Theodomiro Santiago e a fundação da engenharia elétrica no Brasil
A história do desenvolvimento tecnológico e da formação de excelência no Brasil tem um marco fundamental na visão de Theodomiro Carneiro Santiago (1882–1936). Este advogado, educador e político mineiro foi o idealizador da primeira instituição brasileira voltada à formação de engenheiros eletricistas, o Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá (IEMI), fundado em 23 de novembro de 1913. Não por acaso, essa data foi posteriormente instituída como o Dia Nacional do Engenheiro Eletricista pela Lei nº 12.074, de 29 de outubro de 2009, celebrando o legado de um homem à frente de seu tempo.
Sua grande aspiração era impulsionar o Brasil além de sua condição predominantemente agrícola, guiando-o rumo à industrialização. Para Theodomiro Santiago, era imperativo formar uma nova geração de profissionais capacitados a enfrentar os desafios de uma realidade econômica em transformação, um propósito que reverberou na criação de uma escola de engenharia com foco prático e industrial, crucial para o avanço do país.
Nascido em Itajubá, no Sul de Minas Gerais, Theodomiro pertencia a uma família com notável influência nos círculos intelectuais e políticos de sua época. Filho do Coronel João Carneiro Santiago Júnior e de Lucinda Pereira Santiago, era ainda cunhado de Wenceslau Braz, que futuramente alcançaria a Presidência da República. Essas conexões familiares e o ambiente de efervescência política e cultural forjaram o caráter e as ambições do jovem Theodomiro.
Sua jornada educacional teve início em Barbacena, prosseguindo com o curso de Direito em Belo Horizonte, aos 20 anos. Concluiu sua formação jurídica em 1906, na prestigiada Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Mesmo com a sólida base em Direito, sua paixão genuína inclinava-se para o desenvolvimento tecnológico e a educação profissional, o que o levou a assumir a direção do Ginásio de Itajubá aos 25 anos e a participar da criação do Instituto Dom Bosco, voltado à educação de crianças carentes.
Movido por essa visão progressista, em 1912, Theodomiro Santiago empreendeu uma viagem pela Europa e pelos Estados Unidos. O objetivo era claro: estudar métodos de ensino de vanguarda, recrutar professores estrangeiros e adquirir equipamentos de última geração para os laboratórios. Essa missão internacional fazia parte de seu projeto ambicioso de estabelecer em Itajubá uma escola de engenharia que combinasse rigor acadêmico com uma abordagem prática, alinhada às necessidades crescentes da indústria nacional.
Raízes e ideais
O ápice desse esforço visionário materializou-se em 23 de novembro de 1913, com a fundação do Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá. A solenidade de inauguração contou com a presença de figuras proeminentes como o então presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, e o vice-presidente, Wenceslau Braz, atestando a relevância nacional do empreendimento e a ambição de seus idealizadores.
A instituição nasceu com a proposta inovadora de formar engenheiros mecânicos e eletricistas, estabelecendo-se como uma referência pioneira no ensino tecnológico brasileiro. Seus currículos eram desenhados para suprir a demanda por profissionais qualificados em um país que, naquele início do século XX, buscava modernização e infraestrutura, reconhecendo a engenharia elétrica como um motor essencial para o progresso.
Paralelamente à sua atuação educacional, a trajetória de Theodomiro Santiago foi profundamente marcada pela vida política. Aos 32 anos, assumiu a desafiadora Secretaria das Finanças de Minas Gerais. Durante sua gestão, notabilizou-se por contestar judicialmente atos de seu antecessor, Arthur Bernardes, relacionados a um empréstimo controverso destinado à construção de um cassino. Contando com o apoio jurídico do renomado Rui Barbosa, ele não obteve êxito na disputa, mas demonstrou sua intransigência com a moralidade pública.
A política também lhe reservaria momentos de frustração. Decepcionado por não conseguir viabilizar sua candidatura ao governo mineiro na sucessão de Delfim Moreira, acabou derrotado politicamente por Arthur Bernardes, que assumiu o comando do Estado. Após o revés, Theodomiro retornou a Itajubá, onde foi acolhido por uma calorosa manifestação popular, um testemunho do apreço de sua comunidade e de sua influência local.
Em 1921, elegeu-se deputado federal, exercendo mandatos até 1930, ano em que a Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, dissolveu o Congresso Nacional. Por razões políticas, Theodomiro Santiago viu-se obrigado a deixar o Brasil, exilando-se em Portugal, de onde só retornaria após a anistia concedida em 1933. Naquele mesmo ano, tentou novamente alcançar o governo de Minas Gerais, mas a vitória coube a Benedito Valadares.
Política e princípios
Apesar das adversidades políticas, sua determinação permaneceu inabalável. Em 1935, conquistou mais uma cadeira na Câmara dos Deputados, onde sua postura firme e sua célebre frase “Fatos, não palavras” ecoavam os ideais de pragmatismo e rigor que pautaram toda a sua vida, seja na educação, seja na esfera pública, marcando sua passagem pelo parlamento.
Theodomiro Santiago faleceu no Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1936. Seus restos mortais foram posteriormente trasladados para Itajubá, sua terra natal, onde repousam em um mausoléu instalado no prédio histórico da instituição que ele idealizou. Hoje, a Fundação Theodomiro Santiago, ligada à universidade, perpetua seu nome e sua missão educacional e tecnológica.
A escola que nasceu da visão pioneira de Theodomiro Santiago passou por importantes transformações ao longo das décadas, adaptando-se às exigências de um país em constante evolução. Em 1936, recebeu o nome de Instituto Eletrotécnico de Itajubá (IEI). Sua federalização ocorreu em 1956, e, em 1968, passou a se chamar Escola Federal de Engenharia de Itajubá (EFEI). Em 2002, a instituição alcançou o merecido status de universidade, tornando-se a atual Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
Mais de um século depois de sua fundação, a Unifei continua a representar o legado de um homem que acreditou na educação, na ciência e na tecnologia como pilares inegociáveis para o desenvolvimento do Brasil. A instituição formou gerações de profissionais que contribuíram significativamente para o país, incluindo nomes que se destacaram internacionalmente, como Antônio Carlos Zambroni de Souza, pesquisador do Instituto de Sistemas Elétricos e Energia (ISEE).
O legado duradouro
A trajetória de Theodomiro Santiago é um testemunho da capacidade de um indivíduo em moldar o futuro de uma nação. Sua persistência na busca pela excelência educacional e pela inovação tecnológica pavimentou o caminho para a industrialização brasileira e consolidou Itajubá como um polo de saber e progresso. O Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá, hoje Unifei, é o monumento vivo a essa visão, que continua a inspirar novas gerações de engenheiros e cientistas, reforçando o compromisso com o avanço nacional.
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