Inspiração paterna na profissão de agente funerário: humildade e acolhimento
O momento final da despedida de uma pessoa querida é um dos mais delicados e dolorosos na vida de qualquer família. Em meio à profunda dor do luto, a atuação dos agentes funerários emerge como um pilar fundamental, oferecendo apoio no preparo e no cuidado, transformando um instante de angústia em um espaço de acolhimento e dignidade para a última homenagem. A relevância dessa profissão, muitas vezes silenciosa, ressoa em histórias de dedicação e empatia que transcendem o mero cumprimento de um dever.
Em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, uma narrativa particular destaca-se pela força das memórias e pelo profundo respeito a um legado familiar. Fabiana de Jesus Santos, hoje com 47 anos, não apenas seguiu os passos de seu pai, Eron José dos Santos, na profissão de agente funerário, como transformou os ensinamentos paternos em um verdadeiro guia para sua própria jornada. Com mais de duas décadas de experiência, Fabiana atua na mesma empresa onde seu pai dedicou toda a vida, a Funerária Athia, perpetuando uma tradição de cuidado e sensibilidade.
Um legado de dedicação
A infância de Fabiana foi intrinsecamente ligada ao ambiente da funerária. Morando nos fundos da empresa, o local de trabalho do pai era também o quintal de suas brincadeiras. “Eu saía do fundo de casa, entrava e ficava olhando o pai trabalhar”, recorda Fabiana, em entrevista concedida ao g1. Desde os oito anos, o contato com o universo fúnebre era uma realidade, e longe de gerar medo, despertava curiosidade e um senso precoce de pertencimento.
Eron José dos Santos, um homem sem formação acadêmica formal, compensava a ausência de estudos com uma inteligência emocional notável e uma sabedoria prática inquestionável. Para ele, a profissão de agente funerário demandava, acima de tudo, humildade. “Para preparar os falecidos, tinha que ter muita humildade, porque você está lidando com entes queridos de outras pessoas”, ensinava Eron, transmitindo à filha o cerne de uma filosofia de trabalho.
Fabiana, ainda criança, não apenas observava, mas participava ativamente, auxiliando o pai em pequenos gestos simbólicos, como o de acrescentar flores de palma aos caixões. “A palma era grande, verde embaixo e as florezinhas em cima. Ele falava assim: ‘Filha, já que você quer ajudar, quebra as palmas’. Eu quebrava e colocava. Nunca tive medo”, conta, revelando a naturalidade com que abraçou um ofício que afasta muitos.
Essa ausência de temor distinguiu Fabiana dos demais membros da família. Enquanto primas e até o irmão mais velho evitavam o “carro preto” e tinham receio de entrar na casa que dividia espaço com a funerária, Fabiana sentia-se à vontade. Eron, com sua sabedoria peculiar, reforçava: “Os mortos não fazem nada para ninguém, a gente tem que ter medo dos vivos”, uma lição que reverberou na formação de Fabiana e moldou sua perspectiva sobre a vida e a morte.
O valor do acolhimento
A dedicação de Eron à sua profissão era tão palpável que seu nome se tornou sinônimo de confiança e conforto para muitas famílias enlutadas em Presidente Prudente. Não era raro que as pessoas o procurassem especificamente para os preparativos dos velórios, pois ele já havia cuidado de outros entes queridos, como avós, pais e tios, estabelecendo um vínculo de respeito e sensibilidade que ia além do serviço prestado.
“Meu pai dizia que esse é o momento mais doloroso que tem. Se a gente, que é agente funerário, não se sensibiliza, não faz o nosso trabalho bem feito”, relembra Fabiana, emocionada, sobre a profundidade da visão de seu pai. Essa máxima é um testemunho do elevado padrão de empatia e profissionalismo que Eron impunha a si mesmo e que, consequentemente, ensinou à sua filha.
Apesar da resiliência e do compromisso, havia momentos de extrema dificuldade para Eron. Fabiana recorda o pesar do pai ao lidar com a morte de crianças. “Ele não gostava de preparar criança. Sempre emotivo, ele chegava em casa e falava: ‘Hoje eu mexi com um anjinho e eu não gosto, porque me dói muito'”, revelando a humanidade por trás da fachada profissional e a sensibilidade que o tornava tão especial para as famílias.
A trajetória profissional de Fabiana
Os ensinamentos de Eron José dos Santos transcenderam sua própria vida. Em 2014, aos 75 anos, Eron faleceu, mas seu legado permaneceu vivo na memória e nas ações de Fabiana. Curiosamente, a filha ingressou na Funerária Athia em 2003, um ano após a aposentadoria do pai em 2002, assumindo a área de atendimento ao público, onde permanece até hoje, dedicando-se a ser o primeiro contato das famílias em luto.
“Eu gosto muito do que eu faço. Porque, quando o cliente liga, na verdade, o primeiro atendimento é ali com a gente. E, se o cliente está ligando, é porque ele precisa de um acolhimento”, explica Fabiana, sublinhando a importância da escuta ativa e da empatia em sua função. É nesse primeiro contato, muitas vezes permeado pela urgência e pelo desespero, que Fabiana aplica os princípios de humildade e acolhimento herdados do pai.
A pandemia global de Covid-19, entre 2020 e 2021, representou um dos períodos mais desafiadores e marcantes de sua carreira. Fabiana testemunhou a dor em sua forma mais concentrada e repetitiva. “O povo ligava e dizia: ‘Perdi minha mãe’. No outro dia: ‘Perdi meu pai’… da mesma família”, descreve, ilustrando a intensidade do sofrimento que precisou acolher e processar diariamente. [Link interno: Jovem quebra tabu e se torna única mulher na área operacional de funerária em Presidente Prudente]
Mais que uma profissão
Esse período de luto massivo e contínuo aprofundou ainda mais sua compreensão sobre a essência de seu trabalho. “Esse foi um marco importante, que é aí que você aprende muito mais sobre acolher, sobre humildade. Por isso que eu falo: a gente tem que gostar do que faz, e o meu pai gostava muito”, reflete Fabiana, conectando sua experiência pessoal à sabedoria transmitida por Eron.
A profissão de agente funerário vai muito além das formalidades burocráticas e dos procedimentos técnicos. Ela toca o âmago da experiência humana da perda, exigindo dos profissionais uma capacidade ímpar de lidar com a dor alheia, de oferecer suporte e de garantir que o rito de passagem seja conduzido com o máximo respeito e dignidade. Fabiana de Jesus Santos personifica essa vocação, honrando a memória do pai ao transformar a humildade em um pilar de sua atuação diária.
No Dia do Agente Funerário, celebrado em 17 de outubro, a história de Fabiana e Eron ressoa como um lembrete da importância desses profissionais que, com discrição e sensibilidade, amparam as famílias nos momentos mais vulneráveis. É uma homenagem àqueles que, como Eron e Fabiana, compreendem que seu ofício é, antes de tudo, um ato de serviço humano, um elo entre a memória e o presente, e um farol de acolhimento em meio à escuridão da despedida.
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