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06 de March de 2026

Banco Central faz liquidação extrajudicial do Will Financeira, do Grupo Master

Marília
21/01/2026 11:16
Redacao
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O Banco Central do Brasil decretou, nesta quarta-feira (21/1), a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento. A instituição, controlada pelo Banco Master, teve seu destino selado após o BC avaliar a inviabilidade de uma solução que a preservasse, mesmo após a imposição de um RAET (Regime Especial de Administração Temporária) ao Banco Master em novembro de 2023. A decisão reflete o comprometimento da situação econômico-financeira da Will Financeira, sua insolvência e o vínculo inquestionável com o poder de controle do Banco Master, que já estava sob intervenção. Entre as medidas iniciais, destaca-se a indisponibilidade dos bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição, visando salvaguardar os interesses dos credores e a integridade do Sistema Financeiro Nacional.

A cronologia dos eventos que culminaram na liquidação extrajudicial do Will Financeira tem suas raízes na intervenção sobre o Banco Master. Em novembro de 2023, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, uma medida drástica que sinalizou graves problemas na gestão e na saúde financeira da instituição. Contudo, em um esforço para proteger a Will Financeira, então uma controlada considerada com potencial de recuperação, o BC optou por impor o Regime Especial de Administração Temporária (RAET) ao Master Múltiplo S/A. O objetivo declarado era buscar uma solução que permitisse a continuidade das operações da financeira, preservando empregos e serviços, e minimizando impactos no mercado.

Um RAET é um mecanismo regulatório onde o Banco Central assume temporariamente a gestão de uma instituição financeira com problemas sérios, mas ainda não irreversíveis. Durante esse período, a administração do BC busca reorganizar a empresa, sanear suas contas ou encontrar um comprador, visando evitar a liquidação. No caso do conglomerado Master, a esperança era que a Will Financeira, embora parte do mesmo grupo, pudesse ser reestruturada e vendida, separando-a dos problemas mais profundos do banco controlador.

Ponto de ruptura

Apesar dos esforços iniciais e da imposição do RAET, a solução para a Will Financeira não se mostrou viável. O ponto de inflexão ocorreu em 19 de janeiro, quando foi constatado o descumprimento, pela Will Financeira, da grade de pagamentos com o arranjo de pagamentos Mastercard Brasil Soluções de Pagamentos. Este incidente teve como consequência imediata o bloqueio de sua participação nesse arranjo, um golpe fatal para uma instituição que depende vitalmente desses sistemas para processar transações de seus clientes, como pagamentos com cartões de crédito e débito.

A impossibilidade de operar em um arranjo de pagamentos central como o da Mastercard significa a paralisação das atividades operacionais essenciais para uma financeira. Essa falha comprometeu de forma irremediável a liquidez da Will Financeira e a sua capacidade de honrar seus compromissos, tornando a situação insustentável. Diante desse cenário crítico, a autoridade monetária considerou inevitável a liquidação extrajudicial. A justificativa do BC foi clara: o comprometimento da situação econômico-financeira da Will Financeira, sua insolvência manifesta e o vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master não deixaram alternativa senão a intervenção definitiva.

Para compreender a liquidação do Will Financeira, é crucial analisar o contexto do seu controlador, o Banco Master. Liderado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master experimentou um crescimento vertiginoso nos últimos anos, destacando-se no mercado por oferecer Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade significativamente acima da média de mercado. Essa estratégia, embora atraente para investidores em busca de altos retornos, demandava uma captação constante e a tomada de decisões de investimento que, segundo as investigações, se revelaram excessivamente arriscadas e, em alguns casos, irregulares.

Para sustentar esse modelo de negócio de alta rentabilidade prometida, o Banco Master passou a assumir riscos desproporcionais e a estruturar operações que, supostamente, inflavam artificialmente seu balanço. Enquanto os números no papel podiam sugerir solidez, a liquidez real – ou seja, o dinheiro imediatamente disponível para honrar saques e pagamentos a investidores – deteriorava-se progressivamente. Essa disparidade entre os dados contábeis e a capacidade efetiva de pagamento é um sinal clássico de fragilidade financeira e, frequentemente, um precursor de colapsos bancários.

Enigma da Reag Investimentos

As investigações conduzidas pela Polícia Federal e os relatórios internos do Banco Central apontam que o colapso do Banco Master não se limitou a problemas financeiros ou de má gestão, mas incluiu fortes indícios de irregularidades e fraudes de natureza institucional. A conexão do banco com a gestora Reag Investimentos é central para o entendimento dessas alegações, transformando o caso em um complexo xadrez que mobilizou órgãos de controle e gerou impacto na credibilidade do setor.

