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06 de March de 2026

Iemanjá: a Orixá das Águas na cultura afro-brasileira e a luta contra a intolerância

Presidente Prudente
02/02/2026 15:01
Redacao
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Iemanjá, também grafada como Yemojá, destaca-se como uma das Orixás mais reverenciadas e populares na cultura afro-brasileira. Sua celebração, em datas como 2 de fevereiro, mobiliza devotos por todo o Brasil, evidenciando a profunda conexão com essa divindade. Em Presidente Prudente (SP), a psicóloga e sacerdotisa Mariana Grigollette, à frente da Casa de Yemojá, oferece uma perspectiva aprofundada sobre o significado e a relevância duradoura desta Orixá das águas.

A figura de Iemanjá transcende a mera representação religiosa, inserindo-se no tecido social e cultural do país. Compreender sua importância exige um mergulho nas raízes africanas e na forma como essa fé se manifestou e se consolidou em solo brasileiro. O presente artigo explora as nuances do culto a Iemanjá, a atuação da Casa de Yemojá e os desafios persistentes da intolerância religiosa enfrentada pelas comunidades de matriz africana, pautando-se em dados e testemunhos.

Para os devotos, Iemanjá é muito mais do que uma figura mitológica; é uma entidade viva, protetora e provedora de equilíbrio. Mariana Grigollette esclarece o nome da divindade: “Yeye Omo Eja”, que se traduz como “mãe cujos filhos são peixes”. Esta designação sublinha a natureza maternal e o profundo elo com a vida aquática, essencial para a existência no planeta. A Orixá é considerada a própria água, fundamento de toda a vida.

A sacerdotisa enfatiza que Iemanjá é a “grande Orixá, protetora das cabeças, divindade que nos traz equilíbrio, força, proteção e fertilidade”. Esta descrição abrange atributos vitais para a vida humana, conectando a Orixá a aspectos fundamentais como a saúde mental, a resistência diante das adversidades e a capacidade de gerar e nutrir. A ausência de Iemanjá no panteão significaria a ausência de um pilar central na fé afro-brasileira, uma vez que ela é intrinsecamente ligada à própria água, fonte primordial de toda a vida. A crença em Iemanjá é vital para o culto aos Orixás.

Sua popularidade no Brasil reflete não apenas a dimensão espiritual, mas também a inserção cultural de suas representações. Festas e homenagens em diversas cidades costeiras demonstram a amplitude de sua influência, que se manifesta em ritos e tradições passadas de geração em geração. A celebração da Orixá Iemanjá, portanto, vai além do terreiro, alcançando o imaginário coletivo e a identidade nacional.

Origem divina

Embora a imagem popular de Iemanjá no Brasil esteja amplamente associada aos mares, sua origem no território Iorubá, berço do culto, a conecta primordialmente aos rios. Essa nuance é crucial para a compreensão plena da divindade. A saudação “Odô Iyá”, que significa “Mãe do Rio”, é um testemunho direto dessa ligação ancestral. Mariana Grigollette pontua que essa distinção não representa uma contradição, mas sim uma expansão de sua natureza aquática.

“Gosto de dizer que Iemanjá é mãe das águas, não há certo ou errado, onde houver água, há Iemanjá”, explica a sacerdotisa. Essa perspectiva universaliza a atuação da Orixá, reconhecendo sua presença em todas as formas de água, desde os rios que serpenteiam o continente até as vastidões oceânicas. A flexibilidade interpretativa permite que a divindade seja cultuada e reverenciada em diferentes contextos geográficos, sem perder sua essência como entidade das águas. A compreensão da cultura Iorubá é fundamental para apreciar a riqueza dessa tradição.

A migração e a diáspora africana trouxeram consigo a fé em Iemanjá, que se adaptou e se sincretizou em novas terras. O sincretismo religioso, muitas vezes associado a Nossa Senhora dos Navegantes ou da Conceição, permitiu que o culto a essa Orixá persistisse e se difundisse, mesmo em contextos de perseguição, consolidando sua presença como a ‘rainha do mar’ no imaginário popular brasileiro, sem, contudo, apagar suas raízes fluviais e a designação de ‘Mãe do Rio’.

Em Presidente Prudente, a Casa de Yemojá, localizada no bairro Parque Alexandrina, é um centro vital para o culto e a prática das religiões de matriz africana. Fundada em 2016, a instituição desempenha um papel fundamental na comunidade, oferecendo um espaço para a manifestação da fé e para a assistência espiritual e social. O terreiro é um exemplo de coexistência religiosa, abrigando tanto as práticas da Umbanda quanto as do Candomblé.

Mariana Grigollette destaca a dinâmica interna da casa: “Somos uma comunidade de terreiro de Umbanda e também de Candomblé. Aqui as religiões coexistem, mas cada uma ocupa seu espaço, momento e seu rito próprio”. Essa abordagem respeitosa permite que ambas as tradições floresçam, mantendo suas particularidades e, ao mesmo tempo, unindo-se sob a égide da Casa de Yemojá. A casa realiza atividades regularmente, com giras abertas ao público no último sábado de cada mês.

As giras são caracterizadas por sua natureza gratuita e caritativa, oferecendo atendimento por meio de senhas. Os portões do terreiro abrem às 16h30 e fecham pontualmente às 17h30, momento em que os trabalhos espirituais são iniciados. Essa estrutura visa garantir a organização e a seriedade dos rituais, proporcionando um ambiente acolhedor e respeitoso para todos os participantes que buscam auxílio e orientação espiritual com a Orixá Iemanjá e outras entidades. A Casa de Yemojá, ao longo dos anos, consolidou-se como um ponto de referência para a comunidade religiosa local.

