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23 de April de 2026

Petrobras destitui diretor após leilão de gás de cozinha com ágio recorde

Marília
07/04/2026 11:16
Redacao
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A Petrobras anunciou, na noite da última segunda-feira (6), a destituição de Claudio Romeo Schlosser do cargo de diretor executivo de Logística, Comercialização e Mercados. A decisão do Conselho de Administração da estatal de petróleo surge na esteira de um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), popularmente conhecido como gás de cozinha, que gerou controvérsia ao ser vendido com um ágio superior a 100%.

O certame, realizado na última terça-feira (31) e sob a alçada da diretoria comandada por Schlosser, viu o combustível ser negociado com distribuidoras por mais que o dobro do preço de tabela. Esse aumento expressivo no valor do GLP, um item essencial para milhões de famílias brasileiras e também utilizado como combustível em diversas indústrias, rapidamente atraiu a atenção e críticas de setores variados da sociedade e do governo.

Apenas dois dias após o leilão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou seu descontentamento publicamente, classificando a operação como “cretinice, bandidagem” e sinalizando a intenção do governo de anular a venda. A crítica do presidente sublinhou um desalinhamento entre a ação da empresa e as diretrizes governamentais de contenção dos preços dos derivados de petróleo, essenciais para o dia a dia da população.

“As pessoas sabiam da orientação do governo, da orientação da Petrobras de não aumentar o GLP. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras”, declarou Lula, na ocasião, durante uma entrevista à TV Record Bahia, evidenciando a percepção de que a decisão ia contra a própria política interna da companhia e as expectativas da gestão federal para a estabilidade econômica.

Em resposta à repercussão e às suspeitas de práticas de preços abusivos, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador do setor e vinculado ao Ministério de Minas e Energia (MME), prontamente iniciou uma fiscalização em refinarias da Petrobras. O objetivo era apurar indícios de ágios elevados e garantir a conformidade com as regras do mercado, protegendo os consumidores de distorções.

Cenário desafiador

A polêmica do leilão ocorreu em um contexto de significativa escalada internacional dos preços do petróleo e seus derivados. A guerra no Irã tem sido um fator crucial, provocando distúrbios na cadeia produtiva global da matéria-prima e gerando temores de escassez, o que impacta diretamente os custos de combustíveis como o GLP, diesel e gasolina em mercados globais e, por consequência, no Brasil.

Diante desse cenário volátil e da pressão inflacionária, o governo federal vinha estudando e implementando medidas para mitigar os efeitos da alta dos preços do petróleo sobre a economia e, principalmente, sobre o poder de compra da população. A destituição do diretor da Petrobras coincidiu com o anúncio de novas ações, incluindo a zeragem de impostos e a concessão de subsídios para o diesel e o gás de cozinha, visando aliviar o peso no bolso dos consumidores.

A diretoria de Logística, Comercialização e Mercados, anteriormente ocupada por Schlosser, é uma das oito diretorias sob a presidência de Magda Chambriard. Essa área é estratégica, pois suas atribuições incluem definir para quem e por qual preço a Petrobras vende seus vastos produtos, influenciando diretamente a dinâmica do mercado de combustíveis no país, desde grandes indústrias até o consumidor final.

Com a saída de Schlosser, a estatal prontamente anunciou a nova composição da diretoria. Angélica Laureano, que até então ocupava a diretoria executiva de Transição Energética e Sustentabilidade, assume a responsabilidade pela diretoria de Logística, Comercialização e Mercados. Enquanto isso, William França, diretor executivo de Processos Industriais e Produtos, acumulará temporariamente as funções que eram de Laureano, garantindo a continuidade das operações sem interrupções.

Claudio Schlosser, engenheiro químico e advogado, tem uma longa trajetória na Petrobras, onde ingressou em 1987 como engenheiro de processamento de petróleo. Ele ocupava a diretoria de Logística, Comercialização e Mercados desde março de 2023, período em que a companhia era presidida pelo antecessor de Magda Chambriard, Jean Paul Prates, indicando uma gestão que atravessou diferentes momentos e desafios da empresa.

