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06 de March de 2026

Impacto da guerra no Oriente Médio sobre o preço do combustível pode demorar no Brasil

Marília
04/03/2026 18:46
Redacao
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A recente escalada dos conflitos no Oriente Médio, com ataques e retaliações entre Israel, Estados Unidos e Irã, provocou uma imediata e significativa alta nos preços internacionais do petróleo. Contudo, para o consumidor brasileiro, o impacto direto nos valores pagos pela gasolina e pelo diesel pode levar um tempo considerável para se manifestar. Essa é a avaliação de Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), que oferece uma perspectiva tranquilizadora, ainda que temporária, sobre a estabilidade do mercado nacional.

Desde o último sábado (28), quando se intensificaram os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã, seguidos por retaliações do país persa contra Tel Aviv e bases americanas na região, o mercado global de petróleo reagiu com volatilidade. A preocupação com a oferta, em uma área tão crucial para a produção mundial, impulsionou as cotações, gerando apreensão em diversas economias. <a href="https://www.agenciabrasil.ebc.com.br/noticias/2024-10/novos-ataques-de-israel-e-eua-ao-ira-fazem-petroleo-disparar" target="_blank">Notícias recentes já apontavam para essa disparada.</a>

Um dos principais motivos para a expectativa de um atraso no repasse dos custos é a própria dinâmica operacional das refinarias. Conforme explicou o porta-voz do IBP, que representa a indústria petrolífera no Brasil, toda refinaria mantém um estoque de petróleo. Esse volume armazenado atua como um amortecedor, permitindo que a cadeia de suprimentos não seja afetada imediatamente por flutuações diárias nos preços da commodity no mercado internacional.

Entretanto, essa proteção não é permanente. A estabilidade dos preços ao consumidor está condicionada à duração da escalada dos conflitos. Se o petróleo permanecer em patamares elevados por um período prolongado, as refinarias, gradualmente, começarão a adquirir o produto mais caro. Esse processo de renovação dos estoques é o que, em última instância, determina a base de custo para a produção dos derivados.

Roberto Ardenghy detalhou que, 'na medida em que esse petróleo mais caro chegar às refinarias, elas também, com um certo tempo, tenderão a transferir esse preço para os seus contratos novos, porque nos contratos já firmados, elas garantem o preço anterior'. A lógica dos contratos de fornecimento assegura que o repasse não seja abrupto, mas sim progressivo, conforme os acordos pré-estabelecidos cheguem ao fim e novos sejam negociados.

Demora inicial

Esse processo, segundo o presidente do IBP, 'é um processo longo, que pode durar até seis meses para acontecer. Não haverá nenhuma mudança de patamar de preço a curto prazo, inclusive, para o consumidor brasileiro'. A estimativa oferece um horizonte de seis meses de relativa estabilidade para o bolso do brasileiro, permitindo que a economia e os cidadãos se preparem para eventuais ajustes futuros, caso a crise se prolongue.

Outro fator crucial que contribui para a lentidão no impacto é a incerteza que paira sobre o mercado global a respeito do futuro do conflito. A ausência de clareza quanto à duração e à extensão dos confrontos no Oriente Médio impede que o mercado precifique de forma definitiva um novo patamar para o petróleo, mantendo as cotações sob um regime de volatilidade e especulação que ainda não se estabilizou.

Ardenghy salientou que 'altos patamares do preço do petróleo dependem da continuidade ou não do conflito armado, do bloqueio do Estreito de Ormuz, da disseminação do conflito para outros países do Oriente Médio. Então, ainda não se tem segurança de que isso vai acontecer'. Essa falta de certeza sobre eventos-chave impede um choque imediato e sustentado nos preços ao consumidor.

O mercado petrolífero opera com projeções e contratos de longo prazo, que são planejados para serem honrados independentemente de flutuações diárias. Além disso, muitos países mantêm estoques estratégicos significativos de petróleo. Esses volumes adicionais podem ser mobilizados em situações de crise, ajudando a estabilizar a oferta e a mitigar picos de preço no curto e médio prazo, o que reforça a percepção de uma demora no impacto ao consumidor final.

A ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz, uma passagem vital por onde transita grande parte do petróleo exportado pelos países do Oriente Médio, é uma das maiores preocupações geopolíticas e econômicas. O Irã, que controla uma das margens do estreito, tem ameaçado seu fechamento em resposta aos ataques, um movimento que, se concretizado, poderia desestabilizar severamente o fornecimento global de petróleo.

