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31 de October de 2026

Proteção da soja: estudo da UFV revela perdas bilionárias e impacto na economia

Marília
31/10/2026 18:45
Redacao

Um estudo recente da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em colaboração com a Croplife Brasil, trouxe à luz a alarmante projeção de perdas de até 55% na produtividade das lavouras de soja no país. Essa queda substancial ocorreria caso as plantações não recebessem a proteção adequada contra a proliferação de pragas, doenças e ervas daninhas, revelando um cenário que exige atenção imediata e estratégias eficazes para salvaguardar uma das principais culturas agrícolas do Brasil.

A pesquisa alerta que tal redução na produção não se limitaria ao campo, desencadeando uma cascata de impactos negativos que reverberariam por toda a economia brasileira. As consequências iriam desde a desestabilização do mercado de exportação até o encarecimento de produtos essenciais para o consumidor final, como óleo de cozinha, carnes e derivados, evidenciando a interconexão profunda entre a agricultura e o cotidiano da população.

O setor da soja, em particular, é um pilar da economia nacional, contribuindo significativamente para o produto interno bruto (PIB) e para o equilíbrio da balança comercial. A ameaça de perdas tão vultosas levanta questionamentos urgentes sobre as práticas de manejo fitossanitário e a necessidade de se buscar soluções que garantam a sustentabilidade e a competitividade da cadeia produtiva, sem comprometer outros aspectos vitais.

No entanto, a discussão sobre a proteção das lavouras é complexa, especialmente no que tange ao uso de defensivos químicos. Enquanto essenciais para garantir a produtividade em larga escala, certas substâncias utilizadas no manejo fitossanitário têm sido alvo de controvérsia. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que alguns desses compostos podem ser nocivos ao meio ambiente e à saúde humana, colocando um dilema entre a necessidade de produção e a preservação.

O Ipea também destaca a concentração do consumo de agrotóxicos no Brasil, com a soja, o milho e a cana-de-açúcar respondendo por impressionantes 76% do total. Essa estatística sublinha a magnitude do desafio e a urgência de se explorar e implementar abordagens de proteção mais sustentáveis e menos agressivas, que possam mitigar os riscos associados e promover um equilíbrio duradouro para o setor agrícola e para a sociedade como um todo. [Leia também sobre o <a href="/link-interno-sobre-bioinsumos" target="_blank">papel dos bioinsumos na agricultura brasileira</a>]

Cenários de perdas

A profundidade do estudo da UFV é notável ao simular cenários distintos para ilustrar a dimensão das perdas potenciais. Os pesquisadores trabalharam com a ameaça de quatro doenças, incluindo a temida ferrugem-asiática e a mancha-alvo, cinco tipos de pragas, como a voraz mosca-branca, e nove variedades de plantas daninhas que competem diretamente com a soja por recursos vitais no solo.

Foram analisados três quadros: um sem qualquer controle fitossanitário, resultando na vulnerabilidade total da lavoura; um com controle parcial, que ofereceria até 40% de proteção; e um com controle ótimo, capaz de garantir uma defesa robusta de 80% da plantação. As estimativas da universidade revelam que, com um controle ótimo, a produtividade poderia atingir 72 sacas por hectare, um patamar de alta eficiência.

Contrastando com esse cenário ideal, um controle parcial reduziria a produtividade para 52 sacas, o que representa uma diminuição de 28% em relação ao controle ótimo. A situação mais drástica se desenharia na ausência completa de qualquer manejo, onde a produção cairia para meras 32 sacas por hectare, configurando a perda de 55% inicialmente projetada e ilustrando a fragilidade das culturas sem intervenção protetiva.

Para compensar uma perda dessa magnitude, o estudo aponta para uma necessidade irreal de plantar uma área adicional de 33,5 milhões de hectares, uma extensão quase equivalente ao tamanho total do estado de Goiás. Em termos de volume, a ausência de manejo resultaria em uma perda média de 121,3 milhões de toneladas de soja, com um valor estimado que ultrapassaria a marca de R$ 223,5 bilhões.

Os reflexos não parariam por aí, estendendo-se às projeções de exportação. Com um controle ótimo, a receita brasileira proveniente da exportação de soja alcançaria aproximadamente US$ 44,2 bilhões. No cenário sem controle, esse montante despencaria para US$ 26,6 bilhões, gerando uma diferença potencial colossal de US$ 17,6 bilhões por safra, um golpe significativo para a balança comercial do país. [Confira dados sobre o mercado global de commodities agrícolas no site da <a href="https://www.fao.org/home/en/" target="_blank" rel="noopener">FAO</a>]

Impactos ampliados

A redução da oferta de soja no mercado, consequência direta das perdas nas lavouras, provocaria uma alta estimada no preço do grão de até 49%. Esse aumento repercutiria diretamente na inflação oficial do país, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), adicionando cerca de 0,26 ponto percentual ao indicador, um impacto perceptível no poder de compra do brasileiro.

