Elza Berquó, referência da demografia no Brasil, morre aos 100 anos, em São Paulo
Faleceu em São Paulo, aos 100 anos, a demógrafa Elza Salvatori Berquó, uma das maiores referências nos estudos populacionais e na formação do pensamento social brasileiro. Sua partida, na última quinta-feira (16/7), marca o encerramento de uma trajetória centenária dedicada à compreensão das dinâmicas que moldaram o país, desde a urbanização até as profundas transformações sociais e demográficas. Com uma mente aguçada e um compromisso inabalável com a ciência e os direitos humanos, Elza Berquó deixou um legado que transcende as fronteiras acadêmicas.
Matemática por formação inicial, Elza Berquó dedicou sua vida à análise de dados censitários e demográficos, traduzindo números complexos em narrativas sobre o Brasil e seu povo. Sua atuação foi crucial para a articulação de importantes centros de pesquisa no continente, fundamentais para a leitura do desenvolvimento nacional entre as décadas de 1960 e 2000. Ela não apenas observou, mas também influenciou ativamente a forma como o país se entende e planeja seu futuro.
A dimensão humana de seu trabalho é destacada por Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania. Em entrevista ao programa Viva Maria, na Rádio Nacional, Pitanguy afirmou que Elza trouxe “ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”. Essa característica singular de Elza Berquó se manifestou em sua persistente defesa do acesso a métodos contraceptivos, do direito ao aborto seguro e dos direitos reprodutivos, sempre pautada pela conscientização e esclarecimento da população. Além disso, enfrentou com rigor questões críticas como a mortalidade infantil.
Nascida em Guaxupé, Minas Gerais, Elza Berquó trilhou um caminho acadêmico brilhante e pioneiro. Sua formação incluiu Matemática na Universidade Católica de Campinas, um mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949 e uma especialização em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos, no ano seguinte. Essa base sólida a preparou para os desafios complexos da demografia em um país em plena efervescência social e política.
Aos poucos, suas análises começaram a se destacar, como em 1965, quando examinou o desenvolvimento da população paulista com base nos censos de 1940 e 1950. Na época, atuando na Faculdade de Saúde Pública da USP, sua visão crítica e independente, no entanto, colidiria com o regime militar. Foi compulsoriamente aposentada em 1968, um período sombrio para a academia brasileira, mas que paradoxalmente impulsionou novos caminhos para sua atuação.
Pioneirismo acadêmico
A aposentadoria compulsória não freou seu ímpeto intelectual. Pelo contrário, em 1969, Elza Berquó esteve entre os fundadores do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), uma instituição que se tornou um bastião do pensamento crítico no Brasil. Ao lado de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, ela desafiou a tentativa da ditadura de silenciar as vozes pensantes do país, consolidando um espaço de produção de conhecimento livre e engajado.
Sua influência se estendeu à Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), onde ajudou a estabelecer um dos mais importantes núcleos de estudo da área. José Marcos Cunha, ex-coordenador do Núcleo de Estudos de População (Nepo-Unicamp), ressaltou a importância de Berquó para a demografia nacional: “Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área e abriu um flanco importante para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino”. O Nepo-Unicamp, inclusive, passou a levar seu nome desde 2014, um tributo vivo ao seu legado.
As celebrações de seu centenário, em outubro do ano passado, centralizadas no Nepo, foram uma justa homenagem à sua presença e ao seu legado duradouro. A atual coordenadora do Nepo, a cientista social, antropóloga e demógrafa Gláucia Marcondes, reflete sobre a partida: “Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível”. Essas palavras ressoam a magnitude de sua contribuição para a ciência e para as gerações futuras de pesquisadores.
A visão de Elza Berquó sobre a importância da demografia para as políticas públicas culminou na fundação da CNPD (Comissão Nacional de População e Desenvolvimento) em 1995, da qual foi a primeira presidente. Este órgão, vinculado ao governo federal, tem o papel crucial de assessorar decisões estratégicas no campo populacional, demonstrando sua capacidade de transitar entre a academia e a formulação de políticas que impactam diretamente a vida dos cidadãos.
Richarlls Martins, atual presidente da CNPD, enfatiza a relevância de sua fundadora: “Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”. A capacidade de Elza de enxergar as histórias e as vidas por trás dos frios dados estatísticos é uma marca registrada de sua abordagem humanitária.
Legado e o futuro
A abrangência de sua influência é atestada por Eduardo Rios Neto, acadêmico que colaborou com Elza na Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP). Ele a descreve como “a mãe da demografia brasileira”, destacando sua trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da própria ABEP, do Nepo e da CNPD. A rede de conhecimento e influência que Elza Berquó teceu é inigualável, formando a espinha dorsal da demografia no país.
Além de sua vasta produção acadêmica, Elza Berquó foi uma voz incessante na defesa dos direitos reprodutivos e da saúde da mulher, temas muitas vezes marginalizados ou tratados com preconceito. Ela pautou discussões essenciais sobre o controle de natalidade, o planejamento familiar e a necessidade de políticas públicas inclusivas que respeitassem a autonomia individual. Sua abordagem holística enxergava a demografia não apenas como um campo de números, mas como um espelho das desigualdades sociais e das urgências humanas.
Em um cenário contemporâneo de desafios persistentes na área da saúde pública e dos direitos sociais, o pensamento de Elza Berquó permanece de uma relevância inquestionável. Suas metodologias de análise e sua defesa intransigente de políticas baseadas em evidências continuam a ser pilares para a construção de um país mais equitativo. Ela demonstrou que a ciência pode e deve ser uma ferramenta poderosa para a transformação social, iluminando caminhos para o bem-estar coletivo.
As homenagens prestadas em seu centenário, em 2022, não celebraram apenas uma vida longa, mas uma existência plena de significado e impacto. Foi um momento de reconhecimento coletivo à mulher, à cientista e à ativista que, com sua inteligência e coragem, abriu caminhos para novas gerações de demógrafos e cientistas sociais. Seu legado inspira a continuar a busca por uma compreensão mais profunda das complexidades do Brasil e a lutar por uma sociedade mais justa.
A partida de Elza Berquó deixa uma lacuna imensa no cenário científico brasileiro, mas seu legado de rigor acadêmico, compromisso social e pioneirismo institucional permanece vivo. As sementes que plantou florescem nas instituições que ajudou a criar e nos muitos pesquisadores que formou e inspirou. Sua vida foi um testemunho do poder da ciência a serviço da humanidade, um farol para o entendimento e o avanço social. A demografia brasileira perde sua matriarca, mas ganha um modelo eterno de dedicação e engajamento.
Tags:
Mais Recentes
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.









