Carregando...
02 de November de 2026

Economista do Plano Real aponta juros altos como causa do desequilíbrio fiscal

Marília
02/11/2026 18:45
Redacao

O Brasil vive um intenso debate econômico sobre as origens e soluções para o desequilíbrio fiscal, uma discussão que ganha novas camadas com a voz de um dos arquitetos do Plano Real. Em um artigo recente, o professor André Lara Resende tem provocado amplas discussões ao acusar veementemente o Banco Central (BC) de ser o principal causador do rombo nas contas públicas do país, ao sustentar taxas de juros elevadas.

A posição de Lara Resende, um nome de peso na economia brasileira, contrasta drasticamente com a narrativa predominante no mercado financeiro e na grande imprensa, que frequentemente aponta o gasto primário como o grande vilão. Essa divergência lança luz sobre as diferentes abordagens para entender e resolver os desafios macroeconômicos do país, colocando em xeque as justificativas para a atual política monetária.

A crítica de um especialista

Com formação pela PUC do Rio de Janeiro e PhD em economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, além de vasta experiência em instituições financeiras brasileiras, André Lara Resende não hesita em sua análise. O economista defende que a manutenção da taxa Selic em patamares elevados – que, segundo ranking da Moneyou, coloca o Brasil com a taxa de juros real mais alta do mundo – é um erro estratégico, baseado em uma teoria econômica anacrônica.

Sua acusação é direta: “Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater.” Essa afirmação não apenas confronta a autoridade monetária, mas também questiona a cobertura jornalística e a análise de mercado. “Acuso a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros. Acuso os analistas do mercado financeiro de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica,” disparou Lara Resende em seu artigo.

O especialista amplia suas críticas a todos que, cientes dos impactos negativos de juros 'absurdos', optam pelo conforto do consenso em detrimento da verdade. Publicado às vésperas do primeiro turno eleitoral, o texto de Lara Resende busca desmistificar a ideia de que o aumento das despesas públicas, e não o custo da dívida, seria o principal motor do déficit.

Dívida pública e gastos essenciais

Tradicionalmente, o Banco Central justifica a manutenção de juros elevados como uma ferramenta indispensável para conter as pressões inflacionárias e, indiretamente, o déficit fiscal primário. A autoridade monetária argumenta que gastos primários superiores à arrecadação aquecem a economia e o mercado de trabalho, impactando a inflação e forçando a elevação da Selic para reverter esse cenário.

No entanto, André Lara Resende apresenta uma perspectiva distinta sobre a composição do déficit público brasileiro. Embora reconheça que o país enfrenta desafios na qualidade do gasto, citando exemplos como emendas parlamentares e isenções tributárias, ele ressalta que o déficit fiscal primário do Brasil é, na verdade, pequeno quando comparado a outros países.

“Quando se exclui o serviço da dívida, as contas estão praticamente equilibradas. A grande despesa do Estado é com os juros sobre a dívida”, pontuou o economista. Esta análise inverte a lógica comum, sugerindo que o problema reside menos na insuficiência de receitas ou no excesso de gastos com serviços públicos e mais no custo exorbitante de carregar a dívida pública, que saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022 para cerca de 82,9% em agosto de 2026.

O peso dos juros

Apesar de concordar que o crescimento da dívida pública é insustentável no longo prazo, Lara Resende defende que a solução não passa necessariamente pelo corte de despesas primárias, que costumam afetar diretamente políticas sociais e serviços essenciais. Ele destaca que, exceto pelo período da pandemia de covid-19, o resultado primário foi apenas ligeiramente negativo, enquanto o déficit nominal, impulsionado pelos juros, manteve-se consistentemente alto, aproximando-se de 10% do PIB.

Para o economista, a obsessão com o equilíbrio das contas públicas, desassociada de uma análise profunda sobre seus componentes, é contraproducente. Em seu artigo, ele afirma que “o equilíbrio das contas públicas não é uma condição necessária e nem suficiente para o bom funcionamento da política econômica”, sugerindo que uma abordagem mais holística é crucial para a estabilidade e o desenvolvimento do país.

Perspectivas futuras e o custo da inércia

A centralidade dos juros no debate fiscal é reforçada pelos números apresentados por Lara Resende. Nos últimos 12 meses, os gastos com juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão do orçamento nacional, o equivalente a 8,9% do PIB. Diante desse cenário, o economista conclui que a redução da taxa de juros não é apenas uma medida desejável, mas a solução mais direta e eficaz para o desequilíbrio fiscal brasileiro.

A complexa relação entre juros e inflação é um ponto chave na argumentação do Banco Central. Comunicados do Comitê de Política Monetária (Copom) frequentemente citam o aquecimento da economia, o mercado de trabalho e a trajetória dos gastos públicos como fatores que exigem uma Selic elevada para controlar a inflação. A ata mais recente do Copom chega a afirmar que “o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros”.

André Lara Resende, contudo, desafia a premissa de que o BC não possui alternativas para controlar a inflação além dos juros elevados. Ele questiona a validade de modelos que sugerem uma relação inversa entre desemprego e inflação, indicando que o aumento do desemprego – um efeito colateral dos juros altos – não necessariamente resulta em queda inflacionária no contexto atual do Brasil. Sua tese aponta para a "fragilidade conceitual e empírica" de modelos macroeconômicos defendidos pelo BC.

Para o especialista, “a economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica.” A mensagem é um chamado à reflexão sobre paradigmas econômicos e a busca por novas regras para as despesas e os juros no país, visando uma política econômica mais racional e sustentável.

A discussão levantada por André Lara Resende sublinha a urgência de um debate aprofundado sobre a política monetária brasileira e seus impactos. A compreensão das diferentes perspectivas é fundamental para formular estratégias que promovam o crescimento econômico e a estabilidade fiscal, sem comprometer o bem-estar social.

Para aprofundar-se no tema e em outras análises sobre a economia nacional, <a href="/link-para-artigos-relacionados-1">leia também</a> a discussão sobre as críticas ao corte de gastos para conter a dívida pública e os impactos de programas sociais abrangentes na redução da fome e pobreza. <a href="/link-para-artigos-relacionados-2">Confira outras notícias</a> e análises que moldam o cenário econômico brasileiro.



Compartilhe esse post:


Top

Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.