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23 de April de 2026

Estudo revela natureza estrutural da inflação de alimentos no Brasil

Marília
31/03/2026 18:46
Redacao
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O Brasil enfrenta um cenário complexo em relação à inflação, especialmente no setor alimentício. Um estudo recente, divulgado nesta terça-feira (31) pela <a href='https://www.actbr.org.br/' target='_blank' rel='noopener'>ACT Promoção da Saúde</a> em colaboração com a <a href='https://agenciabori.com.br/' target='_blank' rel='noopener'>Agência Bori</a>, lança luz sobre a profundidade desse fenômeno, classificando-o como estrutural. A pesquisa aponta que essa dinâmica tem impactado de forma desproporcional os produtos frescos, tornando-os mais caros em comparação com os alimentos ultraprocessados.

O levantamento foi conduzido pelo renomado economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela <a href='https://www.unicamp.br/' target='_blank' rel='noopener'>Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)</a>, trazendo uma análise aprofundada sobre as causas e consequências dessa escalada de preços. Suas descobertas desafiam a noção de que as variações nos custos dos alimentos seriam meramente sazonais ou conjunturais.

Palmieri Junior argumenta que a alta nos preços dos alimentos não pode ser atribuída exclusivamente a questões sazonais, como oscilações temporárias que se corrigem com a mudança de estação — exemplificado pela alta do tomate na entressafra. Tampouco se explica apenas por fatores conjunturais, variações decorrentes de eventos não recorrentes, como uma desvalorização súbita do câmbio, que duram por períodos limitados.

A classificação de “inflação estrutural” defendida pelo estudo implica que as pressões sobre os preços são permanentes. Elas não se resolvem espontaneamente, mas, ao contrário, exigem transformações profundas na organização econômica do país. Essa perspectiva sugere que as raízes do problema estão interligadas a um modelo de desenvolvimento com características históricas bem definidas.

"A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, é específica, porque está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro", afirma o pesquisador, sublinhando a necessidade de uma abordagem mais complexa para compreender e mitigar o problema.

A escalada dos preços e o poder de compra

Os números apresentados pelo estudo são contundentes e revelam uma discrepância alarmante: em um período de quase duas décadas, de junho de 2006 a dezembro de 2025, o custo da alimentação para o brasileiro disparou 302,6%, multiplicando-se por quatro. No mesmo intervalo, a inflação geral do país, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 186,6%.

Tal diferença significa que o encarecimento da comida superou em 62% a inflação oficial, impactando diretamente o orçamento das famílias e o poder de compra. Para ilustrar a singularidade do cenário brasileiro, Palmieri Junior compara com os Estados Unidos, onde, no mesmo período, o nível de preços dos alimentos ficou apenas cerca de 1,5% acima da inflação geral.

Um ponto crucial destacado pelo pesquisador é a resistência dos preços dos alimentos em recuar no Brasil após períodos de alta. "Aumentar é fácil, mas depois, em algum momento, cair um pouco, isso é muito difícil. Vi isso em relação a alguns outros países", observou ele em conversa com jornalistas durante a apresentação do estudo, evidenciando uma rigidez que agrava a situação.

Ao detalhar os grupos alimentícios que mais contribuíram para essa alta, a pesquisa revela que os maiores aumentos foram registrados em: tubérculos, raízes e legumes (359,5%), carnes (483,5%) e frutas (516,2%). Esses são, coincidentemente, os produtos que formam a base de uma alimentação saudável e equilibrada.

Essa elevação desproporcional dos preços dos alimentos <i>in natura</i> tem implicações diretas sobre as escolhas de consumo da população. O estudo demonstra que a perda do poder de compra é mais acentuada justamente nesses itens.

Ultraprocessados em vantagem

A pesquisa ilustra um cenário preocupante: "Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis", aponta o economista.

Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas experimentou uma queda de aproximadamente 31%, e para hortaliças e verduras, de 26,6%. Em contrapartida, para a compra de refrigerantes, houve um aumento de 23,6%; para embutidos como presunto, de 69%; e para mortadela, de 87,2%.

