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27 de August de 2026

Misoginia organizada: ranking sexual em universidade de Presidente Prudente revela violência digital contra mulheres

Presidente Prudente
26/08/2026 15:02
Redacao
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Um caso chocante de suposto ranking sexual envolvendo alunas de uma universidade privada em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, lança luz sobre a grave realidade da misoginia organizada. Compartilhado em um grupo fechado de aplicativo de mensagens, o conteúdo — que incluía fotos e mensagens de teor sexual e depreciativo — vazou, gerando indignação e uma investigação da Polícia Civil, que já registra diversas denúncias. O episódio transcende a simples antipatia às mulheres, revelando uma forma estruturada e coletiva de violência de gênero.

Até a última terça-feira (25), a Polícia Civil havia recebido dez denúncias de vítimas, evidenciando a dimensão do problema. A repercussão do caso não se limitou ao ambiente virtual e à delegacia: protestos com faixas e cartazes foram realizados em frente à universidade, localizada às margens da Rodovia Raposo Tavares (SP-270). O coletivo “Frente pela Vida das Mulheres” emitiu uma nota de repúdio, classificando o incidente como um ato de "misoginia organizada", um termo que agora ganha centralidade na discussão pública.

Conceito ampliado

Para a psicóloga e professora Viviane Melo de Mendonça, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero, Diferenças e Sexualidades (NEGDS) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus Sorocaba, a definição de "misoginia organizada" é precisa, embora a palavra "organizada" não seja empregada no sentido jurídico. Ela explica que o termo descreve uma prática coletiva, planejada e sistematizada, que vai muito além de um mero comentário isolado de um indivíduo.

A professora Viviane detalha a sistematicidade do ato: "Houve apropriação de fotografias das estudantes, construção de critérios para classificá-las, produção de um ranking e circulação em um grupo específico. Criou-se coletivamente um instrumento para transformar mulheres em corpos avaliáveis e sexualmente disponíveis ao julgamento masculino." Este método, segundo a especialista, retira das mulheres a sua condição de pessoas, reduzindo-as a "objetos de consumo e comparação", em uma clara manifestação de objetificação. A validação por parte dos participantes do grupo é um pilar crucial para essa organização.

Camadas da violência

No cerne dos comentários compartilhados no grupo, uma frase se destaca pela sua crueldade e pela revelação de múltiplas camadas de preconceito: "Tirei as lésbicas e as gordas". A análise da psicóloga Viviane Melo de Mendonça sobre essa declaração é contundente, indicando que a violência não atingia todas as mulheres da mesma maneira. "Isso confirma que essa violência não atingia todas as mulheres da mesma maneira. Combina misoginia, lesbofobia e gordofobia", afirma.

É fundamental, neste contexto, diferenciar misoginia de machismo, embora sejam conceitos interligados. A misoginia é definida como o desprezo, a aversão ou a hostilidade dirigida às mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Já o machismo, conforme explicado por Viviane, constitui um sistema de ideias, valores e práticas que atribui aos homens uma posição de superioridade, distribuindo de forma desigual poder, autoridade e liberdade entre os gêneros. Para a psicóloga, a misoginia é uma das ferramentas por meio das quais essa ordem machista é protegida e efetivada, principalmente quando as mulheres são punidas por não se adequarem ao papel esperado delas.

A especialista ressalta que a misoginia não se manifesta apenas em declarações explícitas de ódio. Ela se materializa em diversas práticas de humilhação, objetificação, controle, intimidação e violência, como exemplificado no caso de Presidente Prudente. Ao vigiar e punir as mulheres dentro de uma hierarquia estabelecida pelo machismo, a misoginia atua de forma perversa para manter a desigualdade.

Ambiente digital

O fenômeno da misoginia tem encontrado nas plataformas digitais um terreno fértil para se expandir e ganhar voz. Seja nas redes sociais, em aplicativos de mensagens ou em plataformas de vídeo, a internet oferece aos agressores uma perigosa sensação de segurança e impunidade. "As plataformas oferecem rapidez, grande alcance e a possibilidade de repetição, então, quando há uma fotografia ou uma ofensa, elas podem ser copiadas e compartilhadas inúmeras vezes e o dano continua mesmo depois que o conteúdo original é apagado. Isso é muito sério", adverte a psicóloga Viviane Melo de Mendonça.

Essa capacidade de replicação e o alcance massivo inerentes ao ambiente digital contribuem para a radicalização da violência contra as mulheres. Os algoritmos, por sua vez, agravam ainda mais a situação. Conteúdos que provocam indignação e medo, características frequentes em atos misóginos, tendem a gerar alto engajamento. Dessa forma, a misoginia que já se enraíza na sociedade encontra, no digital, modos mais eficientes de organização e propagação, ampliando seu impacto devastador.

Reflexões finais

O caso das universitárias de Presidente Prudente é um doloroso lembrete da persistência e da adaptação da misoginia aos novos contextos sociais, especialmente o digital. A "misoginia organizada" não é um conceito abstrato, mas uma realidade que desumaniza, fere e perpetua desigualdades, exigindo uma compreensão profunda e ações coordenadas da sociedade, das instituições de ensino, das plataformas digitais e das autoridades para combatê-la efetivamente. A conscientização e a denúncia são passos cruciais para desmantelar essas redes de ódio e proteger a integridade e a dignidade das mulheres.

Para aprofundar-se em temas relacionados à violência de gênero e ao impacto das redes sociais, <a href="#" target="_blank" rel="noopener">leia também</a> outras análises em nosso portal.



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