O encerramento do trem caipira: custos milionários e inviabilidade operacional em são josé do rio preto
O Trem Caipira, um projeto de trem turístico que conectava a estação de São José do Rio Preto, no interior paulista, ao distrito de Engenheiro Schmitt, em um percurso de 10 quilômetros, teve suas operações oficialmente encerradas. A decisão, tomada pela gestão municipal do prefeito Fabio Candido (PL), põe fim a uma iniciativa que acumulou quase R$ 2 milhões em investimentos ao longo de suas fases e foi marcada por um histórico de interrupções, deixando para trás expectativas de fomento ao turismo regional.
A Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Rio Preto detalhou que o encerramento se baseou em uma análise criteriosa, envolvendo aspectos técnicos, operacionais e econômicos. Fundamentada em estudos internos e um relatório abrangente da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), a decisão aponta para obstáculos intrínsecos ao modelo adotado. A última vez que o trem transportou passageiros foi no final de 2022, antes da suspensão definitiva.
Um dos pontos críticos identificados pela pasta foi a utilização de um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) adaptado. Este equipamento, segundo a secretaria, não foi originalmente projetado para circular regularmente em trechos concedidos à malha ferroviária de cargas, que caracteriza a rota entre Rio Preto e Engenheiro Schmitt. A intensividade do tráfego de composições pesadas impunha severas restrições de segurança e limitava as janelas operacionais disponíveis para o trem turístico.
Adicionalmente, o laudo emitido pela ABPF reforçou as preocupações, destacando “limitações estruturais e mecânicas do equipamento”. O relatório apontava um risco iminente de falhas e a necessidade de investimentos substanciais para adequar o VLT às exigências de segurança e operação contínua. Tais fatores contribuíram significativamente para a avaliação de inviabilidade do projeto nos moldes existentes.
O equipamento, que possuía capacidade para 59 passageiros, representou um custo inicial de cerca de R$ 900 mil, adquirido em 2014. No entanto, a implementação do projeto esbarrou em desafios adicionais, especialmente no que tange à manutenção da via férrea e das estações. Para superar essas exigências, foi necessário um investimento complementar de aproximadamente R$ 1 milhão em 2017, elevando o custo total para viabilizar as viagens.
Desafios operacionais e a interrupção do serviço
A trajetória do Trem Caipira foi marcada por uma série de interrupções. Após os investimentos iniciais, as viagens com passageiros foram suspensas em março de 2020 devido à pandemia de covid-19. Uma retomada ocorreu em abril de 2022, trazendo esperanças para o setor turístico local, mas a operação foi novamente paralisada em dezembro do mesmo ano, configurando o último período de atividade do projeto.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), órgão regulador do setor, esclareceu que não recebeu comunicação formal sobre a suspensão da circulação do Trem Caipira. A agência ressaltou que este tipo de transporte é concedido por meio de autorização em caráter não regular, o que significa que não há obrigatoriedade de manter uma frequência específica de operação. A prefeitura de Rio Preto detinha a autorização, e a ANTT monitorava a prestação do serviço enquanto ele estivesse ativo.
Um dos aspectos mais relevantes para o encerramento do projeto foi sua inviabilidade econômica. O Trem Caipira nunca cobrou passagem dos seus usuários, operando de forma totalmente gratuita. Estima-se que cada passageiro custava aos cofres da prefeitura de São José do Rio Preto cerca de R$ 300, dado que o município subsidiava integralmente as despesas operacionais, que incluíam desde o óleo diesel e o salário do maquinista até o seguro e a manutenção do equipamento.
A alta dependência de subsídio público e o custo operacional elevado foram decisivos para a avaliação de sustentabilidade financeira. Conforme comunicado pela prefeitura ao g1, o modelo se tornou “inexequível nos moldes existentes”, confirmando que a sustentabilidade econômica era um gargalo insuperável. Embora o interesse público fosse evidente, com cerca de 1,5 mil pessoas na fila de espera por viagens em 2022, a gratuidade e os custos impediam a continuidade.
O contrato firmado entre a prefeitura e a concessionária Rumo, com anuência da ANTT, limitava a circulação do trem a apenas uma vez por mês, aos domingos pela manhã. Essa restrição, somada aos altos custos e à impossibilidade de geração de receita, reforçou a percepção de que o modelo de negócio não era sustentável a longo prazo. A inviabilidade, portanto, não se resumia apenas a questões técnicas, mas também a uma equação financeira desfavorável.
O futuro do patrimônio ferroviário e a recuperação de veículos históricos
Apesar do fim das operações do Trem Caipira, a prefeitura de São José do Rio Preto reafirma seu compromisso com a preservação do patrimônio ferroviário. O município “segue em diálogo com instituições e concessionárias para futuras iniciativas de preservação e uso turístico”, condicionando qualquer novo projeto à estrita observância da viabilidade técnica, operacional e econômica. Isso indica a busca por modelos mais sustentáveis e inovadores.
Em um desdobramento positivo para a memória ferroviária, dois carros de passageiros históricos, pertencentes à prefeitura de Rio Preto, que originalmente seriam recuperados para formar uma segunda composição do Trem Caipira, terão agora uma nova função. Com a suspensão do projeto turístico, eles serão restaurados e destinados a uma função expositiva no complexo da Estação Ferroviária de São José do Rio Preto.
Esses vagões possuem um valor histórico significativo, sendo originários da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), que posteriormente se tornou Fepasa. Eles permaneceram abandonados no município desde o início dos anos 2000, com o fim dos antigos trens de passageiros em São Paulo. Sua recuperação representa um resgate importante da história ferroviária regional.
O investimento previsto para a revitalização de cada um desses veículos é de R$ 3,5 milhões. Esses recursos provêm do Recurso de Preservação da Memória Ferroviária (RPMF), um fundo estabelecido no contrato de concessão da Rumo Malha Paulista e aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Após a conclusão da restauração, os vagões serão devolvidos à prefeitura para sua função expositiva.
O encerramento do Trem Caipira em São José do Rio Preto é um lembrete dos complexos desafios que envolvem a revitalização e a manutenção de projetos de transporte turístico. Entre custos elevados, limitações operacionais e a necessidade de sustentabilidade financeira, o caso destaca a importância de um planejamento robusto para que tais iniciativas possam prosperar. Enquanto o trem turístico sai dos trilhos, a recuperação dos carros históricos garante que uma parte vital da memória ferroviária da região seja preservada para as futuras gerações, talvez abrindo caminho para novas abordagens no uso do patrimônio.
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