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05 de July de 2026

China constrói infraestrutura financeira na África para diminuir dependência do dólar

Marília
05/07/2026 18:47
Redacao
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A China tem intensificado seus esforços para estabelecer uma robusta infraestrutura financeira no continente africano, com o objetivo estratégico de reduzir a dependência global do dólar. Esta iniciativa permite que o comércio de bens e serviços seja conduzido utilizando moedas locais africanas e o yuan chinês (renminbi), marcando um passo significativo em direção a uma economia mundial mais multipolar.

Contrariando a percepção de uma desdolarização iminente, as autoridades em Pequim reconhecem que o uso do yuan, embora crescente, ainda é minoritário nas transações africanas. A complexidade do cenário exige uma abordagem gradual e estratégica, focada na criação de mecanismos alternativos, em vez de uma ruptura abrupta com o sistema financeiro dominado pelo dólar.

Um exemplo concreto dessa estratégia foi a autorização, no fim de junho, concedida pelo Banco Central da China para que o Standard Bank, o maior grupo bancário da África com sede na África do Sul, processe pagamentos diretos em yuan. Essa parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) fortalece a capacidade de transações diretas entre os dois blocos econômicos.

Em comunicado oficial, o Standard Bank, que opera em 21 países africanos, ressaltou a singularidade dessa colaboração. "[A parceria] nos coloca em uma posição única para lidar com renminbi chinês (RMB), permitindo que as empresas façam e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, viabilizando o comércio entre a África e a China", afirmou a instituição, destacando o impacto prático para empresários e comerciantes.

Este movimento reforça a já sólida relação comercial entre China e África, onde o gigante asiático figura como o principal parceiro comercial do continente. Dados da Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China revelam que, entre 2000 e 2024, o comércio bilateral registrou um crescimento médio impressionante de 14% ao ano. A isenção de taxas de importação para produtos africanos, anunciada em 1º de maio, é outra medida que visa intensificar essa relação e estimular o fluxo comercial.

Yuan: ascensão

Apesar do ímpeto chinês, o analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, avalia que o avanço do yuan na África e no cenário global ainda é comedido. No entanto, ele enfatiza a importância estratégica da construção dessa infraestrutura financeira que permite transações independentes do dólar. "Isso é um começo. A China tem feito uma série de iniciativas, como essas, no mundo inteiro para poder comercializar sem o dólar. Mas o montante negociado em yuan é ainda irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se eles estivessem construindo os trilhos para o trem bala chinês passar no futuro", comentou Fernandes ao Brasil de Fato.

O analista ressalta que a maior parte das commodities de energia e alimentos, pilares do comércio mundial, continua sendo negociada em dólares. Embora o yuan seja atualmente a quinta moeda mais utilizada no comércio internacional, respondendo por cerca de 8,5% das transações globais – um volume ainda modesto –, sua trajetória é de crescimento. "Está crescendo se você comparar com três, cinco ou dez anos atrás", adiciona Fernandes, indicando uma tendência de longo prazo.

A discussão sobre a "desdolarização" da economia mundial é uma das agendas centrais do Brics, o grupo de países do Sul Global que inclui Brasil, China, Índia e África do Sul, entre outros. A hegemonia do dólar como moeda de reserva internacional concede vantagens econômicas e políticas substanciais aos Estados Unidos, sendo um ponto de contestação por diversas nações. Para mais informações sobre o assunto, leia também: <a href="https://seusite.com.br/brics-e-o-futuro-do-comercio-global" target="_blank" rel="noopener">Brics e o futuro do comércio global</a>.

Em contraste com essa agenda, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem se manifestado veementemente contra a desdolarização, prometendo lutar para preservar a primazia da moeda norte-americana no cenário global. Essa polarização reflete a complexidade das dinâmicas econômicas e políticas envolvidas na tentativa de reconfigurar o sistema financeiro mundial.

Contrariando a percepção de um desejo chinês por uma desdolarização imediata, Marco Fernandes, também editor da revista Wenhua Zongheng International, aponta que a China não tem interesse em uma transição acelerada. Um dos motivos reside nas vastas reservas chinesas em dólar, que seriam prejudicadas por uma desvalorização súbita. Além disso, Pequim busca manter o valor de sua moeda em um patamar que preserve a competitividade de suas exportações.

Dólar: desafios

Outro fator que modera o ímpeto chinês para a internacionalização plena do yuan é a cautela em abrir sua conta de capitais. Essa medida, embora vista como crucial para a internacionalização de uma moeda, exporia o sistema financeiro chinês às volatilidades e à especulação global, um risco que Pequim busca evitar. A conta de capitais representa a movimentação de recursos que entram e saem de um país. "Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro", reiterou Marco Fernandes, sublinhando a estratégia de longo prazo.

Em meio a esses debates, surgem propostas para alternativas ao dólar. O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do Brics, publicou em junho um artigo propondo a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional. Nogueira reconhece a expansão da rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que envolve mais de 40 bancos centrais, e a crescente influência do yuan nas operações de liquidação global.

No entanto, Nogueira Batista Jr. concorda que a substituição do dólar pelo yuan não é de interesse imediato da economia chinesa. Em vez de uma única moeda de substituição, ele sugere a criação de uma unidade de conta própria para o comércio global, formada por uma "cesta" de moedas de países do Sul Global. "Em determinado momento, a unidade de conta seria convertida em uma nova moeda, preservando os mesmos pesos", explicou Paulo Nogueira no Valdai Discussion Club, um centro de estudos sediado em Moscou.

Futuro: propostas

A movimentação da China na África, embora não vise uma desdolarização imediata, representa um esforço contínuo para diversificar o sistema financeiro global e construir uma infraestrutura que, a longo prazo, possa oferecer mais opções para o comércio internacional. A visão de um futuro com menor dependência de uma única moeda, seja através da expansão do yuan ou da criação de novas moedas de reserva, continua sendo um ponto central nas discussões geopolíticas e econômicas do Sul Global, buscando maior justiça e equilíbrio no cenário mundial.

Para aprofundar seu conhecimento sobre as tendências do comércio global e as relações sino-africanas, confira outras análises disponíveis em nosso portal: <a href="https://seusite.com.br/comercio-internacional-novas-rotas" target="_blank" rel="noopener">Comércio internacional: novas rotas e parceiros</a>.



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