O show dos Mamonas Assassinas que marcou Dracena e ajudou uma escola
Em 1996, a pequena cidade de Dracena, no interior de São Paulo, foi palco de um evento que se tornaria um marco em sua história e na memória de milhares de pessoas. A iniciativa, nascida do desejo de um pai em contribuir para a melhoria da escola de suas filhas, transformou-se em um dos últimos grandes shows da meteórica banda Mamonas Assassinas. Eduardo Luiz de Sousa Arruda, aos 72 anos, relembra a audaciosa empreitada de trazer o fenômeno musical da época para um show beneficente, um gesto que transcendeu a mera arrecadação de fundos e se eternizou na cultura local.
O foco da mobilização era a E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez, onde as filhas de Eduardo estudavam. A quadra de esportes da instituição, descoberta, era um desafio constante para a prática de atividades físicas e eventos escolares. O sonho de uma cobertura adequada para o espaço, que ofereceria proteção e conforto aos alunos, parecia distante, pois os eventos de menor porte, promovidos por voluntários como Eduardo e sua esposa, não geravam os recursos necessários para uma obra de tal magnitude. Era preciso pensar grande.
Foi nesse contexto que Eduardo teve a ideia de realizar um evento de proporções inéditas para Dracena. A proposta era trazer um show de grande porte, e entre as diversas opções de artistas populares da época, os Mamonas Assassinas despontaram como a escolha mais engajadora. Com seu estilo irreverente e músicas que dominavam as paradas, o grupo gozava de um sucesso estrondoso, capaz de atrair multidões e, consequentemente, os fundos desejados. A ideia, que parecia um devaneio, começou a tomar forma na mente do pai visionário.
A concretização da ousada proposta exigiu persistência. Eduardo, enquanto assistia à televisão, notou os contatos dos empresários da banda no antigo programa Domingão do Faustão. Essa foi a porta de entrada para a negociação. Uma ligação que mudaria a história de Dracena. O desafio inicial foi a agenda lotada da banda, um reflexo do seu sucesso. Após conversas, apenas duas datas de janeiro de 1996 estavam disponíveis: dias 3 e 10, ambas quartas-feiras, um obstáculo em uma cidade do interior acostumada a eventos nos fins de semana. O risco de não dar certo era grande, mas a diretoria da escola, em conjunto com Eduardo, apostou no dia 10, pós-pagamento, como a melhor opção.
Com a data definida para 10 de janeiro de 1996, o município se mobilizou. A notícia de que os Mamonas Assassinas se apresentariam em Dracena para uma causa tão nobre reverberou rapidamente. A expectativa era imensa, e propostas de cidades vizinhas para sediar o show, devido à sua capacidade de atrair público, foram veementemente recusadas. A promessa era para Dracena, e lá seria. A cidade inteira parou para o evento, com milhares de pessoas de diferentes localidades do oeste paulista convergindo para testemunhar o show que se anunciava como histórico.
A iniciativa
O espetáculo dos Mamonas Assassinas em Dracena foi um sucesso retumbante, atraindo cerca de 14 mil pessoas. A energia da banda, composta por Dinho, Bento Hinoto, Samuel Reoli, Júlio Rasec e Sérgio Reoli, contagiou a todos, transformando o evento em uma celebração memorável. A arrecadação de fundos superou as expectativas, viabilizando a tão sonhada cobertura da quadra e deixando uma marca indelével na comunidade. No entanto, o destino reservaria um toque agridoce a essa lembrança, intensificando ainda mais o significado daquele dia.
Pouco mais de um mês e meio após a apresentação em Dracena, em 2 de março de 1996, o Brasil foi abalado pela trágica notícia da morte dos integrantes da banda em um acidente aéreo após um show em Brasília, no Distrito Federal. Esse evento chocante transformou o show de Dracena em algo mais do que um mero concerto beneficente; ele se tornou um dos últimos registros da irreverência e do talento dos Mamonas Assassinas, conferindo àquela data um significado ainda mais profundo para a cidade e para todos os presentes. O que já era histórico, tornou-se lendário.
A dimensão do feito de Eduardo Arruda e dos voluntários transcendeu o tempo e o espaço. O entusiasmo comunitário, a crença em uma causa e a coragem de trazer uma banda de renome nacional para uma cidade do interior, resultaram em um momento de união e celebração que perdura na memória coletiva. A quadra coberta da E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez tornou-se um monumento silencioso àquele esforço conjunto, uma prova de que a colaboração pode transformar sonhos em realidade, mesmo diante de obstáculos colossais. [Link Interno: Saiba mais sobre eventos beneficentes em escolas]
Para a comunidade de Dracena, o show dos Mamonas Assassinas não foi apenas um evento musical, mas uma demonstração do poder da união e da solidariedade. A história, contada de geração em geração, ressalta a capacidade de mobilização em prol de um bem comum, evidenciando como a música pode ser um catalisador para mudanças positivas. A memória daquele dia continua a inspirar, mostrando que a perseverança e a paixão podem mover montanhas, ou, neste caso, construir a cobertura de uma quadra escolar. [Link Externo: Veja a história completa dos Mamonas Assassinas]
Memória viva
A ex-aluna Danielle Cristine Santim personifica a continuidade desse legado. Aos 14 anos, ela cursava o ensino médio na E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez e, como fã da banda, acompanhou de perto toda a mobilização e a emoção daquele dia. Anos depois, em 2017, Danielle retornou à escola, não mais como aluna, mas como diretora, assumindo a responsabilidade de preservar e nutrir as memórias que ali residem. Sua trajetória é um testemunho vivo do impacto duradouro do show e da importância daquele espaço para a comunidade escolar. [Leia também: Fã e tia de Dinho relembram show dos Mamonas Assassinas em Dracena: ‘Foi um privilégio’]
Hoje, mesmo após quase três décadas, o show dos Mamonas Assassinas ainda ecoa pelos corredores da E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez. Na entrada da quadra que Eduardo Arruda ajudou a cobrir, uma placa singela homenageia a banda, e fotografias no acervo histórico da escola servem como cápsulas do tempo, congelando a euforia e a irreverência daquele momento. Esses elementos tangíveis mantêm a história viva, permitindo que novas gerações de alunos, professores e funcionários se conectem com o passado vibrante da instituição e de sua cidade.
A escola, por sua localização central, atrai constantemente visitantes – ex-alunos, ex-professores e membros da comunidade – que solicitam permissão para revisitar os espaços escolares e, invariavelmente, a quadra. Este local específico é um catalisador de boas recordações e lembranças do show, que transcende a função prática de um ginásio. É um ponto de encontro com a história, um espaço onde a música, a solidariedade e a memória se entrelaçam, reforçando os laços entre o passado e o presente da E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez e de toda a cidade de Dracena.
Legado permanente
A história de Eduardo Luiz de Sousa Arruda, dos Mamonas Assassinas e da E.E. Engenheiro Isac Pereira Garcez em Dracena é um poderoso lembrete do impacto que a paixão e a colaboração comunitária podem gerar. Mais do que a construção de uma cobertura de quadra, o evento de 1996 construiu uma ponte entre a cultura popular e a necessidade educacional, criando um legado de inspiração e união que continua a ressoar. A memória daquele show não se restringe a um evento pontual, mas se manifesta como um capítulo vital na identidade de Dracena, mostrando o poder transformador de um sonho coletivo.
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