Homem reincidente: feminicídio e passado macabro em Neves Paulista
A cidade de Neves Paulista, no interior de São Paulo, foi palco de um feminicídio seguido de suicídio que desenterrou um passado sombrio e revelou um chocante padrão de violência. Luiz Carlos Prado, de 62 anos, é o homem apontado como responsável pelo assassinato de sua companheira, Everly Rodrigues da Silva, a facadas no último domingo (9). A investigação da Polícia Civil ganhou uma nova e estarrecedora dimensão ao se descobrir que Prado já havia sido condenado pela morte de sua primeira esposa, Marisa Maria Prado, ocorrida na década de 1990.
O crime mais recente veio à tona quando o filho do casal, de 22 anos, encontrou os corpos dos pais ao retornar da igreja. Everly foi achada sem vida na cozinha, com perfurações de faca, enquanto Luiz Carlos estava no corredor da área externa da residência. A cena do crime imediatamente levantou suspeitas, indicando uma tragédia doméstica de contornos já conhecidos pela família do agressor.
Segundo depoimento do filho à Polícia Civil, o casamento de quase três décadas entre Luiz Carlos e Everly era marcado por um ciclo contínuo de violência. Discussões, agressões físicas, ofensas verbais e humilhações eram frequentes no ambiente doméstico. O jovem relatou ter ouvido os pais discutindo horas antes de sair de casa, um prenúncio do desfecho fatal que se seguiria.
A perícia compareceu ao local e recolheu uma carta de despedida deixada pelo agressor sobre o corpo da vítima. No texto, Luiz Carlos pedia desculpas por desentendimentos antigos e expressava insatisfação com a vida conjugal, um padrão comum em casos de feminicídio com suicídio, onde o agressor tenta justificar a violência extrema.
Os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) para exame necroscópico, e o caso foi registrado como feminicídio e suicídio pela Polícia Civil. No entanto, a repercussão do crime ganhou outro patamar com a revelação do histórico de Luiz Carlos, trazendo à tona a memória de uma vítima anterior e a dor de uma família que há anos clamava por reconhecimento.
Passado revelado
A filha do primeiro casamento de Luiz Carlos, Camila Prado, hoje com 36 anos, concedeu uma entrevista que lançou luz sobre o passado perturbador do pai. Ela revelou que Marisa Maria Prado, sua mãe, foi assassinada a tiros por Luiz Carlos quando Camila tinha apenas cinco meses de vida. A verdade sobre o feminicídio de sua mãe foi mantida em segredo por anos, só vindo à tona para Camila quando ela completou 11 anos e seu pai foi finalmente julgado e condenado a cumprir pena em regime semiaberto.
Camila descreve o trauma de crescer com a história da mãe sendo um tabu familiar. “Minha mãe não morreu, ela foi assassinada e não merece ser esquecida”, desabafa. O crime contra Marisa Maria, na época com apenas 20 anos, ocorreu em São Paulo e resultou em sua morte por hemorragia interna traumática, conforme a certidão de óbito. Ela deixou duas filhas pequenas para trás.
Ainda segundo Camila, o pai justificou o assassinato de Marisa alegando uma suposta traição. Ele fugiu após os tiros, mas depois retornou e continuou sua vida 'como se nada tivesse acontecido'. A avó paterna de Camila, tempos depois, revelou detalhes chocantes sobre a estratégia de Luiz Carlos após o crime: ele teria consultado um advogado, que o aconselhou a 'deixar ela em qualquer lugar e escapar', aproveitando o fato de ser réu primário para não ser preso imediatamente.
A família de Marisa Maria, pessoas muito humildes, foi embora logo após o crime, e Camila e sua irmã foram criadas pela avó paterna. A filha relata a dificuldade de assimilar essa realidade: “Da minha mãe sei muito pouco. Quando aquilo [o crime contra Marisa] começou a fazer parte da minha história, eu já tinha uma história, reconstruir tudo isso foi difícil”.
Aproximadamente dois anos após assassinar Marisa, Luiz Carlos se casou com Everly Rodrigues da Silva, a segunda vítima de seus atos violentos. As filhas do primeiro casamento chegaram a morar com a madrasta na infância, antes de Luiz ser detido pela condenação referente ao primeiro feminicídio. Desde 2019, Camila e a irmã cortaram totalmente o contato com o pai e se mudaram para a Itália, tentando deixar o passado para trás.
Dor perene
A busca de Camila e sua irmã por justiça e pela verdade sobre a morte de sua mãe, Marisa, foi marcada por obstáculos. As tentativas de obter o processo arquivado da morte de Marisa não tiveram sucesso, deixando um vácuo de informações e a sensação de impunidade. O novo crime em Neves Paulista, contudo, confirmou o terrível histórico reincidente de violência fatal de Luiz Carlos contra mulheres.
A dor de perder a mãe para um feminicídio é indescritível, e o fato de o agressor ser o próprio pai adiciona uma camada de complexidade e trauma. Para Camila, a revelação do segundo assassinato reacendeu não apenas a memória, mas a urgência de que a história de sua mãe não seja novamente silenciada ou esquecida pelos registros oficiais.
