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23 de April de 2026

A guerra no Oriente Médio expõe a insegurança energética do Brasil, alerta ex-chefe da Petrobras

Marília
28/03/2026 11:16
Redacao
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A escalada de tensões no Oriente Médio, impulsionada pela guerra no Irã e pela ameaça de fechamento do estratégico Estreito de Ormuz, reacende o debate sobre a segurança energética global e expõe vulnerabilidades estruturais do suprimento no Brasil. Essa é a avaliação do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, que, em seu recente lançamento literário “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”, alerta para as consequências da interrupção de projetos de ampliação do refino nacional, impactando diretamente a capacidade do país de lidar com choques externos.

Em um cenário de volatilidade geopolítica, a análise de Gabrielli, editada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), ressalta que o Brasil, apesar de ser um relevante produtor de petróleo, encontra-se em uma posição delicada. A dependência de importações de derivados, como o diesel, para atender à demanda interna, aliada à estagnação da capacidade de refino em decorrência de fatores como a Operação Lava Jato e pressões de multinacionais, coloca o país em uma rota de exposição significativa às turbulências do mercado mundial de energia.

O próprio Gabrielli destacou, em entrevista, que os Estados Unidos buscam intervir no mercado global de petróleo por meio de suas ações na Venezuela e no Irã. Segundo ele, essa estratégia visa a controlar cadeias de suprimento e, no caso venezuelano, há uma notável complementaridade entre o tipo de petróleo da Venezuela e as refinarias norte-americanas, que são altamente adaptadas para processá-lo. O mercado de petróleo, portanto, está em constante reconfiguração sob as forças geopolíticas atuais.

O novo choque

Gabrielli traça um paralelo com os grandes choques do petróleo de 1973 e 1979, prevendo que a crise atual desencadeará efeitos estruturais profundos, alterando a geografia da comercialização de petróleo e, de forma ainda mais acentuada, o mercado de gás. Segundo ele, os ataques a importantes fontes produtoras de gás em diversas partes do mundo intensificam essa mudança. No setor petrolífero, a transformação inicial pode ser mais suave, mas com impactos de longa duração, especialmente porque o Oriente Médio é palco da construção das maiores e mais modernas refinarias do globo.

A situação do Irã, segundo maior produtor do Oriente Médio, é particular. Submetido a sanções americanas, o país desenvolveu um mercado paralelo que tem a China como um de seus principais destinos. A guerra em curso, contudo, deve alterar significativamente esse fluxo de exportação. Além disso, a manobra iraniana de permitir a passagem pelo Estreito de Ormuz apenas para transações pagas em yuans, a moeda chinesa, desafia abertamente a hegemonia do dólar como moeda de referência no comércio internacional de petróleo, sinalizando uma dimensão mais ampla da crise geopolítica e econômica. (Confira também: <a href="#" target="_blank" rel="noopener">UE pede à ONU ação para permitir exportação de petróleo por Ormuz</a>)

Cenário de oferta

A dinâmica de suprimento global de petróleo está prestes a ser reconfigurada. Gabrielli aponta Brasil, Canadá e Guiana como países-chave para o aumento da oferta global, com uma projeção de 1,2 milhão de barris novos por dia até 2027. Essa nova capacidade, embora independente dos conflitos atuais, ganha relevância estratégica em um contexto de instabilidade, podendo suprir a demanda de nações como China e Índia, que possuem robusta capacidade de refino, mas não autossuficiência em matéria-prima.

O petróleo brasileiro, em particular, é considerado ideal para as grandes refinarias chinesas, enquanto o canadense se adapta melhor às refinarias de menor porte. Essa sinergia já posiciona o Brasil como o terceiro maior exportador de petróleo para a China, uma relação que, com as atuais mudanças, tende a se aprofundar. Notícias recentes, como a descoberta de petróleo em Marlim Sul, no pré-sal de Campos (<a href="#" target="_blank" rel="noopener">Petrobras descobre petróleo em Marlim Sul, no pré-sal de Campos</a>), evidenciam o potencial do país para intensificar essa oferta.

No entanto, a paradoxal posição brasileira como grande produtor e importador de derivados de petróleo é um ponto crítico. A interrupção dos investimentos em expansão do parque de refino, como exemplificado pelo projeto da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), é um legado que expõe o país. Sem a capacidade de processar seu próprio óleo bruto em escala suficiente para as necessidades internas, o Brasil permanece vulnerável às flutuações e choques de preço do mercado internacional, especialmente no que tange ao diesel, combustível essencial para a logística e economia nacionais.

Desafios internos

A presença de importadoras de combustíveis no Brasil, que operam sob a lógica de paridade de preços internacionais, amplifica o impacto das oscilações do barril de petróleo para o consumidor final. Essa estrutura, segundo Gabrielli, contribui para a insegurança energética, uma vez que o país não consegue amortecer os custos elevados com uma produção interna de derivados que seja autossuficiente ou minimamente competitiva em momentos de crise global. A dependência externa se mostra um entrave real à estabilidade econômica e social.

As consequências da guerra no Irã transcendem o curto prazo, afetando também a trajetória da transição energética. Em um momento em que a busca por fontes renováveis e alternativas, como o hidrogênio, é imperativa, a reconfiguração do mercado de combustíveis fósseis adiciona camadas de complexidade. A necessidade de garantir o suprimento imediato pode, paradoxalmente, retardar investimentos em longo prazo na descarbonização, apesar de a própria crise evidenciar a urgência de tal transição para um futuro mais sustentável.

O cenário global de energia, portanto, encontra-se em um ponto de inflexão. Para o Brasil, a lição é clara: a segurança energética não se resume apenas à capacidade de extração de petróleo, mas sim à infraestrutura completa que permita refinar, distribuir e consumir seus próprios derivados, blindando a economia de choques externos e assegurando um futuro energético mais estável e sustentável. As perspectivas de inflação, como as elevadas projeções da Fazenda (<a href="#" target="_blank" rel="noopener">Fazenda eleva projeção de inflação para 2026 com alta do petróleo</a>), reforçam a urgência de uma abordagem estratégica para a segurança energética nacional.



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