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16 de March de 2026

Pesquisa brasileira revela ciclo invisível de microplásticos nos pulmões e rios do Oeste Paulista

Presidente Prudente
16/03/2026 08:31
Redacao
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Pequenos fragmentos, por vezes invisíveis a olho nu, estão em um ciclo silencioso que perpassa rios, o ar que respiramos e até o interior do organismo humano. Conhecidos como microplásticos e nanoplásticos, esses resíduos se tornaram uma preocupação crescente para a comunidade científica global, que investiga seus potenciais impactos na saúde e no meio ambiente. Um estudo pioneiro, desenvolvido na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), em Presidente Prudente, São Paulo, jogou luz sobre a presença dessas partículas e suas implicações para o sistema respiratório. A relevância da pesquisa foi confirmada com sua apresentação e reconhecimento no prestigiado Congresso da Sociedade Respiratória Europeia (ERS 2025), em Amsterdã, na Holanda, um dos maiores eventos mundiais em pneumologia.

Reconhecimento internacional

O trabalho, conduzido pelo estudante de medicina Bruno Henrique Couto, sob a orientação da fisioterapeuta, professora de Patologia e pesquisadora Renata Calciolari Rossi, destacou-se por sua originalidade e impacto. Foi selecionado entre os melhores na área de sustentabilidade e representou o único estudo brasileiro a receber tal distinção no evento europeu. Para a pesquisadora Rossi, mestre e doutora em Ciências da Saúde, o alcance da pesquisa é um testemunho da qualidade da ciência produzida no interior do Brasil. Ela enfatiza que a investigação pode ser o ponto de partida para identificar e mitigar os problemas associados a esses contaminantes emergentes.

Em entrevista ao g1, a doutora Renata Calciolari Rossi reforçou a importância do feito: "Para nós, isso mostra que a ciência produzida no interior do Brasil tem qualidade e relevância internacional, e que universidades como a Unoeste podem contribuir de forma importante para debates científicos globais." Esse reconhecimento valida o esforço local e projeta a expertise brasileira em um palco de discussões cruciais para o futuro da saúde pública e ambiental.

O que são microplásticos?

Para compreender a amplitude do estudo da Unoeste e sua capacidade de influenciar soluções, é fundamental entender a natureza dos microplásticos. Essas partículas diminutas são o resultado da fragmentação de materiais plásticos maiores – como embalagens, copos descartáveis e recipientes de isopor – que se degradam ao longo do tempo. A ação do sol, da água e do atrito mecânico os transforma em fragmentos microscópicos, que, então, se disseminam pelo solo, pela água e, crucialmente, pelo ar.

A pesquisadora Renata Calciolari Rossi descreve esse processo como a criação de um "ciclo ambiental silencioso". "Os microplásticos e nanoplásticos são considerados hoje contaminantes emergentes. Eles estão presentes na água, no solo, nos alimentos e até no ar que respiramos", alerta. A preocupação se intensifica com as crescentes evidências científicas que ligam essas partículas à inflamação, estresse oxidativo e alterações em diversos tecidos, notadamente o pulmão. "Por isso, acreditamos que estamos diante de um problema ambiental que também pode se tornar um problema importante de saúde pública", complementa Rossi.

Do rio ao pulmão

Um dos aspectos mais alarmantes revelados pela pesquisa é a facilidade com que esses fragmentos plásticos circulam pelo meio ambiente e penetram o organismo humano. O processo muitas vezes se inicia com o descarte inadequado de resíduos plásticos em rios ou áreas urbanas. Com a degradação e fragmentação, essas partículas microscópicas podem ficar suspensas no ar, transformando-se em aerossóis.

Renata Calciolari Rossi explica o percurso: "Sendo transportadas por correntes atmosféricas ou poeira. Quando isso acontece, elas podem ser inaladas e chegar ao sistema respiratório". Essa dinâmica estabelece uma conexão direta entre a poluição plástica em ecossistemas aquáticos, como os <a href='https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2023/10/26/rios-do-oeste-paulista-sao-protagonistas-no-povoamento-e-desenvolvimento-da-regiao.ghtml' target='_blank' rel='noopener'>rios do Oeste Paulista</a>, e a saúde pulmonar da população. Em outras palavras, um simples plástico descartado de forma inadequada pode, após sua fragmentação, integrar o ar que as pessoas respiram diariamente.

Descobertas e impactos

A metodologia da pesquisa da Unoeste envolveu uma rigorosa revisão sistemática da literatura científica global, visando consolidar o entendimento dos possíveis efeitos dos microplásticos e nanoplásticos. O estudo focou na análise de experimentos conduzidos em roedores expostos a essas partículas. De um universo de mais de 700 estudos identificados, 46 foram selecionados para uma análise detalhada, proporcionando uma base sólida para as conclusões.

Os resultados obtidos indicam alterações significativas no sistema respiratório dos animais expostos. Entre os principais efeitos observados, destacam-se a inflamação pulmonar, ocorrência de hemorragias, fibrose, espessamento das paredes alveolares e outras alterações estruturais no tecido pulmonar. A presença de infiltrações de células inflamatórias em diferentes regiões dos pulmões também foi um achado recorrente, sugerindo uma resposta imunológica do organismo à presença dos microplásticos.

Essas descobertas reforçam a hipótese de que a exposição a microplásticos e nanoplásticos pode ser um fator de risco para diversas patologias respiratórias. O estudo aponta para uma correlação direta: quanto maior a exposição às partículas, mais intensos e prejudiciais tendem a ser os efeitos observados no sistema respiratório. A pesquisa, portanto, não apenas valida as preocupações existentes, mas também fornece dados concretos sobre a gravidade potencial do problema, demandando atenção urgente de pesquisadores e formuladores de políticas públicas. <a href='https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/plastic-pollution-and-health' target='_blank' rel='noopener'>Saiba mais sobre a poluição por plásticos e saúde global.</a>

A pesquisa da Unoeste emerge como um marco importante no debate sobre os microplásticos, trazendo para o cenário global a contribuição da ciência brasileira. Ao desvendar o "ciclo invisível" que liga a poluição ambiental à saúde humana, o estudo reforça a necessidade premente de ações coordenadas. Desde a conscientização sobre o descarte correto de resíduos até o desenvolvimento de tecnologias de filtragem mais eficazes e políticas públicas robustas de controle da poluição por plásticos, o caminho para mitigar os riscos é complexo, mas essencial. Os achados indicam que o que antes era uma preocupação predominantemente ambiental, agora se estabelece como um desafio de saúde pública global, exigindo respostas multidisciplinares e urgentes para proteger os pulmões e o futuro do planeta. <a href='https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/noticia/2023/10/08/historias-que-inspiram-conheca-mulheres-que-fazem-a-diferenca-no-oeste-paulista.ghtml' target='_blank' rel='noopener'>Confira outras notícias sobre meio ambiente e sustentabilidade.</a>



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