O economista Valter Palmieri Junior explica que o menor custo dos ultraprocessados está ligado à sua composição, que inclui aditivos industriais com menor oscilação de preço. Além disso, muitos desses produtos são resultado de cultivos de "monotonia", onde o solo é exaustivamente utilizado para poucos tipos de alimentos, diminuindo a resiliência produtiva e, paradoxalmente, barateando a matéria-prima industrial.

"Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, passam a ser transformados em milhares de produtos distintos por meio da adição de aditivos químicos", detalha Palmieri Junior. Essa realidade, segundo ele, direciona as escolhas dos consumidores.

"Você vai tendo uma mudança nos padrões de consumo a partir disso", conclui o professor, referindo-se ao menor efeito da inflação sobre os alimentos ultraprocessados, que acaba por impulsionar as pessoas a adquirir produtos menos saudáveis em detrimento dos <i>in natura</i>. Essa dinâmica é corroborada por pesquisas complementares, como um estudo recente do <a href='https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/estudo-aponta-fatores-que-impulsionam-consumo-de-alimentos-ultraprocessados-por-criancas' target='_blank' rel='noopener'>Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)</a> sobre os fatores que impulsionam o consumo de ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas.

O papel do modelo agroexportador

Um dos pilares que sustentam o aumento persistente dos preços no Brasil, conforme o estudo, é a sua inserção no comércio internacional e o predomínio do modelo agroexportador. Essa estrutura econômica tem um impacto direto na oferta e nos preços dos alimentos para o mercado interno.

O fato de o Brasil figurar entre os maiores exportadores de alimentos do mundo acarreta uma prioridade dos produtores em vender para outros países, recebendo o valor da produção em dólares, em vez de direcionar esses produtos para o consumo doméstico. Essa preferência por mercados externos reduz a oferta interna, pressionando os preços para cima.

Os dados do estudo são reveladores: na década de 2000, o país exportava cerca de 24,2 milhões de toneladas de alimentos e importava 14,2 milhões de toneladas. Em contraste, projeções para 2025 indicam que as exportações saltarão para impressionantes 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações permanecerão em um patamar relativamente baixo de 17,7 milhões de toneladas.

Essa balança comercial desequilibrada, com uma priorização massiva da exportação em detrimento do abastecimento interno, consolida o caráter estrutural da inflação de alimentos. Não se trata de uma flutuação pontual, mas de uma consequência direta de uma orientação econômica de longo prazo.

A análise de Palmieri Junior e das organizações ACT Promoção da Saúde e Agência Bori serve como um alerta para a complexidade do problema da inflação de alimentos no Brasil. As implicações vão além do aspecto econômico, tocando diretamente na saúde pública e na segurança alimentar da população brasileira, exigindo uma compreensão aprofundada para futuras intervenções.

Em suma, o estudo desvela que a inflação de alimentos no Brasil não é um fenômeno isolado ou passageiro, mas uma questão estrutural, intrinsecamente ligada ao modelo de desenvolvimento econômico e à política agroexportadora do país. O encarecimento desproporcional de produtos frescos e a acessibilidade facilitada de ultraprocessados redefinem os hábitos alimentares, gerando desafios significativos para a saúde e o bem-estar da população.

As descobertas enfatizam a necessidade de se considerar fatores além das flutuações de mercado ao abordar a questão do custo da alimentação. A compreensão do "porquê" e do "como" desses fatos, como detalhado nesta análise, é fundamental para o debate público e a busca por soluções que garantam uma alimentação mais justa e saudável para todos os brasileiros.

Para aprofundar-se nas interconexões entre fatores sociais e o consumo de alimentos processados, <a href='link_interno_sobre_ultraprocessados.html'>leia também nossa análise sobre como fatores sociais empurram famílias para ultraprocessados</a>. Confira outras notícias e estudos relevantes no portal da <a href='https://agenciabrasil.ebc.com.br/' target='_blank' rel='noopener'>Agência Brasil</a>.



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