A pesquisadora Ana Carolyne Carvalho, da UFV, enfatiza a abrangência desse impacto: “Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço das carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, destaca. Sua análise ressalta a complexidade das cadeias de valor e como a produção agrícola afeta indiretamente diversos setores alimentícios.

Diante de tamanha vulnerabilidade, o estudo aponta para a importância de um manejo fitossanitário integrado, que combine diferentes abordagens para a proteção das lavouras. Entre os métodos considerados, destacam-se a biotecnologia, que inclui organismos geneticamente modificados; o melhoramento genético das plantas, visando maior resistência; a aplicação de bioinsumos; e o uso estratégico de defensivos químicos, todos empregados dentro de um planejamento que maximize a eficácia e minimize os riscos. [Explore mais sobre o <a href="/link-interno-manejo-integrado" target="_blank">manejo integrado de pragas na agricultura moderna</a>]

A discussão sobre a efetividade e os riscos dos defensivos químicos ganha ainda mais relevância quando se observam os dados de consumo no Brasil. Um estudo do Ipea revelou que, entre 2003 e 2023, o uso desses produtos, popularmente conhecidos como agrotóxicos, aumentou 4,4 vezes no país, saltando de um consumo anual de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas, um crescimento alarmante que coloca o Brasil em destaque mundial.

Essa escalada fez do Brasil o país com o maior uso de agrotóxicos por hectare plantado, registrando 10,9 quilos por hectare (kg/ha). Esse índice é quatro vezes superior ao dos Estados Unidos (2,85 kg/ha) e cinco vezes maior que o da China (1,9 kg/ha), números que acentuam a urgência de uma reavaliação das práticas e a busca por alternativas mais equilibradas para a proteção das lavouras.

Defensivos e riscos

Robson Barizon, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), alerta para os perigos inerentes: “Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade”, explica. Sua fala sublinha a necessidade de cautela e regulamentação rigorosa no uso dessas substâncias.

Barizon também discute a natureza ambivalente dos organismos geneticamente modificados (OGM) no contexto da proteção das lavouras. Segundo ele, os OGM podem tanto servir como uma estratégia para diminuir a dependência de agrotóxicos, ao conferir resistência natural a pragas e doenças, quanto, paradoxalmente, levar a um incremento no uso desses produtos, dependendo de sua aplicação e das características específicas das plantas modificadas.

Por um lado, algumas plantas geneticamente modificadas são projetadas para serem imunes a certas doenças e predadores, o que, em tese, eliminaria ou reduziria a necessidade de defensivos para protegê-las. Essa abordagem oferece uma promissora via para a sustentabilidade e a diminuição da carga química no ambiente agrícola, representando um avanço tecnológico considerável na busca por soluções eficientes.

Por outro lado, a resistência de algumas plantas OGM ao efeito de determinados agrotóxicos abre a possibilidade para que os produtores apliquem doses mais elevadas dessas substâncias. O objetivo seria aumentar a efetividade na erradicação de ervas daninhas que crescem entre as lavouras, um cenário que, em vez de reduzir, poderia intensificar o uso de químicos, levantando preocupações sobre a evolução da resistência e o impacto ecológico.

A complexidade do cenário exige, portanto, uma avaliação contínua e aprimorada das tecnologias agrícolas. É fundamental que as decisões sobre manejo fitossanitário sejam pautadas em evidências científicas robustas, considerando não apenas a produtividade imediata, mas também os impactos de longo prazo na saúde do ecossistema e da população. A pesquisa e o desenvolvimento de novas soluções, aliadas a políticas públicas eficazes, são cruciais para um futuro agrícola mais sustentável. [Confira nossa seção de <a href="/link-interno-noticias-agronegocio" target="_blank">Notícias sobre sustentabilidade no agronegócio</a> para mais informações.]

Caminhos futuros

A análise dos dados apresentados pelo estudo da UFV e pelas pesquisas do Ipea e da Embrapa desenha um panorama desafiador, mas também de grandes oportunidades para o agronegócio brasileiro. A proteção das lavouras de soja é inegavelmente vital para a economia e para a mesa dos consumidores, mas o caminho para essa proteção deve ser trilhado com responsabilidade e inovação, balanceando a produtividade com a sustentabilidade ambiental e a saúde pública.

A busca por soluções que integrem biotecnologia, melhoramento genético, bioinsumos e um uso consciente de defensivos químicos, sob a égide do manejo integrado, é a direção mais promissora. É nesse equilíbrio que reside a chave para garantir que o Brasil continue a ser um gigante na produção de soja, ao mesmo tempo em que avança para um modelo agrícola mais resiliente, seguro e alinhado com as demandas de um futuro sustentável.



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