Rito coletivo

Apesar da simbólica data de 2 de fevereiro ser amplamente associada à Iemanjá, a Casa de Yemojá tem sua própria ocasião especial para celebrar a Orixá: o Ajọdún Yemojá. Esta data, considerada o aniversário da casa, é um momento de profunda importância para a comunidade. A celebração não se restringe ao terreiro; ela se estende a um ato significativo de oferenda, o “presente de Yemanjá”.

Neste ritual, um balaio cuidadosamente preparado com flores, perfumes e outros itens simbólicos é levado até as águas do Rio Paraná. Este gesto representa uma homenagem e um agradecimento à Orixá Iemanjá, reforçando a conexão com o elemento água e a crença na sua força vital. A escolha do rio, em vez do mar, alinha-se à compreensão da divindade como “Mãe das Águas”, abrangendo tanto os rios quanto os oceanos, e honrando as origens iorubás da entidade.

A trajetória espiritual de Mariana Grigollette é um testemunho da diversidade de caminhos que levam à fé. Criada em um lar espírita, ela teve contato desde cedo com a cultura afro-brasileira por intermédio de sua mãe, que atuava com as ervas e o benzimento. Essa vivência multifacetada moldou sua identidade e sua vocação como sacerdotisa, conferindo-lhe uma perspectiva rica e integrada sobre as religiões de matriz africana, incluindo o culto à Iemanjá.

Sua experiência pessoal reflete a complexidade das intersecções religiosas no Brasil e a forma como indivíduos encontram seu lugar dentro de diferentes tradições. A transição e a aceitação de sua fé em Iemanjá e nos Orixás evidenciam a busca por pertencimento e a profundidade da conexão espiritual que muitos devotos estabelecem com essas divindades.

Apesar da riqueza cultural e espiritual das religiões de matriz africana, a intolerância religiosa permanece como um desafio persistente no Brasil. Mariana Grigollette, embora a Casa de Yemojá não tenha sido alvo direto de ataques explícitos, denuncia a frequência das manifestações de preconceito e discriminação que atingem outras comunidades irmãs.

“Infelizmente, vivenciamos diariamente nossas comunidades irmãs alvejadas de todas as formas possíveis”, lamenta a sacerdotisa. Esta afirmação sublinha a vulnerabilidade e a realidade de violência simbólica e física que muitos terreiros e seus membros enfrentam. A intolerância religiosa não se restringe a atos isolados; ela se manifesta em discriminação social, estigmatização e, em casos mais graves, em ataques diretos a templos e praticantes. A defesa da liberdade de culto é um pilar da democracia.

Cenário nacional

A preocupação com a intolerância religiosa é corroborada por dados oficiais. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelou, através do Disque 100, um total de 2.774 denúncias de violações entre janeiro de 2025 e 2026. Este cenário alarmante indica que o preconceito religioso é uma violação recorrente no Brasil, com um impacto desproporcional sobre as religiões de matriz africana, as quais incluem o culto a Iemanjá e outros Orixás.

Os estados de São Paulo (667), Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211) registraram o maior número de ocorrências, embora o problema se manifeste em todas as regiões do país. Esses números destacam a necessidade urgente de políticas públicas eficazes e ações contínuas de prevenção, proteção e promoção da liberdade religiosa. A incidência desses casos aponta para a persistência de estigmas e a falta de respeito à diversidade de crenças no país. Para mais informações, consulte os dados oficiais do MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania).

A discriminação contra as religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, muitas vezes se baseia em desinformação e preconceitos históricos, perpetuados por narrativas distorcidas. O combate a essa forma de intolerância exige não apenas a punição de agressores, mas também um esforço educacional amplo para fomentar o respeito e o reconhecimento da contribuição dessas religiões para a identidade cultural brasileira.

Missão Social

Diante desse panorama, a Casa de Yemojá assume um papel que transcende o meramente religioso, abraçando uma missão social e educativa. O objetivo central, segundo Mariana Grigollette, é “falar das divindades, dos Orixás, irmos para as ruas, fazermos ações sociais, ações educativas e apoiar nossos iguais”. Essa visão reflete o compromisso do terreiro com a desmistificação das religiões afro-brasileiras e com a promoção de um diálogo respeitoso na sociedade sobre a fé em Iemanjá e nas demais entidades.

As ações educativas são cruciais para combater a ignorância que alimenta o preconceito. Ao levar informações sobre os Orixás e as tradições de matriz africana para espaços públicos e debates, a Casa de Yemojá contribui para a construção de uma sociedade mais inclusiva e tolerante. O apoio mútuo entre as comunidades e a visibilidade de suas práticas são estratégias essenciais para fortalecer a fé e garantir os direitos dos praticantes. A sacerdotisa reitera a importância de aceitar oportunidades para discutir a religião e reforçar sua mensagem de paz e respeito.

Iemanjá, a Orixá das águas, permanece como um símbolo de força, proteção e vida na cultura afro-brasileira. Sua relevância transcende o âmbito religioso, influenciando manifestações culturais e identitárias por todo o Brasil. A atuação de casas como a Casa de Yemojá é fundamental não apenas para a manutenção do culto, mas também para a preservação de um legado ancestral e para a promoção do respeito à diversidade religiosa.

A luta contra a intolerância religiosa é um imperativo social que exige o engajamento de todos. A disseminação de informações precisas e o incentivo ao diálogo inter-religioso são ferramentas poderosas para desconstruir preconceitos e garantir que a fé em Iemanjá e em todas as divindades de matriz africana possa ser expressa livremente, sem medo ou discriminação. A compreensão e o respeito às diversas formas de crer são pilares para uma sociedade verdadeiramente plural e justa.

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