Gado Tabapuã: a joia zebuína de milhões com berço no interior de São Paulo
A pecuária brasileira ostenta uma joia de valor inestimável e reconhecimento internacional: a raça Tabapuã. Nascida no coração do interior paulista, em um município que lhe empresta o nome, essa linhagem de gado zebuíno mocho não apenas representa um marco na zootecnia nacional, mas também alcança cifras impressionantes no mercado, com exemplares que podem valer até R$ 2 milhões. Sua trajetória é um testemunho da capacidade de inovação e do aprimoramento genético que caracterizam o agronegócio do Brasil.
A história da raça Tabapuã tem seu epicentro na cidade de Tabapuã, que hoje conta com aproximadamente 35 mil habitantes e está localizada na região de São José do Rio Preto, no interior do estado de São Paulo. Foi em uma propriedade rural, carinhosamente conhecida como Fazenda Milagrosa, situada no perímetro urbano daquele município, que os primeiros passos para a formação dessa linhagem de alto valor comercial foram dados, escrevendo um capítulo singular na agropecuária.
O nome "Tabapuã" é, portanto, uma homenagem direta ao seu local de origem, um elo geográfico que eterniza o berço de um gado que viria a revolucionar o setor. A simplicidade dessa designação contrasta com a complexidade e o rigor dos processos de seleção e melhoramento genético que resultaram em um animal de características tão desejáveis e adaptadas às condições tropicais.
A chegada dos animais ancestrais à Fazenda Milagrosa remonta à década de 1940, quando foram adquiridos pelo médico e proprietário da fazenda, Roberto Ortenblad. Ele iniciou um meticuloso trabalho de cruzamento, partindo de um gado mocho nacional e incorporando animais de origem indiana, com destaque para a influente raça Nelore. Este foi o ponto de partida para a criação de um rebanho que se adaptaria de maneira notável ao clima e à vegetação de Mata Atlântica da região.
A adaptação rápida e o desenvolvimento vigoroso desses bovinos em um ambiente tropical desafiador foram cruciais para o sucesso do projeto. O clima quente e as particularidades da vegetação local exigiam animais resilientes, e os cruzamentos cuidadosamente planejados por Ortenblad resultaram em exemplares que não apenas sobreviveram, mas prosperaram, lançando as bases genéticas para o que hoje conhecemos como a raça Tabapuã.
Origem notável
A padronização da raça Tabapuã, tal como a conhecemos hoje, firmou-se de maneira definitiva nos anos 1940, consolidando suas características básicas que perduram até a atualidade. Conforme explicado por Guilherme Tricca, técnico da raça que atua na região de São José do Rio Preto, o rigoroso planejamento zootécnico desenvolvido por Roberto Ortenblad a partir de 1943 foi fundamental para a formatação final da linhagem. Ortenblad dedicou-se a recolher cem matrizes Nelore, que foram separadas para experimentos de cruzamentos com um reprodutor mestiço, carinhosamente apelidado de touro T-0.
Os resultados de todo esse trabalho, que envolveu anos de observação e seleção apurada, foram meticulosamente avaliados e aprimorados. O objetivo era claro: fixar traços genéticos desejáveis que conferissem à raça Tabapuã vantagens competitivas em produtividade e adaptabilidade, elementos essenciais para o desenvolvimento da pecuária em um país de dimensões continentais como o Brasil.
É importante ressaltar que as matrizes ancestrais da raça, que serviram como base para os desenvolvimentos posteriores em Tabapuã (SP), foram inicialmente criadas por Salviano Monteiro Guimarães. Este pioneiro da zootecnia brasileira realizou seus trabalhos na região de Planaltina, em Goiás, entre os anos de 1903 e 1907. Suas contribuições iniciais foram essenciais para o estabelecimento das linhagens zebuínas mochas no território nacional.
Ao longo dos anos, com o contínuo apuramento do sangue das gerações seguintes, as principais características zebuínas foram preservadas. Desse processo evolutivo, surgiram os primeiros animais mochos de ascendência indiana no Brasil, combinando a robustez dos zebuínos com a peculiaridade genética da ausência de chifres, uma característica altamente valorizada na pecuária moderna pelo manejo facilitado.
Atualmente, a raça Tabapuã se destaca por diversas qualidades que a tornam uma das mais promissoras no mercado. Entre elas, a alta lactação nas fêmeas é um fator crucial, assegurando o alimento adequado para o desenvolvimento vigoroso das crias. Nos machos, a rapidez com que adquirem peso é impressionante, podendo atingir uma média diária de 1,3 quilo em apenas 112 dias, um desempenho notável que se traduz em eficiência produtiva e reconhecimento internacional.
Mercado valorizado
O potencial genético da raça Tabapuã é traduzido em seu elevado valor comercial. Guilherme Tricca, especialista na raça, detalha que exemplares de fêmeas de alta genética podem atingir a impressionante marca de R$ 2 milhões, enquanto os machos reprodutores de excelência têm seu valor estimado em cerca de R$ 1,25 milhão. Esses números refletem não apenas a qualidade intrínseca dos animais, mas também o investimento em melhoramento genético e a demanda por um gado que oferece retornos significativos.
