Bombeiro paulista desafia limite em ultramaratona de montanha
A determinação humana em face de desafios extremos encontrou um novo patamar na Serra da Mantiqueira, onde o soldado da Polícia Militar e bombeiro Vitor Borges Paes, oriundo de Adamantina, no interior de São Paulo, concluiu a exigente Ultra Misión 110 km. A jornada, que se estendeu por trilhas sinuosas de Passa Quatro, em Minas Gerais, não foi apenas uma corrida; representou um embate contra limites físicos e psicológicos, marcando um feito notável para o atleta.
Com 110 quilômetros de percurso e um ganho de elevação acumulado de 6.348 metros, alcançando altitudes próximas a 2.800 metros, a prova é reconhecida pela sua complexidade e pelo cenário deslumbrante que abrange mais de 30 municípios entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Paes, que atua no 14º Grupamento de Bombeiros em Osvaldo Cruz, enfrentou longas subidas e o cansaço avassalador, sentindo a energia esgotar-se em diversos momentos.
Apesar das dores nos joelhos e da constante tentação de desistir, o bombeiro manteve o foco na estratégia de alcançar o próximo ponto de apoio, uma etapa por vez. Esse método de progressão, mentalmente desafiador, foi crucial para a superação de cada trecho da ultramaratona, permitindo que a vontade de seguir adiante prevalecesse sobre a exaustão.
Ao cruzar a linha de chegada, um ato carregado de simbolismo marcou o término da prova: Vitor segurava a bandeira do Corpo de Bombeiros. Esse gesto, segundo ele, foi mais do que a celebração de um triunfo pessoal; foi a representação da resiliência e da força de vontade intrínsecas à sua profissão, uma mensagem de que é possível superar grandes obstáculos.
“Cruzar a linha de chegada segurando a bandeira do Corpo de Bombeiros foi algo muito valioso para mim, me senti renovado por mais que tivesse acabado de correr 110 km, me senti representando a força de vontade que todo bombeiro tem diante de um grande desafio. Além do mais, cruzar a linha de chegada é mostrar que é possível, que outros também podem”, relatou Vitor Borges Paes, emocionado com a conquista.
A preparação
A jornada de Paes rumo à Ultra Misión 110 km começou meses antes, no fim do ano passado, com uma preparação minuciosa e estratégica. Nos últimos cinco meses, o bombeiro intensificou seus treinos sob a orientação de um treinador especializado, seguindo planilhas rigorosas desenvolvidas especificamente para as demandas físicas e mentais de uma ultramaratona de montanha.
Os treinos de corrida, que chegaram a impressionantes 90 quilômetros semanais, foram apenas uma parte do plano. A preparação de Vitor foi holística, abrangendo aspectos cruciais como alimentação balanceada, qualidade do sono, fortalecimento muscular direcionado e, fundamentalmente, preparação psicológica. Cada detalhe foi pensado para equipá-lo para os desafios da montanha.
Conciliar a rotina de treinos intensos com a exigente profissão de bombeiro apresentou um desafio adicional. As jornadas de trabalho de 24 horas dificultam a realização de treinos longos fora do posto. No entanto, Vitor demonstrou criatividade e disciplina para adaptar-se à sua realidade, transformando o ambiente de trabalho em parte de seu regime de condicionamento físico.
“É difícil conciliar a função de bombeiro com os treinos, pois trabalho 24 horas e geralmente meus treinos de corrida são longos e não consigo ficar esse tempo todo fora para correr 20, 30 km. Então nos dias de serviço eu faço um trabalho de fortalecimento na academia do posto ou uso a bicicleta da academia para pedalar”, explicou o bombeiro, detalhando suas estratégias para manter a forma.
A crença de Paes é que uma ultramaratona de montanha exige uma entrega que transcende o físico. “Uma ultramaratona de 110 km na montanha exige conexão e entrega. É uma junção de corpo, mente e espírito e você precisa entrar nela sem ego e sem vaidade, porque a montanha cobra caro”, filosofou, antecipando as dificuldades que viriam.
Os percalços
A montanha, como previsto por Vitor, de fato “cobrou caro” ao longo do percurso. Um dos momentos mais críticos da prova ocorreu na última montanha, conhecida como Campo do Muro. Quatro quilômetros de subida íngreme consumiram aproximadamente duas horas de esforço extenuante, testando ao máximo a resistência do atleta.
Antes de Campo do Muro, outro gigante se impôs: a Pedra da Mina. Este pico representa um dos pontos mais altos da Serra da Mantiqueira, com uma altitude que se aproxima dos 2.800 metros. A ascensão a este ponto foi um divisor de águas, não apenas pela exigência física, mas também pelo forte impacto psicológico que precedeu a subida.
“O trecho mais desafiador foi subir o pico chamado Pedra da Mina, pois eu sabia que era a maior subida da prova. É o ponto onde bate 2.800 metros de altitude então isso pesou muito no psicológico, pois eu sabia o que já estava me esperando”, expressou o bombeiro, evidenciando a batalha mental que acompanhou o esforço físico.
Durante a progressão, o corpo começou a apresentar as consequências do esforço prolongado. As dores nos joelhos, em particular, tornaram-se um tormento constante, principalmente nas descidas. Vitor descreveu as baixadas como tão desgastantes quanto as subidas, exigindo uma cautela e um controle que demandavam ainda mais energia.
Em face das dores intensas, Vitor precisou adaptar o ritmo, fazendo pausas frequentes e descendo as trilhas com extrema lentidão. A ideia de abandonar a prova surgia repetidamente, uma tentação poderosa em momentos de fragilidade física e mental, mas que foi resistida com tenacidade. A capacidade de persistir em tais condições é o que define um ultramaratonista.
Força mental
“Quando as dores nos joelhos apareceram foi um momento muito difícil. As subidas são longas e cansativas, mas as descidas destroem os joelhos. Então, com fortes dores, eu parava bastante e descia devagar, com a vontade constante de parar”, relembrou Paes, descrevendo a intensa batalha contra o próprio corpo. A mente, entretanto, provou ser uma aliada poderosa.
Apesar do sofrimento físico, o bombeiro manteve a visualização da linha de chegada, um farol de esperança em meio à exaustão. A imagem de cruzar a meta, aliada à consciência de que representava seus colegas e a instituição, serviu como um poderoso catalisador para a sua perseverança, impulsionando-o a cada passo.
O exemplo de Vitor Borges Paes ressoa com a mensagem de que a superação não é apenas física, mas profundamente enraizada na força de vontade e na conexão entre corpo, mente e espírito. Sua história na Serra da Mantiqueira vai além de uma corrida; é um testemunho da capacidade humana de transcender limites autoimpostos e concretizar objetivos desafiadores. Ao abraçar a bandeira do Corpo de Bombeiros na chegada, Paes não celebrou apenas sua vitória, mas a essência do heroísmo cotidiano e a inspiração para todos que buscam seus próprios cumes. Para mais notícias sobre desafios e superação no esporte, <a href="#" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>.
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