Casos como o de Marisa e Everly, onde a violência se repete, desafiam as estruturas de proteção às mulheres e a eficácia do sistema judiciário em prevenir a reincidência. A sociedade se questiona sobre como um indivíduo com um histórico tão grave pôde continuar em liberdade e cometer outro crime de tamanha brutalidade.
O ciclo da violência doméstica, frequentemente oculto e naturalizado, emerge com força nesses relatos. A luta de Camila pela memória de sua mãe é um testemunho da resiliência das vítimas indiretas e da persistência na busca por justiça e conscientização. É um alerta para a importância de ouvir e acolher aqueles que buscam ajuda, antes que a tragédia se repita.
A Polícia Civil, ao investigar o ocorrido em Neves Paulista, agora se depara com a complexidade de um agressor com histórico criminal extenso, que desafia os mecanismos de controle e reabilitação. O aprofundamento na vida de Luiz Carlos Prado é crucial para entender como um padrão tão destrutivo pôde persistir por décadas, culminando em mais uma vida ceifada e uma família dilacerada.
Vida roubada
Além dos feminicídios, Luiz Carlos Prado possuía outro registro criminal. Conforme apurado pelo g1, ele cumpria pena por roubo desde 2023, quando foi condenado a nove anos de prisão. Ele estava em liberdade condicional desde 27 de junho de 2026. A condenação por roubo envolvia a invasão e o assalto à casa de uma idosa de 88 anos em Neves Paulista, onde ele, armado com uma faca, ameaçou a cuidadora da vítima e roubou dinheiro, celulares, cartões e o carro da mulher.
Este histórico de roubo e as condenações por feminicídio pintam um retrato de um indivíduo com um comportamento criminoso persistente e de alta periculosidade. A liberdade condicional em que se encontrava no momento do segundo feminicídio levanta questionamentos sobre a avaliação de risco e as políticas de monitoramento de ex-detentos com histórico de violência.
A reincidência em crimes violentos, especialmente contra mulheres, sublinha a urgência de revisões nas abordagens preventivas e punitivas. Para as famílias das vítimas, a impunidade percebida, mesmo diante de condenações, é uma ferida que não cicatriza, especialmente quando os mecanismos legais parecem insuficientes para conter a violência.
O caso de Neves Paulista torna-se um doloroso exemplo de como a violência de gênero pode ser um problema sistêmico, onde a falta de atenção aos sinais, a dificuldade de acesso à justiça e as lacunas no sistema penal contribuem para a perpetuação de tragédias. A história de Marisa Maria Prado, esquecida por tempo demais, agora se une à de Everly Rodrigues da Silva, exigindo um olhar mais atento da sociedade e das autoridades.
A atuação da Polícia Civil na investigação do feminicídio de Everly e do suicídio de Luiz Carlos é fundamental para esclarecer todos os detalhes do ocorrido. O recolhimento de provas, o testemunho do filho e a análise da carta de despedida são peças-chave para a compreensão plena deste ciclo de violência fatal, que marca profundamente a comunidade de Neves Paulista.
Padrão violento
O padrão de violência exibido por Luiz Carlos Prado ressalta a importância de mecanismos mais robustos de proteção e acompanhamento de indivíduos com histórico de agressão. A reincidência em feminicídio, especificamente, indica uma falha crítica na prevenção e no combate a esse tipo de crime, que continua a ser uma das maiores chagas sociais do Brasil.
A história de Camila Prado, que buscou por anos a verdade sobre a morte da mãe, é um chamado à escuta e à valorização da voz das vítimas e seus familiares. O silêncio e o estigma em torno da violência doméstica muitas vezes impedem que os crimes sejam denunciados e que as vítimas recebam o suporte necessário para romper o ciclo de abusos.
É imperativo que a sociedade e as autoridades reflitam sobre as lições de Neves Paulista. A conscientização sobre os sinais de violência, a desconstrução de padrões machistas e a garantia de que as vítimas tenham acesso a redes de apoio e justiça eficazes são passos essenciais para evitar que mais vidas sejam roubadas pela violência de gênero.
A luta contra o feminicídio exige uma abordagem multifacetada, que inclua educação, legislação rigorosa, fiscalização eficiente e um sistema de justiça que não apenas puna, mas também previna. A memória de Marisa Maria Prado e Everly Rodrigues da Silva serve como um lembrete trágico da urgência em proteger as mulheres de seus agressores e garantir que nenhuma história de violência seja esquecida.
O desfecho do caso de Neves Paulista, com o feminicídio seguido de suicídio, encerra o ciclo de violência de Luiz Carlos Prado, mas abre um doloroso capítulo para as famílias e para a comunidade. A investigação da Polícia Civil é a etapa final para que a justiça, ainda que tardia e incompleta, possa ser buscada e que o legado das vítimas seja honrado.
Alerta público
Este caso serve como um alerta público sobre a persistência da violência doméstica e a importância de não subestimar o histórico de agressores. A reincidência de Luiz Carlos Prado em feminicídio é um lembrete sombrio de que a vigilância e a proteção das mulheres devem ser prioridades constantes para todos os setores da sociedade. Para mais informações sobre violência de gênero, acesse o canal do g1 Rio Preto e Araçatuba no WhatsApp.
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