O reconhecimento institucional da raça Tabapuã é um pilar de sua ascensão. Em 1970, o Ministério da Agricultura recomendou formalmente à Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) que o gado Tabapuã fosse incluído entre as raças zebuínas de destaque. Este aval oficial marcou o início de uma nova fase para a linhagem, consolidando sua posição no cenário nacional.
A performance do Tabapuã não tardou a se destacar em provas de campo. Em 1980, a raça demonstrou sua superioridade ao vencer 80% das pesagens de que participou, um indicativo claro de sua capacidade de ganho de peso. Esse desempenho excepcional culminou em 1981, quando a raça foi definitivamente reconhecida, um marco histórico que a estabeleceu como o terceiro neozebuíno a ser formado no mundo, após o Brahman e o Indubrasil.
Esse reconhecimento internacional, como o terceiro neozebuíno desenvolvido globalmente, eleva o status da raça Tabapuã e, por extensão, da zootecnia brasileira. Ela representa a capacidade do Brasil de gerar, com tecnologia e pesquisa, linhagens de gado que atendem às demandas de mercados cada vez mais exigentes, tanto em termos de produtividade quanto de adaptabilidade climática.
Segundo o técnico Guilherme Tricca, a raça Tabapuã foi crucial para que a pecuária nacional atingisse patamares de excelência em outros países. Isso se deve à alta tecnologia empregada em seu desenvolvimento e ao baixo custo de produção que a raça permite, tornando-a uma opção economicamente viável e altamente rentável para os criadores. Este avanço posicionou o Brasil como um player de destaque no agronegócio mundial.
Conquista zootécnica
Especialistas consideram o Tabapuã a maior conquista da zootecnia brasileira dos últimos cem anos, uma afirmação que sublinha sua importância para o setor. A lactação constante e abundante das matrizes Tabapuã é um diferencial notável, garantindo o alimento adequado e o crescimento vigoroso das crias sob a proteção de suas mães, o que impacta diretamente a saúde e o desenvolvimento do rebanho.
Um estudo detalhado, divulgado pela Superintendência Técnica da ABCZ, forneceu dados concretos que comprovam a superioridade do Tabapuã. Analisando mais de 3 milhões de animais pesados, a raça superou outras zebuínas no peso médio aos 205 dias de vida, independentemente do regime alimentar — seja pasto, suplementado ou confinamento. Esta versatilidade e desempenho robusto são indicativos de sua genética adaptável e produtiva.
Outra característica distintiva e prática do animal mocho é, obviamente, a ausência de chifres. Esta particularidade não só facilita o manejo do rebanho, reduzindo riscos de acidentes para os animais e manejadores, como também contribui para um excelente temperamento da raça. Além disso, a Tabapuã é reconhecida pela sua habilidade materna, desmamando bezerros pesados que atingem o peso final para o abate mais rapidamente do que os de outras raças zebuínas.
Para os criadores que desejam otimizar o potencial da raça Tabapuã, Guilherme Tricca enfatiza a necessidade de seguir um conjunto de cuidados essenciais, todos interligados a uma pecuária produtiva e sustentável. Estes cuidados são a base para garantir a saúde, o bem-estar e a alta performance do rebanho, maximizando o investimento genético.
Entre os cuidados fundamentais, destacam-se o manejo sanitário adequado dos animais na propriedade, que inclui vacinação e controle de parasitas; a mineralização constante, crucial para a saúde óssea e o metabolismo; a nutrição balanceada, adaptada às fases de crescimento e produção; o manejo inteligente de pastagens, visando à sustentabilidade e produtividade; e, por fim, a reprodução do rebanho com um foco contínuo no melhoramento genético, buscando sempre aprimorar as características da raça.
Cuidados essenciais
A raça Tabapuã, com sua origem humilde no interior de São Paulo e sua ascensão a um patamar de excelência global, personifica o dinamismo e a capacidade de inovação da pecuária brasileira. De um cruzamento inicial à padronização, e daí ao reconhecimento como uma das raças zebuínas mais valiosas e produtivas do mundo, o Tabapuã continua a ser um motor de desenvolvimento e uma fonte de orgulho para o agronegócio do Brasil, com um futuro promissor no horizonte.
Aprofunde-se no universo da pecuária e suas inovações. <a href="[LINK INTERNO PARA CATEGORIA PECUÁRIA OU NOTÍCIA RELACIONADA]">Leia outras notícias sobre o agronegócio brasileiro</a> e descubra mais sobre os desafios e sucessos do campo. Para mais informações detalhadas sobre a raça Tabapuã e outras linhagens zebuínas, visite o site da <a href="https://www.abcz.org.br/" target="_blank" rel="noopener">Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ)</a>.
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