Documentário ‘Y Anhembi’ sobre o rio Tietê, de diretor paulista, é premiado em festival de Londres
O rio Tietê, um dos mais simbólicos cursos d'água do estado de São Paulo, ganha destaque internacional através do documentário 'Y Anhembi', dirigido pelo cineasta Vicentini Gomez, natural de Presidente Prudente (SP). A média-metragem foi agraciada com o prêmio de melhor diretor no London Cine Awards, em Londres, consolidando uma narrativa que explora a profunda conexão dos povos indígenas com o rio, desde sua nascente límpida até sua desafiadora jornada pela metrópole e seu renascimento no interior. A obra propõe uma reflexão essencial sobre a dimensão histórica, cultural, espiritual e ambiental do Tietê, um chamado urgente à sua preservação.
Ao saber do reconhecimento internacional, Vicentini Gomez expressou seu contentamento. 'Recebi o prêmio com muita alegria e gratidão', afirmou o diretor. 'Ser reconhecido como melhor diretor pelo London Cine Awards, com um filme dedicado ao rio Tietê e à relação dos povos originários com esse território, tem um significado muito especial. É a confirmação da força de uma história brasileira contada a partir de suas raízes, de sua cultura e de sua importância ambiental'. A premiação, divulgada na quinta-feira, 16 de maio, no site oficial do festival, reforça o impacto da produção em um cenário global.
Reconhecimento global
O prêmio de melhor diretor não apenas celebra o talento individual de Vicentini Gomez, conhecido por papéis em renomadas produções televisivas como 'Avenida Brasil' (2012) e 'Joia Rara' (2013), mas também atesta o trabalho colaborativo de toda a equipe envolvida na realização de 'Y Anhembi'. A distinção internacional sublinha a capacidade do cinema brasileiro em abordar temas de relevância local com ressonância universal, destacando a complexidade e a riqueza cultural de um rio que é, para muitos, um espelho da própria história e desafios do Brasil. A repercussão do festival <a href='https://www.londoncineawards.com/' target='_blank' rel='noopener'>London Cine Awards</a> amplifica a mensagem de uma obra que transcende fronteiras.
A narrativa de 'Y Anhembi' mergulha em uma compreensão profunda do Tietê, partindo da perspectiva dos povos originários. 'Falar sobre o rio Tietê é falar sobre a formação do Brasil e sobre uma relação muito antiga com esse território', detalha o diretor. Para essas comunidades, o rio sempre foi muito mais do que um curso d'água; foi e ainda é 'fonte de vida, caminho, alimento e também parte da família, um parente com o qual se estabelece uma relação de respeito e pertencimento'. Essa visão ancestral oferece um contraponto crucial à forma como a sociedade moderna tem tratado o manancial, frequentemente reduzindo-o a um mero descarte de efluentes ou uma via para o desenvolvimento industrial.
A jornada do rio
Com 30 minutos de duração, o documentário convida o espectador a uma imersão na realidade do Tietê e a uma reflexão sobre a responsabilidade coletiva em sua preservação. A equipe de Vicentini Gomez percorreu o extenso curso do rio, desde sua nascente intocada na Serra do Mar, em Salesópolis, até sua foz no rio Paraná, atravessando todo o <a href='https://www.saopaulo.sp.gov.br/' target='_blank' rel='noopener'>Estado de São Paulo</a>. Essa jornada física e simbólica é capturada por imagens aéreas e terrestres que revelam as diferentes faces do rio, do seu esplendor natural à sua degradação urbana e, em algumas áreas, sua surpreendente recuperação.
A produção foi viabilizada pelo <a href='https://www.cultura.sp.gov.br/editais/' target='_blank' rel='noopener'>Edital Fomento CULTSP PNAB nº 20/2024</a>, um importante incentivo à cultura e ao cinema nacional. 'Y Anhembi' enriquece sua narrativa com depoimentos de pesquisadores e a interpretação de atores indígenas, como Toni Gonçalves e Lucas Augusto Martins, que dão vida a figuras ancestrais. Eles servem como guias poéticos, lembrando que a rica história do rio Tietê antecede em muito a chegada dos colonizadores. Essa perspectiva fundamental resgata a memória de um rio que 'falava, agora engasga. Um dia foi sagrado, depois estrada. Hoje? Esgoto', nas palavras do próprio documentário, ecoando o cenário que se mantém, como reportado em outras ocasiões, com a <a href='[link-interno-qualidade-agua-tiete]' target='_blank' rel='noopener'>qualidade da água do rio Tietê ainda preocupante</a>.
Perspectiva ancestral
A principal mensagem que 'Y Anhembi' busca transmitir é um alerta sobre a complexa relação que a humanidade estabelece com a natureza. Em um contexto de urgentes mudanças climáticas, crescente poluição dos rios e diminuição dos recursos naturais, o filme se torna um convite irrefutável para que a sociedade 'reveja com urgência a maneira como ocupamos e tratamos o planeta', conforme reforça o diretor artístico. Através da sabedoria dos povos originários, que reconhecem o rio como uma entidade viva e um membro da família, o documentário oferece um caminho para repensar nossa abordagem e fomentar uma cultura de respeito e cuidado ambiental.
A influência dos povos originários se estende ao próprio título da obra. 'Y Anhembi' é o nome ancestral pelo qual o rio Tietê era conhecido pelas comunidades indígenas que habitavam suas margens. Essa escolha não é meramente estética; ela busca 'valorizar essa ancestralidade e recordar que, muito antes de ser chamado de Tietê, o rio já fazia parte da vida, da cultura e da espiritualidade indígena'. Ao unir o nome ancestral à denominação atual — 'Y Anhembi: Rio Tietê' —, o filme estabelece uma ponte entre o passado e o presente, garantindo que o público reconheça imediatamente o tema enquanto é introduzido a uma camada mais profunda de significado e história.
Legado e futuro
Durante a elaboração do roteiro, Vicentini Gomez relatou uma profunda compreensão da lição dos povos originários: a de reconhecer o rio como fonte de vida e parte integrante da família, merecedor de cuidado e respeito. 'Espero que o filme ajude o público a olhar novamente para o Tietê e compreender sua importância, proteger a nossa existência e o futuro das próximas gerações', almeja o diretor. Essa esperança reflete o desejo de que a arte possa ser uma ferramenta poderosa de conscientização e mobilização, impulsionando a sociedade a adotar práticas mais sustentáveis e a defender a integridade dos nossos ecossistemas fluviais.
O reconhecimento de 'Y Anhembi' em um festival de cinema tão prestigiado como o London Cine Awards não só celebra a qualidade artística da produção, mas também reafirma a universalidade da sua mensagem. A recepção positiva de críticos internacionais, como a menção de norte-americanos elogiando seu trabalho após 50 anos de carreira, demonstra que a história do rio Tietê, contada sob a ótica da ancestralidade e da preservação, tem o poder de tocar corações e mentes em qualquer parte do mundo. Essa visibilidade é crucial para trazer à tona o debate sobre a saúde dos nossos rios e a necessidade de revermos nossa relação com o planeta.
Em suma, 'Y Anhembi' é mais do que um documentário premiado; é um convite à reflexão e à ação. É um lembrete vívido de que a vida de um rio está intrinsecamente ligada à nossa própria existência e à memória de um povo. Que o sucesso deste filme inspire não só a valorização do cinema brasileiro, mas, acima de tudo, a proteção e o respeito por um dos nossos mais valiosos patrimônios naturais: o rio Tietê.
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