Entre os anos de 2023 e 2024, o Banco Master é suspeito de ter desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de um sofisticado esquema de triangulações. O mecanismo envolveria o banco emprestando recursos a empresas supostamente “laranja” ou de fachada. Essas empresas, por sua vez, aplicariam o dinheiro em fundos geridos pela Reag Investimentos. Os fundos, então, adquiririam ativos de baixo ou nenhum valor real, como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc), por preços inflacionados artificialmente.

O Banco Central, em sua fiscalização, identificou seis fundos da Reag considerados suspeitos, cujo patrimônio conjunto atingia a cifra de R$ 102,4 bilhões. As investigações indicam que o dinheiro circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários, em uma tentativa de mascarar a origem e o destino final dos recursos, até que chegassem aos beneficiários da suposta fraude. Esse complexo esquema, com múltiplas camadas de transações, é um foco de apuração que visa desvendar os responsáveis e as ramificações de tais operações. [Saiba mais sobre as investigações do Banco Master].

Proteção para o mercado

Apesar da gravidade das acusações e da complexidade do caso envolvendo o Banco Master e, consequentemente, a Will Financeira, o impacto direto no Sistema Financeiro Nacional (SFN) é considerado limitado em termos de risco sistêmico. O conglomerado Master detinha uma parcela relativamente pequena do mercado: 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do SFN. Essa representatividade modesta sugere que, embora a liquidação seja um evento sério para os envolvidos e credores, ela não representa uma ameaça generalizada à estabilidade do sistema bancário brasileiro, que é reconhecido por sua robustez e regulamentação rigorosa. [Confira outras análises sobre a estabilidade do SFN].

Para os clientes da Will Financeira que possuem depósitos ou investimentos protegidos, o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) atua como uma importante salvaguarda. O FGC é uma entidade privada, sem fins lucrativos, que tem como missão proteger os depositantes e investidores das instituições financeiras associadas, em caso de intervenção, liquidação ou falência. Essa proteção contribui para a estabilidade do sistema financeiro, prevenindo corridas bancárias e garantindo a confiança dos poupadores.

A cobertura do FGC se estende a diversos tipos de investimentos, como depósitos à vista ou em poupança, CDBs (Certificados de Depósito Bancário), LCIs (Letras de Crédito Imobiliário), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), LCs (Letras de Câmbio), entre outros. O limite de garantia é de até R$ 250 mil por CPF/CNPJ por instituição financeira ou conglomerado financeiro. Há um teto global de R$ 1 milhão para garantias por CPF ou CNPJ, considerando um período de quatro anos.

O FGC já havia iniciado os pagamentos para os clientes do Banco Master afetados pela liquidação da instituição, o que serve de precedente para os clientes da Will Financeira. O processo para solicitar a indenização geralmente envolve o contato direto com o FGC, que disponibiliza os canais e a lista de documentação necessária.

Processo de liquidação

A decretação da liquidação extrajudicial da Will Financeira inicia um processo legalmente definido e supervisionado pelo Banco Central. Um liquidante é nomeado para administrar a massa liquidanda, ou seja, o conjunto de bens, direitos e obrigações da instituição. A primeira etapa do liquidante é o levantamento completo do ativo (tudo o que a financeira possui) e do passivo (todas as suas dívidas e obrigações). Este levantamento é crucial para determinar a capacidade da instituição de honrar seus compromissos.

Após o levantamento, o liquidante procede à venda dos ativos da Will Financeira para arrecadar fundos. O pagamento dos credores ocorre em uma ordem legal de preferência, que geralmente prioriza débitos trabalhistas, fiscais, credores com garantia real e, posteriormente, credores quirografários (sem garantia) e, por último, os acionistas. É importante notar que o processo de liquidação pode ser longo e complexo, e a recuperação integral dos valores investidos ou depositados pode não ser garantida, especialmente para aqueles que excedem o limite de cobertura do FGC ou para tipos de investimento não protegidos. [Fonte: Banco Central do Brasil].

O Banco Central reitera que suas ações visam primordialmente a preservação da estabilidade do Sistema Financeiro Nacional e a proteção dos credores, agindo sempre em conformidade com a legislação vigente para garantir a segurança e a confiança do mercado. A liquidação extrajudicial, embora uma medida de último recurso, é um instrumento essencial para coibir práticas irregulares e sanear instituições que não cumprem com as exigências regulatórias e de solvência. Para mais informações sobre a regulação do setor financeiro, consulte nosso arquivo de notícias ou [clique aqui] para acessar relatórios do Banco Central.

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