Pedra de quase 400 kg resgata história da imigração japonesa em Adamantina
A descoberta de uma peça histórica de quase 400 quilos, que celebra os 50 anos da imigração japonesa no Brasil, reacende a memória e o legado da comunidade nipo-brasileira no interior de São Paulo. Após décadas de esquecimento, a monumental pedra, esculpida em 1958, foi finalmente localizada em uma propriedade rural de Adamantina e doada ao Museu e Arquivo Histórico de Adamantina “Setsu Onishi”, revitalizando um capítulo fundamental da história local.
Este artefato de quase sete décadas, que outrora parecia perdido entre as plantações agrícolas do bairro Tucuruvi, transcende a sua materialidade para se tornar um símbolo tangível do esforço e da contribuição dos imigrantes japoneses. A sua redescoberta não é apenas um feito arqueológico local, mas um resgate profundo da identidade e das raízes de uma comunidade que moldou significativamente a paisagem social e econômica da região.
Noriko Onishi Saito, professora de 77 anos e representante ativa da comunidade nipo-brasileira em Adamantina, expressa a profunda emoção e o valor inestimável da peça. Em entrevista ao g1, ela relembra a simbologia especial da pedra, um verdadeiro legado familiar, pois foi lapidada e minuciosamente trabalhada por seus pais, Bunkiti Onishi e Setsu Onishi.
“Na hora, quando eu vi, eu já reconheci que era um trabalho feito pelos meus pais, que a minha mãe escreveu na época, com todo o capricho, cuidado. Ela gravava com um pincel próprio, para fazer a caligrafia, cada detalhe”, recorda Noriko, evidenciando o carinho e a precisão artística envolvidos na criação. Seu pai, Bunkiti Onishi, um imigrante japonês com vasta experiência no trabalho com pedras, aplicou seu conhecimento na confecção de túmulos e artefatos de cimento.
A confecção da pedra fazia parte de um projeto maior de homenagem aos pioneiros, conforme Noriko Onishi Saito detalha. “A resolução desse monumento era em homenagem aos primeiros imigrantes que vieram ao Brasil, os 50 anos da imigração japonesa. E os moradores do bairro Tucuruvi resolveram prestar a homenagem e pediram para o meu pai fazer a peça.”
A origem do monumento
A pedra, em sua concepção original, era um marco central no pátio da antiga Associação Nipo-Brasileira do bairro Tucuruvi. Esta área era um epicentro da produção agrícola, abrigando mais de 160 famílias japonesas que cultivavam cerca de 300 mil pés de café, consolidando a presença e a força da imigração japonesa na economia local. A associação, por sua vez, servia como um vital ponto de encontro e lazer para os imigrantes, fortalecendo os laços comunitários e culturais.
Além deste monumento em Adamantina, a família de Noriko Onishi Saito produziu outras 33 peças para a igreja Kotobuki, localizada em Mairinque, na região de Sorocaba, demonstrando a amplitude de seu trabalho e o reconhecimento de sua habilidade. Essas obras não só adornavam os espaços sagrados, mas também carregavam a história e a fé de uma comunidade em formação, reforçando a importância cultural da família Onishi. Para saber mais sobre outras expressões artísticas da comunidade nipo-brasileira, <a href="#" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>.
O bairro Tucuruvi, com sua efervescente comunidade japonesa, floresceu por décadas como um testemunho do sucesso e da adaptabilidade desses imigrantes. A dedicação à terra e o cultivo do café transformaram a região, criando um legado que, por muitos anos, se manifestou na prosperidade e na coesão social da população nipo-brasileira.
O artesão e a tradição
O talento de Bunkiti Onishi para esculpir pedras, uma habilidade trazida diretamente do Japão, foi essencial para a materialização dessa homenagem. Ele representava uma geração de imigrantes que não apenas buscava novas oportunidades, mas também transplantava e adaptava suas tradições e ofícios para o novo lar, enriquecendo a cultura local com sua perícia.
A caligrafia de Setsu Onishi na pedra adiciona uma camada de profundidade artística e sentimental. A arte da caligrafia japonesa, com sua precisão e beleza, transformou o monumento em algo mais do que uma simples rocha talhada; tornou-o uma tela de expressões culturais e um registro visual da memória coletiva da imigração.
As décadas de esquecimento
O destino da pedra mudou drasticamente a partir da década de 1970. Gislaine Targa, secretária municipal de Cultura e Turismo e chefe de Museu e Projetos Culturais de Adamantina, explica que uma grande geada atingiu a região, devastando quase 100% da produção de café. Esse evento climático adverso teve um impacto profundo na vida dos imigrantes.
“A partir da grande geada e da perda de quase 100% do cafezal, muitos dos migrantes foram embora da cidade, da região, mudaram de localidade e os pés de café foram abandonados. A vila Tucuruvi foi abandonada e, pelo tempo, cresceu o mato… A pedra tombou em função de talvez a própria terra ter se deslocado”, descreve Gislaine. Com o êxodo das famílias, a associação foi desativada e a área gradualmente tomada pela vegetação, relegando o monumento ao esquecimento.
Por mais de quarenta anos, o artefato permaneceu oculto, engolido pela natureza e pela passagem do tempo, tornando-se um tesouro esquecido sob a terra de Adamantina. Sua localização exata foi obscurecida, e a memória de sua existência parecia esmaecer junto com o legado da próspera comunidade cafeeira do bairro Tucuruvi. Você pode <a href="https://www.g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/" target="_blank" rel="noopener">saber mais sobre a região no g1 Presidente Prudente e Região</a>.
A força da natureza
A geada da década de 1970 não foi apenas um fenômeno meteorológico; foi um divisor de águas para a imigração japonesa na região, forçando muitos a buscar novos horizontes e, inadvertidamente, enterrando parte da história local. O abandono das plantações de café simbolizou o fim de um ciclo e o início de um período de reajustes para as famílias nipo-brasileiras.
O resgate da história
O reencontro com a pedra, mais de quatro décadas depois, aconteceu de forma inesperada. Um morador local, ao passar o trator para preparar a terra para uma nova plantação, deparou-se com a massa de quase 400 quilos. Ao perceber as gravuras e a singularidade da peça, ele chamou o vizinho, membro da única família japonesa que ainda reside no bairro, dando início ao processo de resgate.
A notícia da descoberta rapidamente chegou a Noriko Onishi Saito, que não hesitou em ir ao local para confirmar a identidade do artefato. Para ela, a redescoberta é um momento de grande significado emocional e histórico, um elo renovado com as suas origens e com a trajetória de seus antepassados.
“Para nós é muito importante. O resgate dessa pedra para nós foi fundamental, para que não esqueçamos dos nossos antepassados”, enfatiza Noriko, destacando o papel do monumento como um guardião da memória e um elo entre gerações. A pedra, agora, não é apenas um objeto, mas um catalisador de narrativas e um testemunho vivo do pioneirismo nipo-brasileiro.
Hoje, a pedra assume seu lugar de honra no Museu e Arquivo Histórico de Adamantina “Setsu Onishi” – um nome que, por feliz coincidência, presta homenagem à mãe de Noriko Onishi Saito, calígrafa do monumento. Este artefato é o único remanescente físico que ainda lembra o pioneirismo e a tenacidade da comunidade nipo-brasileira no bairro Tucuruvi, assegurando que o legado da imigração japonesa continue a ser contado e valorizado para as futuras gerações. Para aprofundar-se em outras histórias que moldaram a região, <a href="#" target="_blank" rel="noopener">confira outras notícias sobre a história do interior de São Paulo</a>.
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