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03 de August de 2026

Corte histórico na ajuda internacional: um impacto global sem precedentes

Marília
03/08/2026 18:46
Redacao
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O financiamento global para o desenvolvimento está em seu ponto mais crítico em uma década, com uma redução sem precedentes no volume de ajuda internacional. Na passagem de 2024 para 2025, países ricos destinaram 23,1% menos recursos a nações menos desenvolvidas e instituições multilaterais, marcando o maior corte já registrado na história. A diminuição, que representa um decréscimo de 52,4 bilhões de dólares em um único ano, totalizando 174,3 bilhões de dólares em 2024, já considerando a inflação, configura o segundo ano consecutivo de retração global, conforme revelam dados alarmantes.

Esta crise de financiamento tem implicações vastas, atingindo programas humanitários, projetos de segurança alimentar e iniciativas ambientais ao redor do mundo. Em um cenário onde a demanda por assistência só cresce, impulsionada por conflitos e crises climáticas, a redução do auxílio coloca milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade ainda maior. <a href="#" target="_blank" rel="noopener">Saiba mais sobre a necessidade de ajuda internacional na Síria devastada pela guerra</a>.

A retração da assistência ao desenvolvimento

As informações alarmantes são provenientes do estudo “Financiamento para o Desenvolvimento”, conduzido pelo Brics Policy Center, um respeitado centro de estudos vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os pesquisadores Isabel Rocha de Siqueira, Enzo Cosenza e Luis Ehl analisaram dados do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o qual congrega os países doadores. As projeções para 2026 indicam uma nova redução, de 6,9%, consolidando um terceiro ano consecutivo de declínio e rebaixando o patamar de ajuda a níveis vistos pela última vez em 2014.

Essa ajuda, conhecida como Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), compreende recursos públicos fornecidos por governos com o objetivo primordial de fomentar o desenvolvimento econômico e a prosperidade em outras nações. A AOD pode ser direcionada de duas formas principais: bilateralmente, quando os recursos são enviados diretamente a um país receptor, ou multilateralmente, quando os governos contribuem para instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial, que gerenciam seus próprios programas de desenvolvimento.

Os motores por trás da diminuição

O corte substancial na ajuda internacional, de 23,1%, é predominantemente impulsionado por um pequeno grupo de nações. O estudo revela que, dos 33 países-membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) e da União Europeia, os cinco maiores doadores – França, Alemanha, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – são responsáveis por 95,7% da redução total observada entre 2024 e 2025. Esse dado sublinha a concentração das decisões de corte e o peso desses atores no cenário global de assistência.

O papel dos Estados Unidos e a mudança de política

Os Estados Unidos emergem como o principal motor dessa retração. O país efetuou um corte de mais da metade em sua ajuda internacional (56,9%), respondendo sozinho por três quartos (75,1%) da diminuição total. Essa acentuada redução coincide com o início de um novo mandato de Donald Trump na presidência, que historicamente tem defendido posições contrárias ao multilateralismo. A primeira vez em que todos os grandes doadores registraram diminuição por dois anos consecutivos também foi em 2024, com cortes significativos da Alemanha (-17,4%), França (-10,9%), Reino Unido (-10,8%) e Japão (-5,6%). <a href="#" target="_blank" rel="noopener">Leia também: Trump retira EUA de 66 organizações internacionais.</a>

Reorientação de prioridades: defesa e energia

Além das mudanças políticas, outro fator crucial para a diminuição da ajuda é a reorientação de recursos para áreas como segurança energética e defesa. Nos Estados Unidos, os gastos com defesa aumentaram de 822,8 bilhões de dólares em 2024 para 845,3 bilhões de dólares em 2025. Na União Europeia, o salto foi de 11%, atingindo 381 bilhões de euros. O investimento total em energia na UE quase dobrou na última década, passando de 215 bilhões de dólares em 2015 para aproximadamente 420 bilhões de dólares em 2025. Esse impulso foi fortemente acelerado pelo choque de segurança energética após o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Essa mudança de foco, segundo os pesquisadores, sinaliza uma “retração seletiva” da ajuda internacional. Embora o financiamento ao sistema ONU tenha caído 27%, a maior queda já registrada, o apoio a outras instituições teve um comportamento distinto: o Banco Mundial viu um aumento de 6,4% e os bancos regionais de desenvolvimento, 11,9%. O documento conclui que “os governos doadores estão redefinindo quais tipos de engajamento multilateral eles consideram dignos de serem preservados, por motivos estratégicos”.

Ucrânia: uma exceção em meio aos cortes

Mesmo em um contexto de severa queda na ajuda internacional global, a Ucrânia, país que enfrenta o quinto ano de guerra com a Rússia, destaca-se como uma prioridade estratégica para diversas nações europeias. Embora tenha sofrido uma redução de 91% na ajuda dos Estados Unidos, a Ucrânia tornou-se o maior recebedor individual de Ajuda Oficial ao Desenvolvimento em toda a história.

O volume significativo de 44,9 bilhões de reais recebidos pelo país foi compensado por um aumento na assistência financeira de 23 países, bem como por instituições da União Europeia, que incrementaram seus envios em 65,2%. O montante destinado à Ucrânia é notavelmente superior aos 28,1 bilhões de dólares alocados para os 44 países classificados pela ONU como Países Menos Desenvolvidos (PMD), evidenciando uma disparidade estratégica no direcionamento dos recursos globais.

Implicações de um futuro com menos apoio

A redução histórica na ajuda internacional projeta um cenário de desafios crescentes para as nações mais vulneráveis. Cortes em programas vitais ameaçam a segurança alimentar e as políticas de desenvolvimento sustentável, enquanto a capacidade de resposta a crises humanitárias é significativamente comprometida. Além disso, a diminuição de investimentos em áreas como saúde pública e educação pode frear o progresso social e econômico alcançado com esforço em décadas recentes.

A reorientação de fundos para defesa e segurança energética, embora justificada por interesses estratégicos de países doadores, tem o potencial de exacerbar as desigualdades globais. Este movimento seletivo, que prioriza certos canais e regiões em detrimento de outros, levanta questões sobre a eficácia da AOD em sua missão original de promover o desenvolvimento e reduzir a pobreza em escala mundial. O desafio agora reside em encontrar soluções para mitigar o impacto desses cortes e garantir que o desenvolvimento global não seja permanentemente prejudicado. <a href="#" target="_blank" rel="noopener">Confira outras notícias sobre o impacto dos cortes na ajuda internacional.</a>



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