Marília perde 50% da água tratada e despeja 32% do esgoto ‘in natura’ nos mananciais
Os números são alarmantes: Marília desperdiça mais da metade da água tratada antes que chegue às torneiras e despeja quase um terço do esgoto produzido diretamente no meio ambiente, sem qualquer tratamento. O quadro revela o impacto devastador de décadas de negligência e gestão ineficiente nos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário da cidade.
Conforme artigo publicado pela RIC Ambiental no Jornal da Manhã, no último sábado, durante anos, falhas estruturais foram ignoradas e investimentos essenciais foram postergados, resultando em uma infraestrutura obsoleta e incapaz de atender à população de forma segura e eficaz. Redes frágeis, tubulações ultrapassadas e estações de tratamento operando muito além de sua vida útil levaram Marília a um cenário insustentável.
Infraestrutura comprometida
O artigo aponta ainda que, as ETAs (Estações de Tratamento de Água) Peixe e Cascata, há mais de 50 anos sem reformas significativas, são exemplos claros desse abandono. Estudos técnicos identificaram fissuras e trincas nas estruturas, alertando para os riscos ao abastecimento, mas nenhuma ação corretiva consistente foi implementada. O fornecimento de água à população, já deficiente, tornou-se vulnerável e sujeito a falhas constantes.
Na distribuição, a situação é ainda mais grave. Tubulações antigas, muitas ainda compostas de cimento amianto (material proibido em novas instalações por seus riscos à saúde) apresentam rompimentos frequentes, resultando em perdas de água superiores a 50% do volume produzido. Essa taxa de desperdício coloca Marília entre os municípios com os índices mais preocupantes do país.
O cenário crítico também se estende ao sistema de esgoto. Apesar de coletar cerca de 84% dos efluentes gerados, a cidade trata apenas 68%, despejando o restante diretamente no meio ambiente. A contaminação do solo e dos cursos d’água impõe riscos graves à saúde pública, ampliando a incidência de doenças e impactando o ecossistema local.

Herdeiros do caos
O texto publicado no sábado indica ainda que a gravidade da situação já havia sido registrada no Termo de Referência da Concorrência Pública nº 013/2022, que formalizou a concessão dos serviços de saneamento da cidade. O documento apontava a incapacidade do então Daem (Departamento de Água e Esgoto de Marília) de realizar os investimentos necessários, detalhando a deterioração das estruturas, a precariedade das redes e a iminência de colapso dos mananciais.
Obras inacabadas, como estações elevatórias e emissários, comprometiam ainda mais a funcionalidade do sistema. A falta de planejamento adequado e de setorização na distribuição tornava impossível a execução de melhorias sem uma intervenção profunda.
Diante desse cenário, em setembro de 2024, a Prefeitura de Marília firmou contrato com a RIC Ambiental para assumir os serviços de água e esgoto, estabelecendo metas de curto, médio e longo prazo para a universalização dos serviços e a modernização das operações. No entanto, reverter décadas de descaso não é tarefa simples, e as dificuldades enfrentadas nessa transição evidenciam o tamanho do problema herdado.

Reconstrução gradual
Apesar dos desafios, a RIC Ambiental iniciou rapidamente ações estruturantes. Novos poços profundos estão sendo perfurados, com previsão de operação ainda este ano. As ETAs passam por processos de modernização para ampliar a capacidade de fornecimento e reduzir os riscos de desabastecimento. O objetivo é garantir segurança hídrica e eficiência operacional à cidade.
O avanço, porém, não é isento de críticas. Parte da população ainda demonstra resistência à concessão e questiona o modelo de gestão privada. Além disso, o processo licitatório foi alvo de contestações, gerando debates sobre a viabilidade da parceria e os custos para os consumidores.
Longo caminho
Reconstruir um sistema de saneamento devastado por anos de negligência exige investimentos robustos, planejamento técnico detalhado e a atuação de uma equipe especializada. O caminho até a universalização dos serviços é longo e desafiador, mas Marília finalmente começa a trilhar um processo de recuperação.
Não há solução instantânea para um problema estruturado ao longo de décadas. No entanto, com ações concretas e compromisso com a transparência, a cidade busca reverter o impacto de sua histórica negligência e garantir que, no futuro, água limpa e saneamento básico sejam direitos efetivos para todos os marilienses.

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