Avanço da economia prateada e o empreendedorismo sênior no Brasil
O Brasil atravessa uma significativa transformação demográfica e socioeconômica, impulsionada pelo crescimento da chamada economia prateada. Esse fenômeno, caracterizado pela participação ativa de pessoas com mais de 60 anos no mercado, ganha contornos específicos em localidades como Marília, no interior de São Paulo. Ali, o acesso ao mercado de trabalho formal tem se mostrado cada vez mais restritivo para os trabalhadores experientes, fomentando um movimento notável em direção ao empreendedorismo como alternativa e, muitas vezes, como necessidade principal de geração de renda.
Nos últimos dez anos, o país testemunhou um aumento expressivo de 58,6% no número de empreendedores seniores, totalizando cerca de 4,5 milhões de pessoas acima dos 60 anos à frente de seus próprios negócios. Essa ascensão é multifacetada, refletindo tanto o desejo intrínseco de muitos idosos em manter-se produtivos e engajados quanto o impacto do etarismo – o preconceito de idade que frequentemente dificulta sua permanência ou reinserção no mercado de trabalho formal. Instituições como o Sebrae desempenham um papel crucial de apoio, tendo atendido 869 mil pessoas desse público em 2025, com uma projeção de alcançar 1 milhão de atendimentos em 2026. Esse apoio se torna vital para a capacitação e formalização desses novos empreendimentos.
Os dados do Novo Caged em Marília ilustram de forma contundente o cenário de restrição para os trabalhadores mais velhos no ambiente formal. A cidade reflete a tendência nacional de redução na oferta de vagas para as faixas etárias de 50 a 64 anos e, de forma ainda mais acentuada, para aqueles com 65 anos ou mais. Para compreender a dinâmica dessa transformação local, é fundamental analisar os registros de geração de empregos nos primeiros bimestres dos anos de 2025 e 2026, que revelam um contraste marcante entre as gerações.
Primeiro bimestre
No início de 2025, a geração de empregos formais em Marília concentrou-se predominantemente nas faixas etárias mais jovens. O grupo de 18 a 24 anos registrou um saldo positivo de 281 vagas, com 2.012 admissões e 1.731 demissões. A faixa de até 17 anos também apresentou um saldo favorável de 227 vagas, resultado de 357 admissões contra 130 demissões, indicando uma forte absorção de jovens no primeiro emprego ou aprendizado.
Entre os adultos, o mercado demonstrou certa estabilidade, mas com saldos positivos mais modestos. Trabalhadores de 30 a 39 anos tiveram um saldo de 145 vagas (1.794 admissões e 1.649 demissões), enquanto a faixa de 40 a 49 anos somou 131 vagas (1.172 admissões e 1.041 demissões). O grupo de 25 a 29 anos registrou o menor saldo positivo entre os adultos, com 85 vagas (1.166 admissões e 1.081 demissões).
Para os trabalhadores mais experientes, o cenário já mostrava sinais de alerta. A faixa etária de 50 a 64 anos ainda mantinha um saldo positivo, embora pequeno, de 35 vagas (609 admissões e 574 demissões). No entanto, para o público com 65 anos ou mais, o saldo já era negativo em sete vagas, com 37 admissões e 44 demissões, sinalizando a dificuldade de permanência e recolocação para essa parcela da força de trabalho. Esse dado inicial já antecipava a intensificação de uma tendência que se consolidaria no ano seguinte.
Intensificação do cenário
O primeiro bimestre de 2026 em Marília aprofundou as tendências observadas no ano anterior, com o mercado de trabalho formal continuando a priorizar os mais jovens. A faixa de 18 a 24 anos manteve um saldo positivo robusto, com 282 vagas (1.888 admissões e 1.606 demissões), e os trabalhadores de até 17 anos viram seu saldo aumentar para 238 vagas (409 admissões e 171 demissões).
Nas faixas etárias adultas, a dinâmica mudou sutilmente. Os trabalhadores de 40 a 49 anos registraram 110 vagas (1.156 admissões e 1.046 demissões), enquanto o grupo de 30 a 39 anos teve um saldo mais apertado, de 53 vagas (1.725 admissões e 1.672 demissões). A faixa de 25 a 29 anos, por sua vez, experimentou uma leve queda, com um saldo negativo de quatro vagas (1.091 admissões e 1.095 demissões), indicando uma desaceleração na absorção desses profissionais.
O impacto mais severo, contudo, recaiu sobre os trabalhadores mais velhos, consolidando a restrição de acesso ao emprego formal. A faixa de 50 a 64 anos, que em 2025 ainda tinha saldo positivo, registrou uma perda de 22 vagas em 2026, com 571 admissões e 593 demissões. Essa inversão de cenário é um indicador claro das crescentes barreiras enfrentadas por essa parcela da população economicamente ativa.
Entre os profissionais com 65 anos ou mais, a situação tornou-se ainda mais crítica, com o saldo negativo se acentuando para 50 vagas. Os dados revelam apenas 27 admissões contra 77 demissões, evidenciando uma dificuldade quase intransponível para esses trabalhadores em se manterem ou se reinserirem no mercado de trabalho formal. Essa realidade reforça a necessidade de buscar outras vias de atuação profissional, como o empreendedorismo.
Economia prateada
Diante das crescentes dificuldades no emprego formal, os trabalhadores mais experientes têm se voltado para o empreendedorismo, integrando ativamente a economia prateada. Para muitos, essa transição não é apenas uma escolha, mas uma resposta pragmática a um mercado que, muitas vezes, não valoriza a experiência acumulada ao longo de décadas. O empreendedorismo oferece a esses indivíduos a oportunidade de continuar ativos, utilizando seu vasto conhecimento e rede de contatos para criar novos negócios e gerar renda, contribuindo significativamente para a economia local e nacional.
A resiliência desses profissionais, aliada à sua capacidade de inovação e à bagagem de vida, tem se mostrado um diferencial. Eles trazem para seus empreendimentos não apenas competências técnicas, mas também maturidade na gestão de crises, disciplina e um profundo entendimento das necessidades do consumidor, muitas vezes focando em nichos que a força de trabalho mais jovem ainda não explorou. A capacitação contínua e o acesso a recursos são, portanto, essenciais para que essa nova força empreendedora possa prosperar e fortalecer o tecido econômico do país.
A transição demográfica do Brasil, com o envelhecimento da população ativa, impõe a necessidade de um olhar mais atento e de políticas públicas que apoiem a inclusão e a valorização dos trabalhadores mais velhos. Seja no formato de empreendedorismo sênior ou através de adaptações no mercado formal, a experiência e o potencial da economia prateada representam um capital humano e econômico inestimável, capaz de impulsionar o desenvolvimento e a inovação. Compreender e apoiar esse movimento é fundamental para construir um futuro mais inclusivo e próspero para todos.
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