Legado da raça Tabapuã: família Ortenblad mantém tradição e inovação na pecuária paulista
No coração do interior de São Paulo, o legado da raça Tabapuã, um dos pilares da pecuária brasileira, é zelosamente cultivado pela família Ortenblad. Em uma fazenda no município de Uchoa, a memória do médico Alberto Ortenblad, mentor da formação dessa raça na década de 1940, se materializa na dedicação de seus descendentes, que por cinco gerações preservam uma tradição que se confunde com a própria história do gado zebu no país.
A continuidade desse trabalho é personificada em Arthur Assumpcao Ortenblad Filho, de 36 anos, que hoje administra a propriedade. Com 300 vacas dedicadas à reposição de fêmeas e a produção de aproximadamente 150 touros anuais para o mercado nacional, a fazenda em Uchoa é um centro de excelência e inovação. Além da pecuária, a propriedade diversifica suas atividades com o cultivo de cana-de-açúcar e projetos de silvicultura, que visam à recuperação planejada de florestas.
Origem e evolução
A história da raça Tabapuã remonta à Fazenda Água Milagrosa, em Tabapuã (SP), onde, na década de 1940, Alberto Ortenblad iniciou um meticuloso processo de cruzamento. Fruto da união entre o gado mocho nacional e animais de origem indiana, a raça começou a tomar forma sob sua orientação e a do irmão, Rodolpho Ortenblad. A visão dos irmãos foi fundamental para estabelecer as bases genéticas que hoje definem o Tabapuã.
O método de seleção inicial, conforme detalhado por Arthur Filho, foi rigoroso. Os Ortenblad optaram pelo acasalamento <i>in-breeding</i> – técnica de cruzamento entre parentes próximos (pai com filha, neta e bisneta) – para segregar características desejáveis e eliminar as indesejáveis. Esse trabalho persistente e científico permitiu que a raça Tabapuã fosse gradualmente desenhada, até alcançar o reconhecimento oficial do Ministério da Agricultura, um marco para a pecuária nacional e para a família.
A gestão atual
Formado em engenharia agronômica pela Universidade de São Paulo (USP) e com experiência em fazendas nos Estados Unidos, Arthur Assumpcao Ortenblad Filho assumiu a gestão da propriedade em Uchoa em 2017. Sua rotina na fazenda é multifacetada, abrangendo desde a administração financeira e agrícola até a pecuária e a silvicultura. “Hoje, posso dizer que sou um gerente financeiro, agrícola, pecuário e florestal na fazenda. Tento estar presente em todas as frentes organizando os manejos necessários em cada atividade”, explica Arthur.
Na pecuária, Arthur é responsável pelos manejos sanitários, pela estação de monta, pelos controles zootécnicos, pelos registros de nascimentos e pelo gerenciamento diário do rebanho. A parte comercial também é uma de suas atribuições, desde o recebimento de clientes até a organização de leilões de machos e fêmeas ao longo do ano. Sua dedicação reflete não apenas o conhecimento técnico, mas também um profundo respeito pela herança familiar. “É impossível não ser influenciado por seus antepassados”, afirma.
Enquanto a propriedade em Uchoa prospera sob a gestão de Arthur, outra parte da família Ortenblad segue mantendo a criação do gado Tabapuã na Fazenda Santa Cecília, localizada em Tabapuã. Essa continuidade em diferentes frentes reforça o compromisso centenário da família com o campo e, mais especificamente, com a raça que tanto lhes proporcionou. “A família Ortenblad tem mais de 100 anos de vida no campo e 85 anos na criação dessa raça maravilhosa que tanto nos deu frutos”, reitera Arthur, enfatizando o valor intrínseco e sentimental da atividade.
Manejo do rebanho
A rotina na fazenda de Uchoa é meticulosamente organizada em torno do ciclo de vida do gado Tabapuã, com foco na reprodução, criação e bem-estar animal. O período de chuvas é crucial, pois marca o nascimento dos bezerros, que Arthur Filho descreve como a “colheita” dos recém-chegados. Após essa fase, a vacada é submetida a uma estação de monta de 120 dias, buscando a maior taxa de prenhez possível, enquanto as fêmeas inférteis são descartadas e abatidas, garantindo a produtividade do rebanho.
Qualidade genética
A seleção dos animais é um processo rigoroso. Os bezerros machos passam por provas de ganho de peso, seguindo os critérios da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Ao final dessas provas, realiza-se um ultrassom de carcaça para ranquear os garrotes, que serão ofertados ao mercado como touros jovens aos 24 meses. As bezerras, por sua vez, são desafiadas à precocidade sexual aos 14 meses, também com ultrassom de carcaça. Aquelas que emprenham são incorporadas como reposição, enquanto as que não emprenham são destinadas à venda.
A persistência e o aprimoramento contínuo são os pilares que sustentam a longevidade da raça Tabapuã nas mãos da família Ortenblad. “A raça representa um pouco da nossa luta e da nossa força no campo. E esperamos continuar por muitas gerações entregando o que mais sabemos fazer, que é um gado de qualidade, de origem e 100% brasileiro”, conclui Arthur. Esse compromisso não apenas mantém viva uma das mais importantes raças zebuínas do Brasil, mas também projeta para o futuro a excelência de uma pecuária sustentável e enraizada na tradição.
Para aprofundar-se em outras histórias inspiradoras do campo, [leia também: Jiboia vira 'inquilina' em sítio, ganha cantinho especial e passa a se chamar Margarida]. [Confira outras notícias sobre agronegócio e pecuária no interior de São Paulo.]
Tags:
Mais Recentes
Utilizamos cookies próprios e de terceiros para o correto funcionamento e visualização do site pelo utilizador, bem como para a recolha de estatísticas sobre a sua utilização.






