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06 de March de 2026

Acidente com ônibus na BR-153 deixa saldo de 6 mortos e a teia de irregularidades

Polícia
17/02/2026 11:48
Redacao
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Uma tragédia rodoviária marcou a madrugada desta segunda-feira (16/2) na BR-153 (Rodovia Transbrasiliana), próximo à serra de Ocauçu, em um trecho do município de Marília, interior de São Paulo. Um grave acidente envolvendo um ônibus que transportava trabalhadores rurais resultou na morte de seis pessoas e deixou 45 feridos, muitos em estado grave, lançando luz sobre a precariedade do transporte de trabalhadores e as condições de uma das rodovias mais perigosas do Brasil.

O veículo, que partiu do Maranhão com destino a Santa Catarina, levava trabalhadores que se dirigiam à região Sul do país para a colheita de maçãs. A jornada, que deveria ser de esperança por novas oportunidades, transformou-se em luto e sofrimento, expondo a vulnerabilidade de uma parcela da população que busca sustento longe de casa.

Conforme informações preliminares da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o incidente teria sido provocado pelo estouro de um dos pneus, o que levou à perda de controle do ônibus e seu subsequente capotamento. No entanto, a investigação rapidamente revelou uma série de graves irregularidades que podem ter contribuído para a dimensão da catástrofe.

Veículo precário

A apuração da PRF indicou que o ônibus operava de forma clandestina no estado de São Paulo. O inspetor Flávio Catarucci, em entrevista à Rádio CBN, confirmou que a autorização de circulação do veículo era restrita à região Nordeste do Brasil. Além disso, o repórter Klaus Bernardino, do portal Visão Notícias, revelou que o coletivo não possuía autorização da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para fretamento fora do Maranhão.

A precariedade do ônibus ia além das licenças. O veículo apresentava graves problemas mecânicos, incluindo a ausência de uma das quatro rodas traseiras do lado esquerdo. Passageiros relataram que o motorista já havia parado em borracharias por duas vezes durante a viagem para tentar resolver problemas com pneus, sendo que uma roda traseira precisou ser retirada por falta de condições de reparo. Pouco antes do capotamento, outro pneu do mesmo lado teria estourado, comprometendo seriamente a estabilidade do coletivo e a segurança dos ocupantes.

Condutor autuado

A bordo, dois motoristas se revezavam na condução. O que estava em período de descanso faleceu no local do acidente. O condutor que estava ao volante no momento da colisão foi internado em estado grave e, em flagrante, autuado por homicídio. A situação agrava o cenário, colocando em evidência a responsabilidade individual e as falhas sistêmicas que permitiram que um veículo em tais condições estivesse em circulação.

A autuação por homicídio em flagrante sinaliza a gravidade das omissões e negligências observadas. As investigações deverão aprofundar-se para determinar todas as responsabilidades, tanto do motorista quanto da empresa proprietária do ônibus, que expôs vidas a um risco inaceitável.

O acidente na BR-153 não é um caso isolado e reacende o debate sobre as condições da rodovia, conhecida como Transbrasiliana e frequentemente citada no ranking das mais perigosas do país. Na semana anterior à tragédia, o jornalista Nelson Gonçalves, editor do jornal Folha2, percorreu o trecho paulista da BR-153 e publicou um artigo alarmante intitulado “BR-153: a rodovia das cinco tristezas”.

Em seu texto, Gonçalves descreve as “cinco tristezas” que afligem a rodovia: a falta de duplicação, a ausência de acostamento digno, a deficiência de sinal de telefonia celular na maior parte do trajeto, a sinalização precária e o estado avançado de degradação, com buracos e remendos malfeitos. Características que transformam a via em um cenário de alto risco para quem a utiliza.

A situação é ainda mais revoltante quando se considera que os usuários pagam pedágios caríssimos em quatro praças, como se trafegassem por uma via moderna. A realidade, contudo, é de risco, atraso e insegurança, com a concessionária mantendo apenas uma cabine automática para o sistema Sem Parar, gerando filas desnecessárias e demonstrando falta de respeito com o usuário.

Inércia política

O artigo de Nelson Gonçalves não poupa críticas à inércia de autoridades. Questiona a omissão dos prefeitos de Marília, Ourinhos, Lins, São José do Rio Preto e das outras 18 cidades cortadas pela rodovia, além dos deputados estaduais e federais da região e do Ministério Público Federal. O silêncio diante de um problema que ceifa vidas todos os meses é apontado como criminoso.

A BR-153, que se estende por 3.255 km e cruza oito estados, é a principal ligação terrestre da região com Brasília. No entanto, para aqueles que ocupam cargos de poder, a rodovia parece invisível, uma vez que não a utilizam, optando por voos pagos pelo contribuinte. Esta desconexão reforça a percepção de abandono e descaso com uma infraestrutura vital para o país e para a segurança de seus cidadãos.

Diante da dimensão da tragédia, a comunidade de Marília se mobilizou em um belo gesto de solidariedade. Torcedores do Marília Atlético Clube, liderados por Dejair Sérgio Fernandes, iniciaram uma campanha de doação de sangue no Hemocentro de Marília para ajudar as vítimas. Um incentivo adicional foi oferecido: as primeiras 200 pessoas que doarem receberão uma bola personalizada do clube.

Essa resposta imediata da população demonstra a capacidade de união e empatia em momentos de crise, buscando amenizar o sofrimento dos feridos e das famílias das vítimas. A corrente de solidariedade é um alento em meio à dor, mas também um lembrete da necessidade urgente de ações preventivas e fiscalização rigorosa.

A tragédia na BR-153 em Marília é um doloroso lembrete das consequências da negligência no transporte de passageiros e da infraestrutura precária das rodovias brasileiras. Revela uma cadeia de falhas que vai desde a fiscalização deficiente de veículos e empresas de transporte até a inação das autoridades responsáveis pela manutenção e segurança viária.

É imperativo que este acidente sirva como um catalisador para uma revisão profunda das políticas de segurança no transporte e na gestão de rodovias. A investigação precisa ser transparente e eficaz, garantindo que todas as responsabilidades sejam apuradas e que medidas concretas sejam implementadas para evitar que tragédias como esta se repitam. A vida dos trabalhadores e a segurança de todos que transitam pelas estradas do país dependem disso.

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