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28 de June de 2026

A arte de tecer: drag crocheteira do interior de São Paulo

Presidente Prudente
28/06/2026 08:30
Redacao
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No palco vibrante da expressão artística drag, a criatividade e a originalidade dos figurinos são elementos fundamentais que capturam a atenção e definem a persona. Em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, Victor Hugo de Souza Santos, de 35 anos, transcende o convencional ao assumir a identidade da drag queen Dooda Wesker. Sua peculiaridade e maestria residem na confecção artesanal de seus próprios looks, utilizando uma técnica ancestral que 'herdou' da família materna: o crochê. Essa fusão de arte milenar e performance contemporânea não apenas o destaca, mas também confere um significado profundo e pessoal a cada peça.

O termo drag queen, originário do inglês 'to drag' – arrastar –, historicamente remete às longas vestimentas femininas que se arrastavam pelos palcos, simbolizando uma forma de expressão artística rica em maquiagem, figurinos elaborados e trejeitos performáticos. Para Victor Hugo, essa arte se entrelaça com suas raízes, transformando cada ponto e cada linha em uma extensão de sua própria história e identidade. Sua jornada como drag crocheteira reflete não só um talento inato, mas também uma narrativa de resiliência e autoafirmação.

Raízes familiares

A paixão pelo artesanato no universo de Victor Hugo tem suas origens em uma linhagem feminina, que cultivou e transmitiu o dom do fazer manual através das gerações. 'Minha bisavó fazia rendas de bilro e minha avó materna bordava, costurava para fora e fazia bordados também, ponto-cruz', recorda Victor Hugo, ou Dooda Wesker, ao g1. As férias escolares passadas na casa da avó eram preenchidas pela observação atenta, um período de imersão nos saberes que moldariam seu futuro artístico. Aos 17 anos, um amigurumi — pequenas esculturas de crochê — feito por sua mãe despertou um encanto irresistível, impulsionando-o a pedir que ela o ensinasse.

Desde então, a confecção de pelúcias de crochê, incentivada pela mãe, tornou-se uma prática constante na vida de Victor. O gosto pelo vestuário, contudo, começou a florescer, culminando em uma ideia inovadora quando a drag Dooda Wesker nasceu: 'Eu queria mesclar as duas áreas'. A união do crochê com a arte drag não só estabeleceu sua marca, mas também resgatou e honrou a herança familiar, tecendo novas narrativas com fios que carregam a memória e a tradição de suas ancestrais.

Ampliando horizontes

Além de um passatempo, o crochê se consolidou como uma fonte de renda extra para Victor Hugo, que divide seu tempo entre a arte e o trabalho como operador de caixa em uma loja. 'Nesses intervalos em que eu não estou no trabalho, eu pego os crochês para fazer', explica. A dedicação e o tempo investidos na produção revelam a complexidade e o valor de cada peça: enquanto um amigurumi pode levar de três a quatro horas em um dia livre, a rotina de trabalho estende o prazo para até 15 dias. Os figurinos para as performances de Dooda Wesker, mais elaborados, demandam entre 20 e 30 dias de confecção, evidenciando o rigor e o cuidado artístico envolvidos.

A drag crocheteira percebeu no ambiente digital uma plataforma potente para impulsionar seu trabalho e sua visibilidade, unindo de forma harmoniosa suas duas paixões. 'Comecei a postar os meus crochês e mostrar como é viver de artesanato no interior de SP, se a gente tem dificuldade da aceitação da família', detalha Victor Hugo. A persona drag se tornou uma ponte para essa divulgação: 'A drag me proporcionou ter essa visibilidade, porque agora eu uso mais a questão do artesanato para drag do que para eventos'. As redes sociais de Victor são o palco onde suas criações ganham vida e alcançam um público mais amplo.

Reconhecimento artístico

A jornada de Dooda Wesker começou em 2017, motivada por um convite desafiador de um amigo que trabalhava em uma casa noturna. 'Achei loucura, um desafio grande, e topei', relata. Essa decisão foi o ponto de partida para a imersão no universo drag, onde a observação das performances e figurinos locais serviu de inspiração e aprendizado. A partir dessa experiência, Victor Hugo consolidou sua identidade artística, combinando o dom do crochê com a teatralidade da drag queen. <a href="[LINK INTERNO SOBRE HISTÓRIA DRAG]">Leia também sobre a história da arte drag.</a>

Em um marco significativo, Victor Hugo foi convidado pelo Sesc Guarulhos (SP) para compartilhar sua experiência no Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em junho, em um bate-papo com pessoas acima de 50 anos. A oportunidade de discutir o artesanato e a vida como drag crocheteira foi um momento de grande gratificação. 'Hoje, o pessoal me conhece como a drag queen crocheteira. E essa visibilidade, esse reconhecimento me faz querer continuar ainda mais', celebra. O evento, que inicialmente teria um roteiro pré-definido, transformou-se em uma interação fluida com a plateia, que se engajou com perguntas e demonstrações de interesse. <a href="[LINK EXTERNO SOBRE EVENTOS SESC]">Saiba mais sobre a programação do Sesc.</a>

Apoio familiar

Natural de Mirante do Paranapanema, cidade no extremo oeste paulista com aproximadamente 16 mil habitantes, Victor Hugo é o caçula de três filhos. Sua trajetória, marcada pela singularidade de sua expressão artística, foi pavimentada por um alicerce familiar sólido. 'Graças a Deus tive e tenho uma família muito apoiadora, que, em todas as minhas opiniões, todas as minhas decisões, me incentivou', afirma o artesão.

Apesar do apoio incondicional, houve um momento de apreensão para Victor Hugo, especialmente em relação à reação de seu pai, um policial militar. O receio de que sua orientação sexual e sua identidade como drag queen pudessem gerar oposição foi superado por um diálogo franco. 'Pensei: 'Será que eu conto? Qual vai ser a reação dele?'', lembra Victor. A decisão de compartilhar sua verdade, tomada em conjunto com a mãe, revelou um pai acolhedor: 'Ele [o pai] falou: 'Tudo bem, você é meu filho, te amo do mesmo jeito, você vai ter o meu total apoio. Só não quero você fazendo coisas erradas''. Esse acolhimento, um privilégio nem sempre compartilhado por muitos na comunidade LGBTQIAPN+, representou um alívio imenso e uma base de segurança para Victor Hugo em sua plena expressão.

A história de Victor Hugo de Souza Santos, a drag crocheteira Dooda Wesker, é um testemunho da força da arte como forma de expressão e da importância do apoio familiar na construção da identidade. Suas criações em crochê não são apenas vestimentas, mas manifestações visíveis de uma herança cultural e pessoal, tecidas com paixão e coragem, que reverberam e inspiram, especialmente no interior de São Paulo. Seu percurso, que une tradição e modernidade, reforça a riqueza da diversidade e o poder transformador da arte.

Para acompanhar mais sobre a Dooda Wesker e outras iniciativas artísticas na região, <a href="[LINK INTERNO PARA NOTÍCIAS DE CULTURA REGIONAL]">confira outras notícias do g1 Presidente Prudente e Região.</a>



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