Mudanças na liderança

Além das alterações na diretoria executiva, a Petrobras também comunicou mudanças na presidência de seu Conselho de Administração. Marcelo Weick Pogliese foi eleito para liderar o colegiado, de forma interina, até a próxima assembleia-geral de acionistas, prevista para ocorrer nos próximos dez dias. Essa movimentação segue a renúncia de Bruno Moretti na última terça-feira (31), que abriu a vaga.

Bruno Moretti deixou o cargo para assumir uma nova posição no Ministério do Planejamento e Orçamento, em substituição a Simone Tebet, que deve concorrer ao Senado pelo estado de São Paulo. A realocação de quadros entre a estatal e o governo reflete a intensa relação entre a administração pública e a maior empresa do país, muitas vezes com nomes transitando entre as esferas.

O Conselho de Administração da Petrobras é o órgão de orientação e direção superior da companhia, com a crucial responsabilidade de definir suas estratégias e rumos de longo prazo. Composto por sete a 11 membros eleitos pelos acionistas, o colegiado inclui a própria presidente da Petrobras, Magda Chambriard, o que reforça a importância da coordenação entre a alta gestão e a governança estratégica para a empresa.

Como acionista controlador da Petrobras, o governo tem a prerrogativa de indicar o presidente do conselho, exercendo sua influência na definição dos caminhos da estatal. Nesse sentido, a empresa informou ter recebido, também na segunda-feira, a indicação do nome de Guilherme Santos Mello, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, para ocupar definitivamente o posto de presidente do Conselho de Administração.

Em um comunicado ao mercado, a Petrobras esclareceu que a indicação de Mello “será submetida à análise dos requisitos legais de gestão e integridade pertinentes”, um processo padrão para garantir a idoneidade e a qualificação dos futuros membros da alta cúpula da companhia, reforçando a transparência e a conformidade regulatória exigidas para cargos de tamanha relevância.

Novo indicado

Guilherme Santos Mello apresenta um robusto currículo acadêmico e profissional, com doutorado em ciência econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestrado em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduações em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e Ciências Econômicas pela PUC-SP. Sua formação multidisciplinar o qualifica para os desafios do cargo.

Atualmente professor licenciado do Instituto de Economia da Unicamp (IE-Unicamp), onde também coordena o programa de pós-graduação em desenvolvimento econômico, Mello já possui experiência em conselhos de administração de empresas públicas. Ele é presidente do conselho de administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e integrante de outros conselhos de administração, o que lhe confere familiaridade com a governança de grandes corporações estatais e o cenário econômico nacional.

A destituição de um diretor em meio a um leilão polêmico e as subsequentes mudanças na cúpula da Petrobras e do Conselho de Administração sinalizam um período de reajustes e realinhamentos estratégicos na estatal. As ações do governo refletem uma clara preocupação com a estabilidade dos preços dos combustíveis no mercado interno e o alinhamento da empresa às políticas públicas de desenvolvimento e bem-estar social, buscando um equilíbrio entre a rentabilidade da companhia e o impacto sobre a vida dos cidadãos brasileiros.

Para aprofundar-se nas discussões sobre o mercado de combustíveis e as políticas energéticas do Brasil, leia também: <a href="/link-interno-lula-leilao-petrobras" target="_blank" rel="noopener">Lula quer anular leilão da Petrobras por vender gás acima da tabela</a> e <a href="/link-interno-margem-gas-cozinha" target="_blank" rel="noopener">Petrobras: margem alta explica interesse na venda do gás de cozinha</a>. Confira outras notícias e análises sobre o setor de energia em nosso portal e visite o site da <a href="https://www.gov.br/anp" target="_blank" rel="noopener">Agência Nacional do Petróleo (ANP)</a> para mais informações regulatórias.



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