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15 de October de 2026

A persistência do ‘paraíso dos tolos’: a profecia de Carlos Lacerda na política brasileira

Presidente Prudente
15/10/2026 08:10
Redacao

Há frases que funcionam como espelhos incômodos, atravessando o tempo e ressurgindo no debate público à medida que a história se repete. Em um cenário político brasileiro frequentemente marcado por tensões e dilemas éticos, as palavras de Carlos Lacerda (1914–1977), jornalista polemista e uma figura central e controversa do século XX, ressoam com uma urgência surpreendente na contemporaneidade. Seu diagnóstico, proferido na década de 1950, oferece um prisma para compreender desafios persistentes que afetam a estrutura da nação.

Lacerda cravou um alerta que, décadas depois, mantém uma atualidade assustadora: “Não se deve continuar a ser cidadãos conformados de uma nação onde quem rouba é quem mais manda e quem mais manda mais rouba. O país não deve ser o paraíso do tolo e a delícia do esperto…” Essa declaração, nascida no calor do ambiente político de sua época, hoje se manifesta com os contornos de uma profecia quase trágica, convidando a uma profunda reflexão sobre a evolução do estado e da sociedade no Brasil.

As décadas se sucederam, as moedas foram trocadas, as redes de comunicação transformaram-se e os governos alternaram-se no poder. Contudo, a essência da engrenagem do “esperto” parece persistir, operando de forma contínua e, por vezes, mais sofisticada. Essa persistência é lubrificada por uma falência moral e institucional que, ao longo do tempo, naturalizou o absurdo e a impunidade como elementos integrantes da paisagem política brasileira, gerando um ciclo vicioso que exige análise crítica.

A fala de Lacerda não apenas descrevia um contexto, mas advertia para um risco estrutural: a desmoralização da vida pública e a despolitização do cidadão. O “paraíso dos tolos” e a “delícia dos espertos” não são meras figuras de linguagem; representam uma condição social e política em que a ética é subvertida e a busca pelo interesse coletivo cede espaço a agendas particulares, blindadas por complexos mecanismos de poder e consentimento silencioso. É um panorama que exige a atenção de todos os setores da sociedade. [LINK INTERNO: Contexto histórico da política brasileira no século XX]

A engenharia da impunidade na política

No cenário político atual, observamos uma dinâmica que sugere que, embora o figurino tenha mudado, o método da “esperteza” permanece, adaptando-se às novas realidades. A nação assiste, por vezes atônita, por vezes anestesiada, a um desfile de figuras públicas – sejam candidatos a cargos eletivos ou políticos tarimbados – com históricos questionáveis, muitos dos quais envolvendo denúncias graves de corrupção. Entre eles, encontram-se réus confessos, condenados que foram agraciados por manobras processuais ou beneficiados por prescrições providenciais, levantando sérias questões sobre a efetividade da justiça.

Longe de representarem meras exceções em um sistema, esses personagens tornaram-se, em muitos aspectos, um padrão preocupante na vida pública brasileira. A “esperteza” a que Lacerda se referia evoluiu para uma engenharia complexa. Não se trata apenas do desvio de recursos públicos, mas da captura das próprias instituições que deveriam fiscalizar e punir, transformando-as em escudos protetores para os interesses dos poderosos. Essa dinâmica compromete a integridade do Estado e a confiança dos cidadãos nas suas estruturas democráticas.

Quando a justiça se contorce para adequar leis aos interesses de grupos privilegiados, ou quando órgãos de fiscalização perdem sua autonomia e capacidade de atuação para não ferir aliados políticos, instaura-se uma falência da República. A lógica é perversa: os “espertos” não apenas ascendem ao poder; eles reescrevem as regras do jogo para garantir sua permanência e blindar suas ações, perpetuando um ciclo de impunidade que corrói a base moral da sociedade. A lei, que deveria ser um instrumento de igualdade, torna-se uma ferramenta de exceção. [LINK EXTERNO: Relatórios sobre corrupção no Brasil – Transparência Internacional]

Essa engenharia da impunidade manifesta-se em diversas esferas, desde a morosidade de processos judiciais complexos até a alteração de legislações para favorecer determinados grupos ou anistiar condutas. A percepção de que há uma justiça para poucos e outra para a maioria mina a crença na equidade e na legitimidade do sistema. A consequência direta é a erosão do pacto social, onde a descrença na punição para atos ilícitos desestimula a probidade e fomenta a continuidade de práticas antiéticas, gerando um ambiente de desconfiança generalizada entre governantes e governados.

A sofisticação dessa “esperteza” reside, em grande parte, na capacidade de legitimar o ilegítimo, utilizando o próprio arcabouço legal para subverter seus propósitos originais. Mecanismos como a proliferação de recursos, a interpretação elástica de normas ou a utilização estratégica do foro privilegiado contribuem para um sistema que, na prática, muitas vezes impede que a accountability seja efetiva. Isso reforça a noção de que o poder, quando desprovido de vigilância e integridade, pode se tornar um instrumento de perpetuação de privilégias e desvios, alimentando o ciclo que Lacerda tão bem descreveu.

