municipais. A chefe do Poder Executivo afirmou que a obra, iniciada logo após a demolição do antigo recinto, deverá ser concluída em até cinco meses, visando otimizar a logística e a manutenção dos equipamentos da cidade.
Além do espaço para estacionamento e guarda dos veículos, o projeto do novo pátio inclui a construção de um almoxarifado e alojamentos para servidores municipais. Essa nova infraestrutura busca centralizar os serviços de apoio, melhorar as condições de trabalho dos funcionários e garantir maior eficiência na gestão dos recursos públicos.
Para quem vivenciou a história do recinto José Passos – nome que homenageava o avô do ex-prefeito Antonio José Passos –, a mudança transcende uma mera alteração urbanística. Ela representa, para muitos, uma perda de identidade e de um pedaço significativo da memória afetiva da cidade, levantando discussões sobre o valor simbólico de espaços que, embora não tombados oficialmente, carregam grande peso cultural.
O empresário Daniel Pereira, do ramo sertanejo, expressou sua profunda tristeza com o fim de um espaço que considerava parte indissociável da identidade local. 'Era um patrimônio cultural construído por idealistas, com trabalho voluntário e recursos próprios. Não se justifica o fechamento de espaços que compõem a memória histórica do município', pontuou Pereira, evidenciando o sentimento de parte da comunidade.
Frequentador assíduo desde a infância, Pereira relembrou que o recinto foi palco de eventos que projetaram Poloni nacionalmente, como o rodeio que, em 2010, recebeu o prestigiado Troféu Arena de Ouro, considerado o 'Oscar' do setor. Para ele, a preservação não deveria se limitar à estrutura física, mas também ao reconhecimento da história e das pessoas que dedicaram tempo e esforço à sua construção e manutenção ao longo dos anos.
Vínculo afetivo
Além dos grandiosos rodeios, o recinto era um ponto de encontro multifacetado para diversas atividades comunitárias, fortalecendo os laços sociais. O local abrigava bailes da terceira idade, celebrações de casamentos e aniversários, leilões de gado e uma variedade de eventos ligados à vida rural, incluindo tradicionais cavalgadas. Essas atividades contribuíam significativamente para a coesão social e a manutenção das tradições locais.
O ex-prefeito Antonio José Passos, procurado pela reportagem do g1, expressou seu desapontamento com a destinação dada ao antigo recinto. Ele mencionou a falta de comunicação por parte da prefeitura com sua família a respeito do destino do espaço, ressaltando o valor sentimental do local. 'Eu prefiro ficar quieto, sofrer no meu canto, calado', argumentou Passos, revelando o impacto emocional da decisão.
Uma moradora local, que optou por não ter sua identidade revelada pela reportagem, afirmou que a demolição causou indignação entre os cidadãos. Para ela, o recinto representava um patrimônio público histórico, independentemente da afinidade pessoal com os eventos ali realizados. 'Era algo que fazia parte da vida da cidade. A gente tinha um vínculo afetivo com aquele espaço', concluiu, sublinhando a profunda conexão emocional da comunidade com o local que se foi.
Apesar das divergências e do evidente apego da população a um marco histórico, a prefeitura segue com o projeto do pátio de veículos, visando uma solução prática e moderna para a gestão da frota municipal. A transformação do antigo recinto em um espaço funcional reflete a complexidade das decisões administrativas, que muitas vezes precisam equilibrar necessidades operacionais com o valor simbólico e afetivo que determinados locais representam para a comunidade. O episódio em Poloni ilustra a tensão entre o progresso urbano e a memória coletiva de uma cidade.
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