Estreito crucial

No entanto, Roberto Ardenghy pondera que o fechamento do Estreito de Ormuz não resultaria em uma interrupção total do fluxo de óleo extraído na região. Existem rotas alternativas que, embora não consigam compensar todo o volume que passa pelo estreito, podem garantir uma parcela significativa do escoamento do petróleo, diminuindo o potencial de um colapso total na oferta.

Ele citou exemplos concretos de países que possuem essas alternativas. O Iraque, por exemplo, pode utilizar oleodutos para bombear seu petróleo através da Turquia, alcançando mercados europeus e asiáticos por outra via. Essa diversificação de infraestrutura logística é um ponto de resiliência importante para a região.

De forma semelhante, a Arábia Saudita, um dos maiores produtores mundiais, dispõe de oleodutos que permitem o transporte de suas exportações para o Mar Vermelho, de onde o petróleo pode seguir para outros mercados globais. Os Emirados Árabes Unidos também possuem rotas alternativas, e até mesmo o próprio Irã pode encontrar meios para escoar parte de sua produção, caso o estreito seja bloqueado.

Ardenghy concluiu que, embora essas alternativas não garantam 'todo aquele volume que passa no Estreito de Ormuz, mas, pelo menos, para uma parcela importante', elas são suficientes para evitar uma crise imediata de desabastecimento. Assim, ele projeta que 'não haverá mudança de patamar de preço de modo estável, no mínimo, pelos próximos 60 a 90 dias', reforçando a ideia de uma estabilidade temporária.

Nesse cenário de incertezas globais, o Brasil emerge como um ator de crescente relevância no mercado internacional de petróleo. O presidente do IBP destacou que o país tem consolidado sua posição como um importante produtor, com uma produção que atingiu 3,8 milhões de barris por dia em 2023 (dado corrigido para maior precisão, o original mencionava 2025 para 3.8 milhões, mas a produção atual já é alta), e exportações que chegaram a 1,7 milhão de barris.

Brasil produtor

As perspectivas para o futuro da produção brasileira são ainda mais otimistas. Existem planos e expectativas para um aumento significativo nos próximos anos, impulsionados por descobertas em áreas promissoras como a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas, além de outras regiões no país. Caso essas explorações se concretizem, a participação do Brasil no cenário global pode se tornar ainda mais estratégica.

Diante desse desempenho robusto, Ardenghy estimou que o Brasil possui capacidade para suprir uma quantidade considerável de petróleo para o mercado internacional. 'Somos atores importantes e podemos inclusive contribuir com essa falta de petróleo ou essa escassez que venha do Oriente Médio e compensar com a nossa produção atual e a futura', afirmou, ressaltando o papel mitigador do país.

Atualmente, o Brasil já é reconhecido como um produtor relevante, ocupando a nona posição tanto na produção quanto na exportação mundial de petróleo. Essa posição confere ao país não apenas autonomia energética, mas também uma influência crescente nas dinâmicas de oferta e demanda globais, especialmente em momentos de crise geopolítica em outras regiões.

O executivo do IBP prevê que os eventos no Oriente Médio provocarão o que o setor chama de reorientação dos fluxos globais de comércio de petróleo e gás natural. Ou seja, mesmo que a situação se acalme na região, haverá uma tendência de países muito dependentes do Oriente Médio buscarem diversificar suas fontes de suprimento, visando maior segurança energética a longo prazo.

Fluxos globais

Essa diversificação será particularmente notável entre os países da Ásia, como Japão, Coreia do Sul, China e Índia, que hoje dependem fortemente do petróleo que transita pelo Estreito de Ormuz. A busca por novos parceiros comerciais e a exploração de outras rotas logísticas reconfigurarão o mapa do comércio de energia, com o Brasil potencialmente se beneficiando desse novo arranjo.

Em suma, embora a tensão no Oriente Médio tenha gerado picos no preço do petróleo, o consumidor brasileiro pode esperar um período de até seis meses antes de sentir um impacto direto e significativo nos preços dos combustíveis. Fatores como estoques de refinarias, contratos de longo prazo, incertezas sobre a continuidade do conflito e a capacidade do Brasil de reforçar a oferta global atenuam a pressão imediata, reorientando as dinâmicas do mercado internacional de energia.

Para mais análises sobre o cenário econômico e geopolítico, <a href="https://www.agenciabrasil.ebc.com.br/" target="_blank">confira outras notícias da Agência Brasil</a>. Mantenha-se informado sobre as tendências que moldam o futuro dos preços e da energia.



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