O cidadão rebaixado a torcedor

Entretanto, a tragédia não reside apenas na astúcia dos corruptos e na complexidade da impunidade, mas também no comportamento da própria plateia: o eleitorado. Um dos elementos mais devastadores da crise contemporânea brasileira é a transformação do cidadão consciente em uma claque dogmática, ou seja, uma massa de torcedores fanáticos. Esses indivíduos, cegados pelo sectarismo, demonstram uma alarmante disposição em perdoar qualquer crime ou deslize ético, desde que cometido pelo “seu” representante, o “camisa dez” do seu partido ou ideologia. [LINK INTERNO: O impacto da polarização na democracia]

A moralidade pública, que deveria ser um pilar da vida em comunidade e da escolha política, tem sido substituída por uma lógica de lealdade cega e partidarismo irrestrito. O debate político, antes pautado por propostas e princípios éticos, perdeu sua essência e adquiriu a dinâmica das arquibancadas de futebol. Nesse ambiente, a razão cede lugar à emoção, e a busca pela verdade é ofuscada pela necessidade de defender a “equipe” a qualquer custo, independentemente dos fatos ou das consequências morais dos atos praticados pelos seus membros.

Nessa arena, o erro do adversário político é prontamente visto como um crime inafiançável, uma prova cabal de vilania e corrupção que merece a mais severa condenação. Não há espaço para relativizações ou contextualizações; a falha é absoluta e inquestionável, servindo como munição para descreditar o oponente e reforçar a própria posição ideológica. Essa postura inflexível contribui para um ambiente de polarização extrema, onde o diálogo construtivo é praticamente impossível e a demonização do outro se torna a regra.

Em contraste, o mesmo erro, quando cometido por um aliado ou figura da própria “equipe”, é sistematicamente relativizado. O injustificável é justificado sob as mais variadas desculpas: “perseguição política”, “conspiração de inimigos”, “mal menor” em comparação com o adversário, ou mesmo a alegação de que “todos fazem igual”. Essa dupla moralidade, aplicada conforme a conveniência partidária, desmantela qualquer vestígio de exigência ética e transforma a política em um jogo de soma zero, onde a vitória do seu grupo justifica qualquer meio, por mais questionável que seja.

O “torcedor político” não busca integridade, um programa de governo consistente ou virtude moral em seus representantes. A exigência primordial é a vitória sobre o rival, a manutenção do poder para sua facção. Esse comportamento leva a uma abdicação da fiscalização e da crítica, onde o cidadão passa panos em esquemas milionários, ignora desvios comprovados e aceita ser enganado, desde que sua “equipe” permaneça no controle. Essa dinâmica fragiliza as instituições democráticas e pavimenta o caminho para a consolidação do que Lacerda chamou de “paraíso dos tolos”.

O ciclo do paraíso dos tolos

Esse dogma cego, essa lealdade inquestionável a um lado em detrimento da ética e da razão, é a garantia de sobrevivência e prosperidade dos “espertos” na política. Ao renunciar ao pensamento crítico e à exigência de integridade de seus representantes, o cidadão abdica de sua própria condição de sujeito político ativo e fiscalizador. Ele se torna, exatamente como advertia a citação clássica, o “tolo” perfeito — aquele que, embora financie a festa com seu trabalho e seus impostos, aplaude os organizadores enquanto estes lhe esvaziam os bolsos e minam o futuro da nação. [LINK EXTERNO: Artigo sobre cidadania e engajamento político – Revista Científica]

Carlos Lacerda nos lembrava de que não se deve continuar a ser cidadãos conformados. Essa advertência é mais do que um clamor; é um chamado à ação. Enquanto o voto for tratado como uma mera bandeira de torcida, uma expressão de lealdade incondicional, e a corrupção for relevada em nome do dogmatismo ideológico ou da polarização partidária, o Brasil permanecerá prisioneiro deste ciclo vicioso. Esse ciclo configura um “paraíso” sob medida para os “espertos”, sustentado pela ingenuidade voluntária e pela complacência dos “tolos”.

A superação desse cenário requer um resgate da cidadania ativa e do senso crítico. Exige que o eleitor volte a ser um fiscal, um questionador e um demandante de ética e transparência, independentemente da filiação partidária de seus representantes. Romper o ciclo do “paraíso dos tolos” implica em valorizar a integridade, a probidade e o serviço público acima de qualquer lealdade política, reconhecendo que a verdadeira força de uma nação reside na vigilância e na exigência de seus cidadãos.

O legado da frase de Lacerda serve como um farol para os desafios da governança e da representação política. Não é uma crítica vazia, mas um diagnóstico profundo das patologias que podem afligir uma democracia quando a moralidade é substituída pela conveniência. A reflexão sobre o “paraíso dos tolos” deve ser um motor para o despertar da consciência cívica, impulsionando a sociedade a reivindicar uma política pautada pela ética, pela justiça e pelo verdadeiro interesse público, garantindo que o país não seja mais uma “delícia do esperto”.

É fundamental que cada cidadão compreenda o seu papel transformador. Ao exigir mais dos líderes e, principalmente, de si mesmo na avaliação política, o país pode começar a desmantelar a engenharia da impunidade e reverter a lógica do eleitor-torcedor. A construção de uma sociedade mais justa e transparente depende diretamente da capacidade de romper com esse ciclo, onde a conformidade cede lugar à participação ativa e crítica. Confira outras análises sobre a política brasileira e o papel da cidadania em nosso portal. [LINK INTERNO: Artigos relacionados à ética na política].



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